“AS JORNADAS MUNDIAIS DA JUVENTUDE SÃO MUITO CONCORRIDAS, MAS OS NOSSOS SEMINÁRIOS E NOVICIADOS ESTÃO VAZIOS”

Jesús Bastante, 15/11/2017

Foto: Rodríguez Carballo durante a sua intervenção seu discurso na CONFER

Rodríguez Carballo: “Temos de fazer uma séria autocrítica: os jovens não entendem 99% das nossas homilias”. “Os abusos sexuais são crimes que deixam muitos jovens meio mortos e à beira da estrada”..

Tradução: Orlando Almeida

“O Pedro de hoje chama-se Francisco, ‘ponto final’ – assinalou Carballo, que criticou o fato de na vida religiosa estarem surgindo “correntes fundamentalistas”.

Temos de fazer uma autocrítica séria e mudar a linguagem: os jovens não entendem 99% das nossas homilias”.

O secretário da CIVCSVA [Congregação para os Institutos de Vida consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica], o franciscano José Rodríguez Carballo, encerrou a Assembleia da CONFER [Conferencia Española de Religiosos] ao meio dia com uma dura chamada à Igreja para “passar da teoria à prática” no trato com os jovens.

Jovens que estão cada vez mais longe da Igreja. Uma “geração selfie” que, além disso, viveu muito de perto a má imagem de clérigos e de religiosos, em boa parte como resultado dos escândalos da pederastia. Rodríguez Carballo foi especialmente duro:Os abusos sexuais, embora não sejam exclusivos de clérigos e religiosos, não deixam de ser escandalosos e verdadeiros crimes que deixam muitos meio mortos e na beira do caminho”.

Estamos nos afastando dos jovens” – constatou. – “Falamos muito deles, talvez para julgá-los e condená-los, mas não falamos a eles.

Oferecemos a eles um caminho de fé com categorias que não são compreensíveis para eles” – admitiu o religioso galego numa vibrante conferência, na qual traçou, em grandes linhas, as características da chamada “geração selfie” ou dos “milenials”, e as razões do abandono da fé por boa parte deles.

Isto é, – ressaltou – vivemos em plena geração dos bancos vazios“, que utiliza “uma linguagem desencarnada, abstrata e distante. E muitas vezes moralizante ou condenatória”. É preciso mudar a linguagem: os jovens não entendem 99%  das nossas homilias” – denunciou Carballo.

As JMJ são muito concorridas, mas os nossos seminários e noviciados estão vazios – questionou o prelado – pedindo aos religiosos e bispos presentes (encontravam-se ali o cardeal Osoro e os bispos, também religiosos, Luis Ángel de las Heras e Eusebio Hernández Sola) para pensarem no que se pode fazer.

“Chegou o momento em que é preciso passar da teoria à prática – disse Carballo – que pediu à vida consagrada “um novo olhar para a juventude de hoje”, vendo “cada jovem concretamente”, com “uma pastoral personalizada”.

“Uns 75% de nós espanhóis, entre 14 e 60 anos de idade, dormem com o telefone celular ao lado; é a primeira coisa que consultamos quando acordamos” – admitiu o prelado, – que enfatizou que “aparentemente estamos muito conectados, mas nunca estivemos tão isolados como neste momento”.  O mundo digital – acrescentou – “está vivendo um processo revolucionário de transformação“, especialmente entre os jovens, que “não se consideram parte de nada, cada um olha para si mesmo”.  

“Uma geração auto-referencial, ausente do mundo que a rodeia, com uma comunicação mais virtual do que real”, que “evita questões que lhe apertem o coração”. Uma geração “de consumidores por convicção, por vocação. Parece que muitos jovens nasceram para comprar, consumir… e jogar fora“, com a consequente “perda da categoria do mistério”. Uma “eutanásia do desejo” – afirmou – que influencia na visão do jovem sobre a religião, em “um mundo em que a fé não se pode dar por descontada, como a Espanha”.

E uma advertência final, mas importante, para religiosos e bispos. “O Pedro de hoje chama-se Francisco, ponto final” – afirmou Carballo – que criticou o surgimento de “correntes fundamentalistas” na vida religiosa.

Há esperança? Sim.Também há jovens hoje, e muitos, que procuram um sentido pleno para as suas vidas, que se entregam incondicionalmente às grandes causas, que amam profundamente a Jesus e mostram uma autêntica compaixão para com a Humanidade”.

Os jovens, “para além de certos clichês, buscam essa harmonia e esperam que haja alguém acordado que os acorde”. E perguntou: “a vida consagrada, está acordada?“.

O mais grave, para além da crise numérica, é isso: “a resignação”. E os jovens “esperam consagrados acordados que os acordem. Alguém ordenado que os ajude a ordenar-se, que viva em harmonia para ajudá-los a alcançá-la”. É aqui “onde entramos nós, os consagrados, e esta é a nossa grande responsabilidade: ajudar para que o jovem consiga harmonizar as suas inquietudes”.

“Sejamos profetas de alegria. Menos consagrados com cara de funeral” – concluiu o arcebispo. “Menos consagrados com cara de amargurados, e mais com cara de redimidos. A alegria, mas não de plástico. Só temos que prestar contas a Deus”.

 

*Acompanha vídeo da XXIV Assembleia Geral CONFER 2017, com a intervenção de Mons. José Rodríguez Carballo, Secretário da CIVCSVA [em espanhol]. Duração: 1:16:31.

 

 

 

 

Jesús Bastante

Fonte:  http://www.periodistadigital.com/religion/vida-religiosa/2017/11/15/rodriguez-carballo-reclama-a-la-iglesia-pasar-de-la-teoria-a-la-practica-en-su-relacion-con-los-jovenes-religion-confer-selfie-pederastia-consagrados-alegria.shtml

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