Serão os padres mais do que simples homens? Se um padre se apaixona, a culpa é das mulheres?

Foto: Aleteia
O bairro de Campo Pappa, em Godoy Cruz, cidade localizada na província de Mendoza, na Argentina, foi tomado pela comoção nos últimos dias: o padre Michael Belmont, que revolucionou o lugar com a sua ajuda e o seu trabalho com os mais necessitados – inclusive falou com o presidente Macri sobre este tema –  apaixonou-se por uma mulher, pediu dispensa das obrigações sacerdotais e mudou-se para outra província.

 Segundo informação dos meios locais, tanto da capela de Nuestra Señora de Guadalupe como da de San Juan Diego, foi confirmado que o jovem religioso já não estava lá. Assim, o panorama tornou-se desolador para muitos habitantes da zona, que estavam internados e em plena recuperação de sua dependência de drogas ou de atos delituosos.
O padre Michael Belmont tem 42 anos. Nasceu nos Estados Unidos e três meses depois chegou a Mendoza, na Argentina, com a sua mãe. Entrou no seminário em 1994 e em 2003 foi ordenado presbítero.  Em 2008, chegou àquele bairro problemárico  no oeste de Godoy Cruz, onde se tornou conhecido pelo seu carisma e trabalho social. Ajudou a recuperação de toxicodependentes e lutou contra o tráfico de drogas.
Ele serviu em diferentes zonas pobres e considerou-se um “padre villero” (Os «padres villeros» é um movimento de presbíteros da Igreja Católica surgido na Argentina no final da década de 1960
  • que vivem em favelas ou bairros precários
  • e que promovem o compromisso ativo e a ação pastoral com as pessoas que os habitam).

Padre Michael Belmont – Foto: datachaco

Antes de deixar a província, o padre Michael Belmont deixou uma carta de despedida para toda a comunidade.
«Querida comunidade e queridos amigos:
Eu queria chegar a todos através desta carta, já que na passada quinta-feira informaram da minha decisão de deixar o ministério sacerdotal.
Primeiro, quero expressar-lhes que o meu coração está cheio de gratidão a cada um de vocês e por tudo o que vivemos juntos. Fui muito feliz com vocês e sempre os levarei no meu coração. Eu tomei a decisão de adotar um projeto de vida de família, para, nela, seguir Jesus, e em família, continuar a ajudar os mais pobres.
Agradeço-lhes profundamente o olhar compreensivo e misericordioso que tiveram para comigo nestes dias. Também lhes peço perdão pela dor e, em alguns, a raiva, que eu possa ter causado pela minha decisão.
Para todos aqueles que me perguntaram carinhosamente como está o meu coração, partilho com vocês que tenho muita paz e, agarrados pela mão de Deus da Misericórdia, empreendemos este novo caminho. Gosto muito de vocês e me encomendo-me às suas orações.
Michael, 17 de outubro de 2017»

A opinião de um outro padre

O Pe. Horácio Day, na Praça de S. Pedro em Roma – Foto: facebook
De Roma, o padre Horacio Day, natural de Mendoza, questionou a decisão do padre Belmont. Fala de abandono e pede às mulheres que não saiam à conquista de padres. Na sua mensagem tornada pública na rede social Facebook: www.facebook.com/horacio.day, ele sustenta que o importante não são as obras sociais realizadas, mas sim o sagrado ministério sacerdotal:
 
«Escrevo essas linhas porque muitos estão surpreendidos, chocados, escandalizados, por uma notícia que surgiu num dos jornais de Mendoza, sobre um padre que “deixou a batina”. Vou dizer apenas isto: não se deixa a batina (isso é uma besteira dos filmes e novelas da tarde).
 
Não se deixa a batina, e também não me agrada a expressão ‘deixar o ministério’. Abandonam-se, sim, comunidades, pessoas, gente simples, humilde, pobre. Pessoas que acreditam em nós, pessoas que nos confiaram a sua vida, a sua alma. Pessoas para as quais talvez sejamos a única coisa que têm!
Gente que via e vê no sacerdote algo mais do que um simples homem. Alguém que lhe mostra o rosto de Deus (com nossas próprias limitações, que são muitas, e isso é para que se veja mais claramente que quem age é Ele). É isso que devemos ser nós os padres, mostrar o caminho para o Céu (é por isso que gosto tanto da figura  do cura de Ars).
Não importam as nossas obras sociais, mesmo que sejam muito meritórias, não somos assistentes sociais, somos sacerdotes de Jesus Cristo! Existimos apenas para mostrar o rosto do Deus Misericordioso aos homens e mulheres do mundo. E me atrevo a dizê-lo aqui, porque já o disse milhares de vezes: ‘Não há nada mais bonito do que ser padre!!!’ É uma grande graça termos sido escolhidos para isso! Nós não somos dignos disso, Ele nos escolheu. É algo que supera tudo! Se o entendêssemos, morreríamos, como dizia o Santo Cura.
 
Em todas as missas que celebro (celebro diariamente), peço ao Senhor que me dê a graça de ser um padre bom e fiel até à morte! E que me leve antes que eu o abandone.
 
E como também fiz mais de uma vez (os sanmartinianosa são testemunhas), peço às mulheres: não se envolvam com os padres ou seminaristas! É um tremendo dano o que podes causar! É enorme o bem que se vai deixar de fazer  por tua culpa! Não carregues essa culpa!!!
 
E não me venham com o torpe argumento de que o celibato é o culpado. Acaso está certo que um marido deixe a sua esposa e filhos porque agora “se apaixonou” por outra? Acaso não amamos, nós padres? Acaso não somos amados? E o amor de tantíssima gente de nossas comunidades? Acaso temos de abandonar nossas comunidades (que são pessoas concretas, rostos, nomes) para “amar e ser amados” (como disse uma vez alguém que prefiro esquecer)? Se é assim, não entendemos nada, e somos os homens mais estúpidos do mundo.
 
E você, amigo ou amiga, que sofres este abandono, este golpe: não abaixes os braços! Que não fraqueje a tua fé em Deus, na Igreja, no sacerdócio! Vamos! Para não tirar os olhos dos olhos do Senhor Jesus! Ele nos sustenta! Esta é a sua obra!
 
Termino com uma citação livre do Antigo Testamento. É de David, quando o seu amigo Jônatas morre. Eu modifico-a, digo-a a Jesus: “Senhor Jesus, a tua amizade é mais maravilhosa para mim do que o amor de todas as mulheres” (2 Sam 1:26).»

4 comments to Serão os padres mais do que simples homens? Se um padre se apaixona, a culpa é das mulheres?

  • Beto

    São Paulo colocava na frente das comunidades lideres dignos e cheio de fé, sem a necessidade de 3 anos de filosofia e 4 anos de teologia. Também não colocava celibatários e sim homens dignos e de fé que poderiam ser solteiros ou casados. Enquanto a hierarquia católica perde tempo na discussão sobre o sacerdote celibatário como única fora de dirigir comunidades. Enfim discutindo o sexo dos anjos. O Espírito Santo teve que chamar os evangélicos para cuidar da evangelização. Infelizmente ainda não surgiu um bispo “macho” que chamasse padres casados que quisessem dirigir comunidades, pois notem que eles permaneceram na fé, teem estudo, experiência da vida e são forjados pelas dificuldades da vida.
    Por isso a mensagem do Pe. Horácio é de um sonhador, fora da realidade.

  • Irene Cacais

    O padre Horácio Day termina o ataque dele dizendo:

    “Termino com uma citação livre do Antigo Testamento. É de David, quando o seu amigo Jônatas morre. Eu modifico-a, digo-a a Jesus: “Senhor Jesus, a tua amizade é mais maravilhosa para mim do que o amor de todas as mulheres” (2 Sam 1:26).”

    Este padre é um otário mesmo: porque esta frase hoje é interpretado, pela maioria dos que entendem da Bíblia, como indicio de um amor homossexual entre David e Jónatas.

  • REJANE

    “O celibato sacerdotal não é exigido pela natureza do sacerdócio, ou seja, a pessoa pode ser sacerdote e não ser celibatário, no entanto, duas realidades devem ser levadas em conta:

    1)Historicamente, sacerdócio e celibato sempre andaram juntos, desde o tempo dos apóstolo;

    2)Teologicamente, a concepção de padre enquanto homem do sagrado que se oferece em sacrifício e celibato, complementam-se. E é a consciência da Igreja desde sempre.”

    (padrepauloricardo.org/episodios/qual-e-a-origem-do-celibato-sacerdotal)

  • Irene Cacais

    Querida Rejane,
    você não está muito certa nas suas afirmações:
    1) sacerdócio e celibato não andaram juntos desde o tempo dos apóstolos. Lembre-se, Pedro era casado e Paulo escreveu “o bispo seja marido de uma só mulher” (1 Timóteo 3,1-5: Tito 1,5-)
    A obrigatoriedade do celibato para o clero latino existe na Igreja desse o ano 1139.

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