Lutero: a fé e as indulgências

O Papa, com a audácia que o Evangelho dá, “denunciou e condenou o “mercadejar” no que ao inferno, ao céu e ao purgatório se refere

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Foi ali, na Dieta de Worms, que Lutero fez o discurso que marcaria a ruptura com a Igreja de Roma, o discurso que termina com as famosas palavras sempre lembradas quando se trata de defender a objecção de consciência:

“Se me não refutardes através do testemunho das Escrituras ou mediante argumentos evidentes – uma vez que não creio nem nos papas nem nos concílios, pois é evidente que já muitas vezes se equivocaram e se contradisseram -, estou encadeado aos textos da Escritura e a minha consciência cativa da Palavra de Deus. Não posso retractar-me nem me retractarei de nada, porque não é justo nem honesto agir contra a consciência. Que Deus me ajude! Amém.”

Lutero já estava excomungado e podia ser preso. Por isso, Frederico III conseguira do imperador Carlos V um salvo-conduto para ele poder ir a Worms e regressar, sem ser detido.

  • Depois da sua declaração, ficava proscrito,
  • podendo o seu fim ser a fogueira,
  • como acontecera a Jan Hus, que também queria a reforma da Igreja.

Assim, o príncipe Frederico, astutamente,

  • sequestrou-o, para protegê-lo no seu castelo de Wartburg,
  • onde se dedicou à tradução do Novo Testamento,
  • contribuindo decisivamente para a constituição do alemão moderno.

Abandonou o hábito de frade em 1524 e casou-se com Catarina de Bora em 1525, tendo sido um bom marido e pai.

 

2 Lutero nasceu em Eisleben em 1483. Estudou Filosofia e Direito. A sua vida sofreu uma reviravolta quando no dia 2 de Julho de 1505, no meio de uma grande tempestade, um raio lhe caiu perto e, aterrado, prometeu:

“Santa Ana, ajuda-me, far-me-ei monge.”

No dia 17 de Julho seguinte, contra a vontade do pai, cumpriu e deu entrada no Convento dos Agostinhos em Erfurt, em cuja universidade estudava. Foi ordenado em 1507, doutorando-se em Teologia em 1512, e exerceu como professor de Teologia Bíblica. Antes, enviado pelo superior, J. von Staupitz,

  • passou por Roma, onde,
  • constatando o fausto e a vida escandalosa do Papa e da Cúria,
  • mais aprofundou a urgência da reforma da Igreja.

Foi um frade piedoso e cumpridor, na oração, no jejum, na penitência, confessava-se frequentemente. Sedento de Deus e de salvação, vivia em crise interior permanente, angustiado com os escrúpulos, torturado com o pecado e a ira de Deus e a sua justiça como castigo. Obcecava-o a pergunta: “Que devo fazer para obter a misericórdia de Deus?”

Em 1545, recorda no prólogo à edição das suas Obras Completas em latim:

“Embora a minha vida de frade fosse irrepreensível, sentia-me pecador diante de Deus, com a consciência perturbada. Indignava-me contra este Deus, alimentando em segredo, senão a blasfémia, pelo menos uma violenta murmuração… Sei de um homem que sofreu estas penas muitas vezes… com violência tão dura e infernal que nem a língua pode exprimir nem a pena escrever…”

Foi em 1514 que se deu a viragem total na sua vida, ao descobrir, através da Carta aos Romanos, de São Paulo, o Deus da misericórdia, cuja justiça não é de castigo mas de amor.

“Pela fé recebemos um coração diferente, novo e puro. Deus quer ter-nos totalmente justificados por causa de Cristo, nosso mediador.”

Em terminologia simples, a questão que já São Paulo tinha é esta:

  • o que vale a minha vida?
  • Que valor tem ela e para quem?
  • Quem me reconhece?
  • Valho o quê para quem?

E São Paulo e Lutero descobrem que valemos infinitamente para Deus.

A fé é a entrega confiada a esse mistério do Deus misericordioso que, através de Cristo, reconhece o nosso valor para ele. Nisso consiste a salvação.

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3 Resolvido este problema pessoal,

  • no quadro da urgência da reforma da Igreja,
  • no contexto da necessidade de uma piedade mais interior e pessoal,
  • quando os príncipes exigiam autonomia face ao imperador Carlos V e a Roma
  • e estavam em marcha transformações culturais, económicas e políticas, destronando o paradigma medieval,

Lutero acabou por desencadear,

  • nem sempre consciente disso e até contra a sua vontade,
  • uma ruptura religiosa
  • e um cataclismo civilizacional.

Como escreveu Jaume Botey,

“as consequências desse cataclismo puseram em evidência a existência na Europa de

  • duas culturas,
  • dois modelos de relações sociais,
  • duas formas de entender a política e o poder,
  • inclusive, dois modelos económicos que, de facto, ainda hoje continuam
  • entre a Europa do Norte e a Europa mediterrânica”.

A causa imediata foi a venda de indulgências. No dia 31 de Outubro de 1517, Lutero afixou nas portas da igreja do castelo de Wittemberg as célebres 95 teses, apenas com o propósito de um debate teológico académico.

Algumas dessas teses:

  • “Deve-se ensinar aos cristãos que age melhor quem dá esmola ao pobre do que quem compra indulgências.”
  • “Se o Papa soubesse dos métodos de extorsão usados pelos pregadores de indulgências, preferiria ver a Basílica de São Pedro a afundar-se em cinzas a edificá-la à custa da pele, da carne e dos ossos das suas ovelhas.”
  • “Deve ensinar-se aos cristãos que o Papa, como é seu dever, estaria, se fosse necessário, disposto a vender a Basílica de São Pedro para dar do seu próprio dinheiro a muitos a quem alguns pregadores o tiram.”

 

4 Qual o cristão que não estará de acordo com a crítica da venda das indulgências?
Recentemente, o Papa Francisco, com a audácia que o Evangelho dá,

  • “denunciou e condenou o “mercadejar” no que ao inferno, ao céu e ao purgatório se refere,
  • como frequentemente se faz nas cúrias eclesiásticas e seus arredores”.
  • E convidou a todos a deixar-se “misericordiar” por Deus.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

 

 

Anselmo Borges

Fonte: https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/anselmo-borges/interior/lutero-a-fe-e-as-indulgencias-8923271.html

 

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