Estados Unidos, “Alce Negro” a caminho da Santidade

A Conferência Episcopal aprovou a primeira fase da causa de Black Elk, o servo de Deus pertencente aos nativos Lakota do povo Sioux nas terras entre Dakota do Norte e do Sul

MARIA TERESA PONTARA PEDERIVA – Trento-  21/11/2017  –  Imagem: Black Elk

A Conferência Episcopal aprovou a primeira fase da causa de Black Elk, o servo de Deus pertencente aos nativos Lakota do povo Sioux nas terras entre Dakota do Norte e do Sul.

“O meu coração agora está triste, mas nunca se tornará mau – escreveu ele numa carta em 1948.  –  Desde quando Wakan Tanka (o Grande Espírito, nome Lakota para indicar  Deus) deu luz ao meu coração, ele permanece numa luz que não conhece ocaso”.

Tradução: Orlando Almeida

Após o “Lírio dos Iroqueses”, santa Kateri Tekakwitha, a jovem da tribo dos Mohawk, à qual é dedicado o santuário perto de Fonda no Estado de Nova York e venerada em toda a América do Norte, o número de nativos americanos alçados à honra dos altares poderia dobrar. Com efeito, a Conferência Episcopal dos Estados Unidos, reunida na semana passada em Baltimore para a assembleia plenária de outono, a pedido do bispo Robert D. Gruss de Rapid City (Dakota do Sul),  deu início à fase diocesana de reconhecimento do servo de Deus, Nicholas Black Elk do povo Lakota, também chamado “Teton”, um dos ramos dos índios Sioux que vivem entre Dakota do Norte e Dakota do Sul.

Exterminados pelos colonizadores durante quase três séculos, os nativos norte-americanos, que hoje residem principalmente em algumas Reservas, obtiveram o reconhecimento dos direitos civis e políticos somente em meados do século XX (Civil Rights Act, de 1964). A partir desse momento, começou um lento e difícil renascimento dessas populações, que evoluiu paralelamente às reivindicações dos afro-americanos: um movimento acompanhado pelos católicos com sempre maior convicção.

 

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(Santa Kateri TekakwithaSanta Kateri Tekakwitha – imagem da pinterest)

Foi decisivo para isso o reconhecimento dos erros cometidos pela grande maioria dos missionários que acompanharam os conquistadores Europeus, em termos de oposição e irradicação da cultura local. “Peço-vos humildemente perdão, não só pelas ofensas cometidas pela Igreja, mas também pelos crimes cometidos contra os povos indígenas durante a chamada conquista da América” – declarou o Papa Francisco num discurso histórico no Congresso Mundial dos Movimentos Populares em Santa Cruz, Bolívia, durante a sua visita em julho de 2015.

É na senda aberta por essa reavaliação cada vez mais explícita da cultura indígena, por parte da Igreja Católica, que se situa a história de Black Elk (Alce Negro). Graças a ele, nas celebrações eucarísticas, às vezes até fora das reservas, hoje a cultura dos nativos é revivida entre cantos e danças (e, no momento da consagração, o tambor presta homenagem a Cristo, que os Lakota chamam Wanikiya, “Aquele que faz viver”).

Black Elk-Alce Negro (esta é pelo menos a tradução em inglês do nome indígena Heȟáka Sapa que na realidade significa Cervo negro) nasceu às  margens do rio Little Powder, na tribo de Oglala Lakota – um povo que se orgulha de figuras como Touro Sentado -Thathánka Íyotake –  e o próprio Black Elk era o primo de Thašúŋke Witkó  – Crazy Horse [Cavalo Louco]- mas a data é incerta e faz-se remontar a dezembro de 1863 (segundo o calendário Lakota nasceu “no inverno, quando os corvos eram mortos no rio”).

As peripécias da sua vida, contou-as ele mesmo em 1932 durante uma longa entrevista, com a ajuda do filho Ben, concedida ao etnólogo e poeta John G. Neihardt, publicada em várias edições (a última data de 2008). Na década de 1970, o livro “Black Elk Speaks” tornou-se a fonte mais importante para o conhecimento da espiritualidade dos nativos americanos, reavaliada a tal ponto que, em 11 de agosto de 2016, o órgão do Governo americano encarregado da nomenclatura geográfica dos EUA decidiu oficialmente renomear como Black Elk Peak o então chamado Harney Peak, o ponto mais alto de Dakota do Sul, também como reconhecimento do significado da montanha para os povos indígenas.

Homem da medicina [pajé], como o avô, Alce Negro converteu-se ao catolicismo em 1904, aos quarenta anos (era católica a sua primeira mulher, Katie, que  morreu em 1903), junto com três filhos: graças aos jesuítas da missão do Santo Rosário, perto de Pine Ridge, – que inicialmente se tinham oposto auma cerimônia de cura presidida por ele – foi batizado em 6 de dezembro, festa de São Nicolau, com o nome de Nicholas William. Casado novamente com Anne, também católica, teve outros filhos e tornou-se catequista: conhecido por sua memória extraordinária ao citar a Escritura e pela sua eficiência na pregação, as crônicas contam que o seu testemunho de fé contribuiu para mais de 400 conversões.

Nas suas narrativas, um evento significativo que ocorreu aos nove anos de idade, durante uma doença grave. Ele lembra-se de ter tido uma visão: a visita das criaturas de Trovão (Wakinyan), representando as seis direções sagradas (oeste, leste, norte, sul, acima e abaixo), “espíritos gentis e amorosos como os antepassados”. Deles e da visão de uma grande árvore que simbolizava a vida na terra e toda a humanidade, “tinha aprendido muitas coisas para ajudar o seu povo”. Durante a visão, recorda ter sido levado ao centro da terra onde havia uma montanha, um eixo em torno do qual girava toda a esfera celeste: um círculo “grande como a luz das estrelas de dia e das estrelas de noite” rodeava uma grande árvore florida como proteção, paterna e materna, do seu povo de todos os tempos.

Em 1887, viajou para a Inglaterra junto com o Buffalo Bill Wild West Show, um espetáculo circense em que eram apresentadas cenas de Far West, entre as quais a batalha de Little Bighorn em 1876 (onde o general Custer morreu): um dos eventos memoráveis foi por ocasião do Jubileu de Ouro da Rainha Vitória.

Alce Negro reconheceu que, durante a sua permanência na Europa, tinha tido “uma extraordinária oportunidade para estudar o estilo de vida do homem branco e aprender a língua inglesa”, mas depois de pouco tempo abandonou a companhia para retornar à sua terra (participou inclusive da batalha de Wounded Knee em 1890). Baseado na sua experiência de teatro,  fez algumas apresentações com a finalidade de levar aos seus conterrâneos brancos a vida e a cultura do seu povo. Morreu em 19 de agosto de 1950.

Hoje, na sua paróquia de Pine Ridge, fundada pelos jesuítas em 1890 – que só alguns meses atrás decidiram devolver as terras tomadas dos nativos – já é tido como  santo, inclusive devido à aceitação serena da longa lista de sofrimentos que encontrou: a morte da sua primeira esposa junto com  o filhinho William, e depois a de outro filho, John, vítima da tuberculose aos 12 anos de idade, e ainda outro filho nascido morto e mais uma enteada falecida em 1910. “O meu coração agora está triste, mas nunca se tornará mau – escreveu ele numa carta em 1948.  –  Desde quando Wakan Tanka (o Grande Espírito, nome Lakota para indicar  Deus) deu luz ao meu coração, ele permanece numa luz que não conhece ocaso”.

Em 1885, quanto tinha ficado sabendo da história de Kateri Tekakwitha, Black Elk tinha assinado uma petição pela causa da sua canonização (que ocorreu mais tarde em 2012 por vontade de Bento XVI), enquanto que uma petição pela causa dele, com mais de 1.600 assinaturas, foi apresentada pela família ao bispo Gruss de Rapid City em 14 de março de 2016.

O início do processo que pode levá-lo aos altares faz parte de outro processo que representa uma cura da memória de muitos eventos históricos ligados a um passado que se torna uma chamada à construção de uma convivência melhor (alguns falam até de ‘descolonização’). No que diz respeito à Igreja, Black Elk é considerado o fautor da fusão ideal entre a cultura Lakota e a cultura católica. “Esta inculturação pode revelar algo da verdadeira natureza e da santidade de Deus” – afirmou Mons. Gruss (que no passado fez carreira na aeronáutica militar) na celebração na Igreja do Santo Rosário no verão passado quando nomeou como postulador diocesano Bill White, da tribo Lakota e candidato ao diaconato. E são muitos os que confiam no apoio do Papa Bergoglio que também falou da espiritualidade indígena na encíclica Laudato Sì (LS 63).

Até agora, a Igreja dos Estados Unidos tem 11 santos, 3 beatos (o último, em ordem cronológica, é o capuchinho Francisco Solano Casey, desde 18 de novembro) e 11 veneráveis.

 

 

MARIA TERESA PONTARA PEDERIVA

 

http://www.lastampa.it/2017/11/21/vaticaninsider/ita/nel-mondo/stati-uniti-alce-nero-sulla-via-della-santit-UdfchWeZyxZMb6HAK24tzO/pagina.html

 

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https://es.aleteia.org/2017/11/04/el-jefe-sioux-nicholas-w-black-elk-alce-negro-de-camino-a-los-altares/

 Alce Nero parla davvero – MASSIMO INTROVIGNE, Cristianità n. 237-238 (1995)

http://alleanzacattolica.org/alce-nero-parla-davvero/

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