Padre Joseph Shih: na China não convém uma “Igreja de oposição”

 GIANNI VALENTE – 05/10/2017

Foto: O diretor da Civiltà Cattolica, padre Spadaro, com o padre J.  Shih

Entrevista publicada na Civiltà Cattolica com o jesuíta nascido em Shanghai e que, durante muitos anos, dirigiu os programas chineses da Rádio Vaticana: entre a instituição eclesiástica e o governo, convém tentar o caminho da “tolerância mútua”

Tradução: Orlando Almeida

 

Na China a Igreja Católica “existe e funciona”. E precisamente para facilitar a sua vida apostólica convém reconhecer que o governo na China é comunista, que é com esse governo que, de uma forma ou de outra, se tem que lidar e que a atitude mais apropriada para chegar a um acordo sobre as relações entre a Igreja e o poder chinês

  • não é a de “oposição” e nem sequer a do “compromisso”,
  • mas a de um “são realismo” e de uma “tolerância recíproca”.

É o que sugere o jesuíta chinês Joseph Shih, 90, numa longa entrevista publicada na última edição da Civiltà Cattolica e recolhida pelo padre Antonio Spadaro, diretor da revista dos jesuítas italianos, cujos textos são aprovados pelo Vaticano.

O padre Shih fala com conhecimento da causa: durante toda a sua longa vida de sacerdote perspicaz e discreto, cruzou com os caminhos, os sofrimentos e as anormalidades do catolicismo chinês na China Popular. Veio de uma família católica de Xangai com dez filhos, entrou na Sociedade de Jesus em 1944 e saiu da China quando esta já era maoísta.

O padre Shih foi ordenado nas Filipinas em 1957, ensinou na Pontifícia Universidade Gregoriana por 35 anos e trabalhou na Rádio Vaticano por 25 anos, sendo também responsável pelos programas em chinês da Rádio do Papa. Agora passa grande parte do ano em Xangai, continuando a acompanhar diretamente as dinâmicas e os processos reais que moldam a vida das comunidades católicas chinesas no presente.

Igreja de S.to Inácio – Xangai – Foto Wikipedia

O eclipse das “aldeias cristãs”

“A vida da Igreja – conta o padre Shih – mudou junto com a sociedade. Os católicos chineses viviam principalmente nas áreas rurais, ao passo que agora os jovens das aldeias vão procurar trabalho nas cidades. Muitas vezes, os pais deles seguem-nos para tomar conta dos filhos. Assim as aldeias esvaziam-se. As igrejas perdem os seus paroquianos. Os católicos idosos desaparecem”.

Além disso, as próprias convulsões que estão ocorrendo provocam novas inquietações e novos questionamentos. E segundo o padre Shih, não é de admirar que, nos últimos anos, os fiéis das várias religiões tenham aumentado.

Também a antiga aldeia cristã de Zikawei, onde surgia a igreja de Santo Inácio – conta o nonagenário jesuíta – está agora englobada  no tecido comercial de Xangai, as antigas casas das famílias cristãs foram demolidas, mas nas sete missas que se celebram de sábado para  domingo, a igreja de  Santo Inácio está sempre cheia e, entre os novos fiéis provenientes de várias partes do país, há “muitos jovens e intelectuais“.

 

Divisões fomentadas e uma fé que sabe “distinguir”

Na entrevista, o padre Shih descreve de maneira apropriada a origem e a real natureza das divisões entre as comunidades “oficiais” e as assim chamadas comunidades “clandestinas”, divisões que ainda atormentam a Igreja na China. Essa divisão – sugere Shih – é sobretudo

  • um efeito da política religiosa do governo,
  • que impõe à Igreja, como a todas as outras comunidades de fé, os seus organismos de controle.

Nem todos, na Igreja Católica, aceitam esta situação. Por isso, do ponto de vista do governo, “há duas partes na Igreja Católica. O governo reconhece a parte que aceita as suas leis e não reconhece a outra que as rejeita”.

Mas “os católicos que vivem na China – observa o jesuíta chinês, com convicção – conhecem essas definições, e não obstante sabem distinguir entre a política religiosa do governo e a própria fé.

Para eles, na China, não há senão uma única Igreja, isto é, a Igreja una, santa, católica e apostólica. Nesta única Igreja há duas comunidades distintas, cada uma com os seus bispos e os seus sacerdotes. Entre elas há disputas frequentes, que não são devidas a diferenças na fé, mas que são em vez disso expressão de conflitos de interesse religioso. Além disso, após os insistentes apelos do papa João Paulo II – salienta o padre Shih – as duas partes já começaram a reconciliar-se“.

Contrariamente a esses processos de reconciliação – reconhece o jesuíta de Xangai – há aqueles que acentuam de modo exagerado e instrumental a diferença entre a “Igreja oficial” e a “Igreja clandestina”, procurando principalmente sabotar o diálogo retomado entre a China e Santa Sé. Essa contraposição, fomentada sobretudo de fora – observa o jesuíta chinês – não ajuda de forma alguma a vida e a missão da Igreja na China”. Ao passo que  precisamente um olhar de fé também sugere critérios e modos a seguir nas relações com o governo.

 

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 Foto: Comunidade católica na China – La Civiltà Cattolica

Uma Igreja que não tem o problema de “desafiar” ninguém

O realismo da fé – explica Shih – leva a reconhecer que “o governo chinês é comunista”, que este estado de coisas “certamente não mudará por muito tempo” e que “a Igreja na China deve não obstante ter algum relacionamento com o Governo chinês.

Uma relação de “oposição” – argumenta Shih com base nas perguntas do padre Spadaro – “seria um suicídio”. Mas a perspectiva de um compromisso complacente e propenso a ceder também parece a Shih inadequada, pois por esse caminho “a Igreja perderia a própria identidade”. A fórmula sugerida pelo jesuíta chinês é a da “tolerância recíproca”.

A tolerância – explica o padre Shih – “é diferente do compromisso. O compromisso cede alguma coisa ao outro, até ao nível que o outro acha satisfatório. A tolerância não cede nem exige do outro que ele ceda“. E como na China a Igreja Católica “existe e funciona”, isso significa que “de alguma forma a tolerância já está sendo experimentada”.

 A Santa Sé também é posta em causa pelas perspectivas sugeridas por Shih: se quer realmente facilitar a vida dos católicos chineses, ela deve antes de tudo resistir às pressões e críticas daqueles que desejariam torná-la uma “força antagônica” em relação ao governo de Pequim.

“Se a Santa Sé se opusesse ao governo” – observa Shih – “a Igreja na China seria forçada a escolher entre os dois e escolheria necessariamente a Santa Sé. Assim a Igreja seria detestada pelo governo chinês”.

Bento XVI, na sua Carta aos católicos chineses de 2007, já tinha escrito que na China a Igreja Católica “não tem a missão de mudar a estrutura ou a administração do Estado, mas de anunciar Cristo aos homens”.

Dez anos depois, o padre Shih espera que os católicos chineses possam viver uma vida autenticamente cristã na China, tal como ela é hoje, e, por isso augura que a Santa Sé “não desafie o governo com um ideal muito alto e irrealista, o que nos forçaria a escolher entre a Igreja e o governo chinês“.

Ao mesmo tempo aconselha os católicos chineses a não dar atenção àqueles que, de fora da China, se intrometem nos seus assuntos e nos seus problemas sempre “de forma incongruente, prejudicando a Igreja”.

 

O “caso Ma Daqin”  

  Foto: Mons. Thaddeus Ma Daqin – UCAnewsMons. Thaddeus Ma Daqin (foto UCAnews)

  Na entrevista com o padre Spadaro, o jesuíta chinês Joseph Shih revisa com os critérios do “são realismo” sugeridos pelo sensus fidei a história do bispo Tadeu Ma Daqin, que ele conhece bem e lhe é muito caro.

Ma Daqin foi ordenado bispo auxiliar de Xangai em 7 de julho de 2012, com o consentimento do Papa e com o reconhecimento do governo chinês, mas no final da sua ordenação episcopal declarou publicamente a sua intenção de abandonar os encargos que até então mantinha nos organismos “patrióticos” de que se serve a política religiosa governamental, para dedicar-se inteiramente ao ministério pastoral.

Essa declaração provocou a imediata reação do aparato governamental, que obrigou Ma Daqin a viver recluso no seminário de Sheshan, impedindo-o de exercer o seu ministério episcopal. Depois, em junho de 2016, o bispo “impedido” de Xangai publicou no seu site web um longo artigo para expressar o seu arrependimento por ter deixado a Associação Patriótica. E em abril passado, viajou para a província de Fujian e celebrou publicamente a Missa com o bispo ‘ilegítimo’ Zhan Silu, ordenado sem o consentimento da Santa Sé.

Na mídia ocidental logo apareceram matérias que rotulavam Ma Daqin como um ‘vira-casaca’.

“Eu – explica por sua vez o padre Shih – conheço muito bem o bispo Ma Daqin. Ele não voltou atrás, nem se rendeu: acho mais é que ele tenha ‘despertado’. Muitos dizem que amam a China, mas têm uma ideia abstrata do país. Talvez amem a China de Confúcio ou de Jiang Jieshi (Chiang Kai-shek). Para o bispo Tadeu Ma Daqin, amar a China significa amar a China concreta, isto é, a China atual, a China governada pelo partido comunista.

Além disso, ele não acredita mais que a Igreja se deva opor ao governo chinês; pelo contrário, ele entendeu que, para existir e atuar na China de hoje, a Igreja deve necessariamente tornar-se, pelo menos, tolerável aos olhos do governo.

Em suma, mons. Ma Daqin é um bispo chinês que tem um são realismo. O fato de ele ter ido a  Mindong e concelebrado com o bispo ‘ilegítimo’, Zhan Silu, teve na verdade o propósito de uma  reconciliação com o governo chinês”.

E o padre Shih augura ‘que a Santa Sé o apoie e o deixe tentar’.

 

 

GIANNI VALENTE

Fontes: http://www.lastampa.it/2017/10/05/vaticaninsider/ita/nel-mondo/padre-shih-in-cina-non-serve-una-chiesa-dopposizione-Ah5cK3KsT6ESgNbYs8bmxH/pagina.html

http://www.laciviltacattolica.it/articolo/la-chiesa-e-il-governo-cinese/

 

 

 

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