O que deve fazer o padre Giselo Andrade, depois de ter sido pai de uma menina?

Redação – 06/11/2017 – Foto: facebook
O padre Giselo Andrade, pároco do Monte, freguesia do Funchal, assumiu a paternidade de uma criança, uma menina nascida em agosto deste ano. A filha resulta de uma relação com uma mulher de 35 anos (atuais), natural de Câmara de Lobos, amiga de Giselo dos tempos do ensino secundário.
Foram colegas de universidade em Lisboa. Ele cursou Teologia, ela Serviço Social. É nesta área que se tem distinguido como investigadora e, pontualmente, como professora universitária. É também responsável de projetos de responsabilidade social num grande grupo empresarial da Região. Ela já era mãe de dois filhos, gémeos de cinco anos.

 O que deve fazer o padre Giselo?
1 – O que diz a lei canónica (Código de Direito Canónico:
Cân. 194 — § 1. Pelo próprio direito é removido do ofício:
 1.° quem perder o estado clerical;
 2.° quem publicamente abandonar a fé católica ou a comunhão da Igreja;
 3.° o clérigo que tiver atentado o matrimónio, mesmo só civil.
§ 2. A remoção de que se trata nos ns. 2 e 3 só pode ser urgida se constar por declaração da autoridade competente
Cân. 1394 — § 1. Sem prejuízo do prescrito no cân. 194, § 1, n.° 3, o clérigo que atentar matrimónio, mesmo só civilmente, incorre em suspensão latae sententiae; e se, admoestado, não se emendar e persistir em dar escândalo, pode ser punido gradualmente com privações e ou até mesmo com a demissão do estado clerical.
Cân. 1395 — O clérigo concubinário, fora do caso referido no cân. 1394, e o clérigo que permanecer com escândalo em outro pecado grave externo contra o sexto mandamento do Decálogo, seja punido com suspensão, e se perseverar no delito depois de admoestado, podem ser-lhe acrescentadas gradualmente outras penas até à demissão do estado clerical.
§ 2. O clérigo que, por outra forma, delinquir contra o sexto mandamento do Decálogo, se o delito for perpetrado com violência ou ameaças ou publicamente ou com um menor de dezasseis anos, seja punido com penas justas, sem excluir, se o caso o requerer, a demissão do estado clerical.

O que diz a diocese do Funchal

Em comunicado, a diocese do Funchal admite que “foi com tristeza” que recebeu as recentes notícias que envolvem o padre Giselo Andrade, mas não está a equacionar abrir um processo canónico ao padre que recentemente assumiu ser o pai de uma criança de poucos meses.
O gabinete de comunicação da diocese refere, numa nota, estar “a acompanhar a situação no respeito pela delicadeza do caso, da dignidade das pessoas e das consequências que as mesmas têm na própria paróquia (Nossa Senhora do Monte) e nas restantes comunidades cristãs”.
O comunicado acrescenta que “a Igreja é um espaço de misericórdia e Deus perdoa tudo, mas não pode admitir uma vida dupla”.
O próprio bispo do Funchal, D. António Carrilho, diz em declarações à Agência Ecclesia que “o que a Igreja não aceita, evidentemente, é uma vida dupla”, pelo que o sacerdote envolvido nesta situação vai, “em consciência”, fazer um “discernimento” e “assumir as suas responsabilidades”. Até porque “quem assume o celibato, é evidente que o assume livremente”.
 
Assim, “caberá ao próprio sacerdote discernir em diálogo com o bispo se pretende continuar a exercer o ministério sacerdotal segundo as exigências e normas da Igreja ou se pretende abraçar outra vocação”, refere ainda esta nota.
O texto acrescenta que “o sacerdote deseja continuar” a exercer as suas funções e “sente que tem o apoio da comunidade paroquial do Monte, mas não deixa de ponderar colocar o seu lugar à disposição da diocese para que se procure o que for melhor para a Igreja”.
A diocese do Funchal, não vai neste momento abrir qualquer processo ao padre Giselo Andrade, mas vai simplesmente fazer “o acompanhamento pastoral e o discernimento”.
A questão de padres que têm filhos, em violação dos seus votos de celibato, não é nova, mas recentemente tem sido alvo de maior atenção por parte da hierarquia. Os bispos da Irlanda publicaram normas sobre o assunto, deixando claro que “no mínimo, os padres não devem ignorar as suas responsabilidades”.
Em Setembro foi anunciado que os conselheiros do Papa Francisco sobre o escândalo dos abusos sexuais de menores iriam também ocupar-se da questão dos filhos de sacerdotes.
Na Igreja Católica existem alguns casos de sacerdotes legitimamente casados, que têm filhos, mas a vasta maioria dos padres católicos são obrigados ao celibato (notícia Renascença).

Opinião do Papa Francisco (dita enquanto era bispo na Argentina: «Tem de abandonar o ministério»

Numa entrevista, dada pelo actual papa Francisco, enquanto bispo na Argentina, Jorge Bergoglio, fala da questão do celibato dos padres. O papa vincava tratar-se de “uma questão de disciplina, não de fé” e, mais à frente reconhece: “Há padres que caem nestas situações”.
Questionado directamente sobre qual era a sua posição, nessas circunstâncias, Bergoglio responde: “Se um deles me aparecer a dizer que engravidou uma mulher, ouço-o, procuro transmitir-lhe a paz e aos poucos faço-o perceber que o direito natural é anterior ao seu direito como padre. Portanto, tem de abandonar o ministério e tomar conta daquele filho, mesmo que decida não casar com a mulher”.

O que diz a sociedade

O jornal Diário de Notícias da Madeira criou uma página, onde solicita a opinião da sociedade: Que deve fazer Giselo Andrade?
Os comentários deixados neste este espaço de participação são:
«Bem, tenho duas opções:
1. Ele deixa de ser padre e junta-se com o amor da vida dele (ele deve amar aquela mulher de certeza para depois de tantos anos de disciplina (penso eu…) ter quebrado uma promessa muito importante para os padres) e juntos formam uma família onde criam aquela menina com muito amor e carinho;
2. Continua como padre na paróquia (ninguém naquela freguesia o quer fora incluindo o Bispo) mas tem de ser um pai presente na vida naquela menina. Poderia aproveitar para nossa igreja madeirense dar um exemplo ao Vaticano, de como um padre pode cumprir com os seus deveres de padre e ter uma família. Só assim poderá compreender os desafios que uma família tem de enfrentar com a educação de uma criança, principalmente nos dias de hoje.
Posto isto, os interesses da criança têm de estar acima de tudo. Não sei bem o que quis dizer o Bispo quando disse que o padre não pode levar uma vida dupla, se com isto quis dizer que ele ou escolhe a igreja ou a criança… Bem, ele é pai e tem responsabilidades para com aquela menina, e isso ninguém o pode negar ou impedir com doutrinas retrógradas.
 
«Antes ter tido uma filha do que ser pedófilo e andar a abusar de crianças. A Igreja deve evoluir e esquecer o celibato, assim seria mais sincera com todos. Qual é a lógica de um padre falar sobre o casamento e os filhos se os padres não podem casar ou ter filhos??? Andam a falar de cor…»
 
«Sem a mínima dúvida: seguir o seu coração e ser feliz.»
«O que é que a Bíblia diz sobre o assunto? Não é a Sagrada Escritura a base do cristianismo? Em lado algum diz que os servidores da igreja não se podem casar. É mais uma das hipocrisias da Roma Papal, com um único propósito: acumular riqueza. Alguns destes homens amam sinceramente a Deus, mas vêem -se envolvidos num sistema mentiroso que vive à parte dos mandamentos de Deus e que lhes escraviza a vida familiar em volta de um dogma nada cristão.
Qualquer homem que ame sinceramente ao Criador serve-O melhor sendo livre dos homens e das suas doutrinas.
Os fariseus, os doutores da lei daquele tempo, mataram Jesus Cristo. Até onde irão os doutores da lei deste tempo?»
 
«Não vejo qual o problema desse padre que sempre  foi um bom padre ter de sair da paroquia só porque foi pai. Essas ratas de sacristia que nunca puseram um pé fora da argola que se preocupem em expulsar os padres que são pedófilos esses sim é que são pecadores.»
 
«Sinceramente acho que,
1º. Quando aceitou a ordenação conhecia as regras da Igreja, como tal violou-as, logo, está ciente de que procedeu mal e terá que acatar a decisão do julgado canónico.
2º. A igreja terá que assumir de uma vez por todas que, padres são homens iguais como aos demais e assim sendo terá que mudar as regras. Este caso não é único, nem será o ultimo, sempre existiram casos e foi possível camuflar, hoje é mais difícil. Contudo, não condeno o Sr. padre, cair na tentação é uma fragilidade humana que vem desde os tempos de Adão e Eva.»
«Deve continuar com a sua vida e continuar a fazer o que faz. A igreja que evolua. Quem tem problemas com a situação do padre deve meter-se na sua vida e deixar de fazer o papel de beata ofendida. Estamos no século XXI.»
 
«As beatas ficaram ofendidas porque não aconteceu com elas…»
 
«Padres só devem ser padres dentro da igreja a vida pessoal deles é lá com eles desde que não se metam com miúdos menores. Por essas tontarias da igreja católica não poder haver divórcios padres não poderem ter sexo etc é que o clero sp fez e faz o que faz…muitos abusam de miúdos uma pergunta? Por que razão os padres pedófilos escolhem miúdos? Porque miúdo não engravida? E ninguém fica a saber? Grandes ordinários esses pedófilos deviam ser capados.»
 
«Ele que permaneça e revolucione a igreja.. que possa fundar um movimento no interior da igreja que dê visibilidade a esta questão e confronte as hierarquias nos seus palácios…….já está na hora da igreja católica evoluir e acordar, estamos no séc. XXI….precisa-se de padres na família como exemplo de referencia pra toda a comunidade,… faltam modelos de família cristãs e saudáveis. é por isso que os valores na família estão vazios, é só violência e divórcios …os protestantes podem casar e ninguém morreu por causa disso…
Caso se ele não conseguir que possa fundar a sua própria igreja, separando-se da igreja católica seguindo uma matriz diferente, pois vivemos num pais livre… levando acabo a sua vocação pastoral e espiritual, pois fieis não hão de faltar…pois o senhor padre é uma pessoa carismática!!!»
 
«A solução é simples. Deixa de ser padre e vai trabalhar para sustentar a família como o resto de nós.
Agora armar-se em vítima porque quer continuar a viver à custa dos crentes é que não.»
 
«Para os gajos dos Marxismos, quando “mete” a Igreja é uma “Festança” de Barriga cheia…
Eu não sou “Advogado de NADA nem NINGUÉM”, mas porque não se PERGUNTA quem é o maior “Pecador”? Quem foi o “Tentador” e o “Tentado”?
Este País é maioritariamento habitado por seres do Séc. XV, e daí estas “Festarolas” na Imprensa.
Essa gaja, sabia que andava a se “meter” com os Lençois de um Padre, mas nem teve o pejo de usar Contraceptivos e quando engradivou nem pensou num Aborto, Será que queria fazer a “Vontade ao Diabo” e LIXAR a Igreja?!»
Outros comentários:Jornal Observador
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NOTA DO EDITOR:

É um fato muito positivo que estes casos, mais frequentes do que se possa pensar, de padres que se tornam pais, sejam trazidos à luz do dia, expostos, publicados e comentados em diversos níveis, do bispo aos colegas padres, aos paroquianos e aos leitores dos jornais.

Saudável e madura a atitude serena do bispo em tratar com o padre e os seus paroquianos sobre este delicado mas tão humano assunto.

Nova, inteligente e louvável a iniciativa do Diário de Notícias da Madeira em abrir uma página para comentários. O assunto é público e do interesse de muita gente, a começar dos paroquianos da paróquia do Monte, na ilha da Madeira.

A igreja, como bem diz o papa Francisco, é do Povo e para o Povo, não da hierarquia, papa, cardeais, bispos e padres. Portanto o Povo, neste e noutros casos importantes, deve ser consultado para poder dar francamente o seu parecer.

Neste e noutros casos, como, por exemplo a formação dos seminaristas, a escolha dos diáconos casados, a aceitação da ordenação de padres e a escolha dos bispos, a gestão pastoral e econômica das paróquias e dioceses, etc. 

Voltando ao assunto da vida sexual dos padres, vale a pena lembrar as muitas mulheres que se relacionam afetiva e sexualmente com padres, frequentemente por muitos anos, e que nunca são assumidas. Na França e na Itália, elas já fundaram uma Associação e estão interpelando o episcopado e o Vaticano.

 Quanto aos filhos de padres nunca por eles assumidos, que são centenas, talvez milhares, espalhados por todos os continentes, a hierarquia sempre soube disso, mas nunca achou sua obrigação de tomar atitudes sérias, sistemáticas e positivas sobre o assunto: no Código de Direito Canônico, nem um cânone se refere a filhos de padres e à obrigação básica, de justiça primária, de os assumir e manter.

 Nesse sentido, parabéns ao Pe. Giselo Andrade pela sua hombridade em assumir sua filha e ao bispo Dom António Carrilho por tratar do assunto publicamente com serenidade e naturalidade.

 Bem que merecem ser imitados por tantos outros bispos e padres que se escondem da realidade trágica de mulheres e filhos de padres nunca assumidos. 

João Tavares

 

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