O Papa Francisco estende o território da Igreja Siro-Malabar a toda a Índia

Igreja Católica em Kerala, Índia foto de stock royalty-free

Nicolas Senèze, em Roma, 10/10/2017

Para favorecer o desenvolvimento desta Igreja oriental hoje presente em toda a Índia, Francisco tomou uma decisão de grande repercussão eclesiológica.

Numa carta dirigida aos bispos indianos na segunda-feira (9 de outubro) e publicada na terça (10) pelo Vaticano, o Papa Francisco  anuncia que estende a  toda a Índia, o território próprio da Igreja Siro-Malabar, até agora restrito ao Estado de Kerala (sudoeste).

Tradução: Orlando Almeida

Até agora, de fato, os fiéis siro-malabares, cada vez mais numerosos em toda a Índia,

  • ficavam sob a jurisdição, quando estavam fora do Kerala, dos bispos latinos,
  • e seus sacerdotes não podiam, em teoria, nem mesmo celebrar de acordo com o rito malabar.

Para pôr fim

  • ao que os fiéis sentiam como uma discriminação para com eles
  • e à sua impressão de serem colocados em situação de inferioridade em relação à Igreja latina,

foi iniciado ainda ao tempo de Bento XVI um estudo que Francisco agora concluiu.

Com efeito,

  • simultaneamente à carta enviada aos bispos indianos,
  • o papa criou duas novas dioceses siro-malabares na parte central da Índia,
  • que se sobreporão às jurisdições latinas já existentes.

Embora a sua decisão esteja atualmente limitada apenas à Índia, Francisco reconsidera um princípio muito antigo da organização da Igreja Católica (mas também muito vivo entre os  ortodoxos e orientais) segundo o qual  não pode haver senão um bispo num dado lugar.

 

“As jurisdições sobrepostas não deveriam mais representar um problema”

No entanto, ele entende que na Índia

  • “as jurisdições sobrepostas não deveriam mais representar um problema”
  • e que as experiências realizadas pelos seus predecessores demonstram sem nenhum problema que ter vários bispos num mesmo território não compromete a missão da Igreja“.

O Papa aliás está ciente das dificuldades.

Espero que minha decisão seja acolhida com um espírito generoso e sereno, mesmo que ela possa ser motivo de apreensão para alguns, porque

  • muitos siro-malabares, privados durante anos, dos cuidados pastorais de seu próprio rito,
  • ficaram completamente imersos na vida da Igreja Latina” – escreveu ele.

Legítima diversidade ritual da Igreja

Ele pede que o seu gesto

  • não seja interpretado negativamente como obrigação para os fiéis de deixarem as comunidades que os acolheram, às vezes durante várias gerações, e para as  quais eles contribuíram de várias maneiras,
  • mas sim como um convite e uma oportunidade  de conseguir o crescimento da fé e da comunhão com a própria Igreja de direito próprio,
  • conservando o precioso patrimônio ritual de que são portadores, transmitindo-o também às futuras gerações”.

Enfatizando várias vezes a necessidade de uma legítima diversidade ritual da Igreja na Índia, ele chama ao contrário as diferentes Igrejas a continuarem as suas colaborações.

Por isso ele exorta

  • os padres da muito dinâmica Igreja siro-malabar a continuarem disponíveis para as paróquias latinas com as quais trabalham
  • e os padres latinos a continuarem a receber os siro-malabares privados de locais próprios de culto.

Como herdeira da pregação caldeia na Índia nos primeiros séculos do cristianismo, a Igreja Siro-Malabar

  • foi unida à força à Igreja Católica em 1599,
  • sofrendo em seguida  uma forte latinização,
  • embora tenha, depois do Concílio Vaticano II, empreendido um retorno à autenticidade do seu próprio rito.

Desde 1992, os mais de 4 milhões de fiéis siro-malabares estão sob a jurisdição única do arcebispo maior de Ernakulam-Angamaly, hoje  o cardeal George Alencherry. (Confira a Entrevista e a foto dele abaixo)

 

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Nicolas Senèze

 

https://www.la-croix.com/Religion/Catholicisme/Pape/Le-pape-Francois-etend-territoire-lEglise-syro-malabar-toute-lInde-2017-10-10-1200883175

 

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VEJA TAMBÉM A ENTREVISTA DO CARDEAL SIRO-MALABAR  GEORGE ALENCHERRY

“No Kerala, a fé é uma cultura que permeia a vida toda”

Claire Lesegretain, – 19/07/2016

Foto: Uma igreja católica de Pattumala,  em Kerala – Índia

Convidado no final de maio a celebrar a missa na catedral de Notre-Dame de Paris na comemoração do 160º aniversário da Obra do Oriente, o cardeal indiano George Alencherry, primaz da Igreja Siro-Malabar, evoca a situação desta Igreja de 4,5 milhões de fiéis, uma igreja particularmente missionária.

A ENTREVISTA

Em abril passado, três sacerdotes da diocese de Kadapa (Andhra Pradesh) cometeram atos de violência contra o seu bispo, mons. Gallela Prasad, por não suportarem ter um dalit no comando da diocese… O senhor considera, como declarou o Cardeal Baselios Cleemis, presidente da Conferência Episcopal da Índia (CBCI), que “a Igreja na Índia não fez o suficiente pelos dalits”?

Imagem relacionada

Cardeal George Alencherry (foto: Wikipedia)): Como todos os bispos, fiquei chocado por esse ato bárbaro. Mas este caso não está claro e a investigação ainda está em andamento. Quanto aos dalits, não,

  • eu acho que a situação está melhorando
  • e que foram feitos muitos esforços nas paróquias, nos seminários e nas dioceses para combater o sistema de castas.

Mas esse sistema está inscrito nas mentalidades indianas há tantos séculos que será necessário ainda muito tempo para eliminá-lo. A solução

  • não é, como alguns padres dalits reivindicam,  ter bispos dalits dedicados exclusivamente aos dalits.
  • Pelo contrário, é necessário que, independentemente de sua casta, bispos, sacerdotes e leigos trabalhem juntos para o desenvolvimento das comunidades cristãs.

 

A Igreja siro-malabar do Kerala é diferente neste sentido?

Card.G.A. : Ela é  específica na Índia porque é a primeira que foi fundada, desde o século I,  por São Tomé. As nossas comunidades cristãs do Kerala, durante 2000 anos, têm sido missionárias na Índia e no exterior.

Atualmente, mais de 2.000 padres siro-malabares, assim como 33 bispos e 4 núncios apostólicos, trabalham no seio da Igreja católica Romana. Esta irradiação missionária é explicada pelo fato de que temos muitas vocações.

 

Como é que vocês fazem, uma vez que a maioria das igrejas ocidentais lamenta a falta de sacerdotes?

Card.G.A. : No Kerala, a fé vive-se antes de tudo em família: antes do jantar, pais e filhos reúnem-se para orar, cantar, ler a Palavra, refletir sobre os valores morais… e tudo isto de maneira alegre.

Da mesma forma, em cada paróquia siro-malabar, celebramos a Eucaristia dominical,

  • ensinamos a catequese desde a CP [1ª. série do curso preparatório] até à Terminal [última série],
  • preparamos os jovens para o casamento,
  • organizamos grupos de partilha entre casais ..

E também nos envolvemos em atividades de caridade para com deficientes físicos e mentais, pessoas sem recursos, suprindo as deficiências governamentais.

 

Ninguém se furta a fazer a tudo isso?

Card.G.A. : Não, porque estamos acostumados, desde a infância, à alegria de rezar juntos. No Kerala, a fé é uma cultura que permeia toda a vida. Os bispos, os sacerdotes e as religiosas estão a serviço das comunidades cristãs. As decisões são tomadas coletivamente: não há hierarquia, todos são responsáveis.

Este espírito de partilha dá uma sensação de satisfação e de realização. Assim, as crianças pequenas ficam sob a responsabilidade das maiores, depois os jovens continuam a se organizar por si mesmos. Não se trata de uma “pastoral” – como se diz no Ocidente – de uma maneira de viver e transmitir a fé à qual desejamos permanecer fiéis porque vemos os seus frutos.

 

Dom Paul Hinder (à esq.) e Dom Camillo Ballin: Vigários Apostólicos na Península Arábica

 

Inclusive na diáspora?

Card.G.A. : Claro. Esta aliás é uma dificuldade nos países do Golfo, onde atualmente vivem mais de 400 mil siro-malabares que formam comunidades cristãs muito dinâmicas.

Entretanto

  • os vigários apostólicos (foto) da Igreja católica romana (1) não percebem as suas especificidades
  • e contentam-se em propor-lhes atividades pastorais habituais que não são adequadas para os siro-malabares.
  • É por isso que estamos pedindo que seja criado um vicariato siro-malabar nos países do Golfo, como já existe um no Canadá.

(1) Existem dois vicariatos apostólicos na Arábia: o do Norte inclui o Kuwait, a Arábia Saudita, o Bahrein e o Qatar; o do Sul inclui os Emirados Árabes Unidos (Dubai, Abu Dabi…), Oman e Yémen.

 

 

 

Claire Lesegretain

 

 

https://www.la-croix.com/Religion/Monde/Au-Kerala-culture-impregne-toute-2016-07-19-1200776759

 

 

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