Joaquín Sucunza: “Francisco está quatro anos na frente da hierarquia da Igreja”

“MÃO DIREITA” DE BERGOGLIO: “ME DÁ PENA O QUE ESTÁ ACONTECENDO NA CATALUNHA”

José Manuel Vidal, 27/09/ 2017 –  Foto: Monsenhor Sucunza e Pe. Ángel

“Não estranharia que, caso renuncie, Francisco venha morar em Buenos Aires” . Há dias, ele falou a todos os novos bispos num encontro. Essa locução é importantíssima, porque fala do tema do discernimento. De usá-lo bem. É um homem muito autocrítico, mas há algo a mais. Comentou isso comigo, dias atrás, o outro bispo maior que estava comigo na cúria: “Olha, para entenderes Bergoglio, tens de pensar tudo dois anos para a frente”.

 Tradução: Orlando Almeida

Veja a Entrevista

Filho de pastores de Lecumberri que, em 1948, emigraram para Buenos Aires, Joaquín Sucunza (Pamplona, ​​1946) tornou-se bispo auxiliar de Buenos Aires e “mão direita” do papa Francisco enquanto este foi arcebispo da capital argentina. Ele assegura que Bergoglio “está quatro anos na frente da hierarquia”, que, caso renuncie, irá viver em Buenos Aires e que ele cresce diante dos desafios e provocações. O prelado de Buenos Aires, com raízes em Navarra, diz também que lhe “dá pena o que está acontecendo na Catalunha”.

[O senhor é] da cidade de Pamplona?

Nós éramos de Lekunberri, mas mamãe tinha partos difíceis, então íamos nascer na maternidade de Pamplona.

Lekunberri,  é perto de Pamplona?

Sim, cerca de trinta quilômetros. E meus pais, ambos, eram de Uitzi.

Emigraram juntos para a Argentina?

Sim. Chegamos à Argentina no dia seguinte à Declaração dos Direitos do Homem, que foi em 10 de dezembro de 1948. Desembarcamos no dia 11 de dezembro. Eu estava prestes a completar três anos.

Na mesma data, mais ou menos, em que chegou a família do Papa Francisco. Ou eles chegaram antes?

Não sei quando eles chegaram. Parece-me que chegaram antes.

A sua família estabeleceu-se em Buenos Aires?

Fomos para o campo, porque papai era pastor e agricultor. Ele tinha lá um irmão que tinha chegado antes, e lhe conseguiu um trabalho. Enquanto estávamos no campo, umas irmãs religiosas, que mantinham o hospital daquela localidade, levaram-nos para a capital, Buenos Aires, em 1956. Logo depois que Peron caiu.

Como eu já queria ser padre, havia um colégio para os que ainda tinham que terminar o nível primário. Entrei no seminário aos dez anos; sem contar esses anos, eu sou recordista de tempo de seminário porque peguei todas as prorrogações, porque coincidiram com muitas crises e iam-se fazendo provas, adiamentos…

Com que idade foi ordenado sacerdote?

Com 25anos. Mas eu teria podido ter sido ordenado com 22 porque eu tinha feito algumas matérias, mas foi adiado por mais um ano. Esticava-se tudo o que pudesse ajudar para que a decisão não fosse de manada – digamos assim – mas que cada um pudesse decidir tranquilamente.

Quem o escolheu para bispo: Quarracino ou Bergoglio?

Bergoglio.

De que ano estamos falando?

De 2000.

Toda a sua vida sacerdotal desenvolveu-se em Buenos Aires?

Sim. Mas dois anos depois da morte de Quarracino, Bergoglio escolheu-me para servir como vigário zonal – Buenos Aires é dividida em quatro zonas. – Então eu era pároco e vigário zonal. Depois, em 2000, veio o episcopado.

E foi bispo auxiliar durante todos esses anos com Bergoglio?

Claro. E levou-me, em seguida, para ser a mão direita dele.

E Vigário Geral

Sim, vigário geral. E também me acrescentou o cargo de vigário de assuntos econômicos e jurídicos. E o de moderador da cúria. Concentrou tudo em mim.

Continua com todos esses cargos?

Sim.

O que pensou quando Bergoglio foi eleito Papa? Esperava isso?

Não o esperava. Embora tivesse muitos indícios, não fiz muito caso porque pensei que já não estava mais para isso. Foi uma surpresa para mim. Então, raciocinando, percebi que era lógico.

Mudou tanto como dizem? Quando veem as fotos dele em Buenos Aires, está sempre muito sério e agora está sempre sorrindo.

Sim. Ele ligou-me na manhã seguinte depois de eleito, tinha vontade de falar e conversamos durante 45 minutos. Ele disse-me:

“Quando vi que o número já era irreversível na contagem dos votos, fiquei num estado que pensei que ia morrer. Uma coisa raríssima, dentro de mim. Quando isso me passou, e foi só um momento, senti-me diferente. Não sei o que aconteceu comigo, mas senti-me diferente”.

Como se estivesse nas mãos do Espírito

Sim. Ele é um homem de muita oração. Oração demorada pela manhã – ele levanta-se às quatro horas – e demorada à noite. Há dias, ele falou a todos os novos bispos num encontro. Essa locução é importantíssima, porque fala do tema do discernimento. De usá-lo bem.

É um homem muito autocrítico, mas há algo a mais. Comentou isso comigo, dias atrás, o outro bispo maior que estava comigo na cúria: “Olha, para entenderes Bergoglio, tens de pensar tudo dois anos para a frente”.

 Ou seja, ele está mais à frente

As decisões que toma… Eu, agora digo que, como Papa, está quatro anos à frente.

O problema é que muitos bispos não o seguem

Este sempre foi o seu problema; quando ele era jesuíta e quando era bispo, havia pessoas que não o entendiam. Se eu não tivesse tido tanto tempo para estarmos juntos – uns treze anos de muita proximidade, todo o dia juntos, com essas reuniões de todas as sextas-feiras e sendo confidente dele para todas as coisas – também não entenderia os elementos que ele usa para tomar hoje esta decisão, e amanhã a decisão contrária.

Pode e faz isso?

Sim.

É uma das acusações que lhe fazem os mais ultraconservadores, porque pode criar confusão

Sim. Mas é devido a este tema do discernimento. Em duas situações aparentemente semelhantes, ele sabe onde encontrar a diferença entre elas. Eu tenho muitas histórias deste tipo. E, se não se conhecesse a sua integridade…

Por exemplo, 75 anos é a idade que o Código nos indica como referência para a renúncia dos clérigos. Para os bispos, a letra é taxativa: aos 75 anos, devemos apresentar a renúncia. No caso dos párocos, é um conselho.

Cerca de três anos antes de Francisco completar 75 anos, estávamos falando, porque era uma viagem longa. Ele disse: “Estou pensando que já dei à diocese tudo o que tenho para dar, e que deveria renunciar, para deixar o lugar para outro que faça as coisas melhor”.

Não havia nenhuma crise, nem nada. Mas ele tem sempre a preocupação de não estar ocupando o lugar para o bem da Igreja e de que outro fizesse isso melhor.

O que ele está fazendo é irreversível, apesar da resistência? Já não há marcha à ré, ou ao contrário pode haver?

Não tenho capacidade para analisar. Muitos dizem isso: que não há marcha à ré. Agora, é preciso ver em que campos. Como afirmação geral, não sei bem a que estão se referindo. Mas há um estilo de lidar com as pessoas, de proximidade, que me parece que é irreversível.

Por exemplo, uma das primeiras coisas que ele me disse nas chamadas, porque ele me liga frequentemente, foi:

“Reze, porque me está custando convencê-los de que posso ficar em Santa Marta”. Isto, que parece um capricho, significa muitíssimo.

As pessoas estão desejando que vá à Argentina, imagino

Lá, há opiniões contraditórias: há pessoas que querem e pessoas que não querem. Pessoalmente, acho que é preciso que ele use o tempo nos lugares de conflito. Além disso, ele não vai à Argentina para receber aplausos. Não é próprio dele  ir para ser festejado. Não lhe agrada. É por isso que ele coloca como condição o tema da união dos argentinos.

Mas, se não vai, isso também não seria entendido no resto do mundo: que não vá à sua pátria, soa um pouco estridente.

Sem dúvida.

Se, dentro de alguns anos, ele renunciasse, há a possibilidade de que vá morar em Buenos Aires?

Não me estranharia que, se renunciar, não fique aqui, mas vá viver lá.

Essa é uma hipótese admissível?

Sim.

Mas parece que ele prolongou o tempo: no início, falava em quatro ou cinco anos. Está vendo que precisa de mais tempo?

Sim. Graças a Deus, a saúde e os cuidados vão bem. Ele foi técnico químico; é um homem que sabe ler muito bem os sintomas do corpo e sabe procurar quem o aconselhe. E encontrou aqui médicos e conselhos que resolveram alguns problemitas.

Porque a atividade física que desenvolve é impressionante. Psicologicamente, também aguenta a enorme pressão de ser Papa?

Sim, e ele gosta de desafios. Quando eles aparecem, é quando se torna mais brilhante.

Cresce-se nas dificuldades?

Sim.

Pois não lhe faltam. A que pensa o senhor que se devem essas resistências, esses ‘dubia’, essas ‘correções’…?

Creio que é porque ele não é um homem superficial. E porque ele é um homem muito inteligente. Não é que não saiba teologia ou direito. O que acontece é que não captam a razão profunda por que faz uma coisa, ou faz  outra. Ele faz isso de supetão e alguém pode pensar que é para ganhar simpatias, mas não é nada disso.

Qual é o fundo do seu evangelho? O que o senhor acha que o move?

É o evangelho. Além disso, ele é um grande leitor: ele gosta de ler e sabe como escolher o que ler. Ele é um homem muito sério e muito espiritual.

E, ao mesmo tempo, muito humano, não?

Sim. Por exemplo, ele é um mestre do telefone. Como o Papa é o único que, quando é eleito para a função, não o deixam voltar à sua casa, permanece congelado aqui, em Roma. E todas as suas coisas ficam como estavam.

No dia seguinte, quando me telefonou, perguntei-lhe:

“O que faço com as suas coisas?”

E então, ele me disse: “Olha, só preciso de uma coisa: um caderninho que tenho na gaveta superior da mesa do escritório. Faz com que me chegue rapidamente por meio da nunciatura”.

E o que acha que havia nesse caderninho? Aniversários, datas, casamentos… da sua gente, daqueles a quem quer.

Como navarro de nascimento, dá-lhe pena o que está acontecendo na Catalunha?

Sim, na medida em que deixa famílias divididas e que deixa rancores. Que nós, também temos as nossas [famílias] lá. É muito triste que isto aconteça por algo que poderia ter sido evitado, segundo me dizem alguns entendidos.

 

 

José Manuel Vidal

Fonte: http://www.periodistadigital.com/religion/america/2017/09/27/joaquin-sucunza-francisco-va-cuatro-anos-por-delante-de-la-jerarquia-de-la-iglesia.shtml

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