Sudão do Sul: O professor que guia sua gente entre a guerra e a fome

Robert Ocan conduz parte dos mais de dois milhões de refugiados sul-sudaneses em seu êxodo e exílio

Sudão do Sul

Javier Sauras | Michele Bertelli  – 

Foto: Javier Sauras – Assim é a realidade na região sul-sudanesa de Equatória Oriental, na fronteira com Uganda, onde os jovens armados fazem patrulhas para proteger o seu gado. 

“Acreditei que depois da independência a guerra acabaria. Nunca pensei que voltaria para um campo de refugiados”, reconhece o professor, enquanto ajuda seus novos vizinhos a erguerem suas tendas. “E nunca acreditei que meus filhos também fossem crescer como refugiados.”

Em 7 de abril deste ano, na comunidade sul-sudanesa de Pajok, Robert Ocan viu seu filho Joshua voltar do colégio ainda de manhã, antes do previsto. A certa distância, rindo, alguns colegas o seguiam. “Hoje o professor não vem, papai. Temos folga”, anunciou o pequeno com um sorriso. Os amigos de Joshua irromperam em gargalhadas e se puseram a correr para a escola. “Pregaram uma peça em você, filho. Ande, se apresse, ou você vai chegar tarde!”, lhe disse. Joshua saiu no encalço dos colegas de escola. E então os tiros começaram.

As tropas leais a Salva Kiir, presidente do Sudão do Sul, tomaram a localidade de Pajok no começo de abril. Nas palavras de um representante do ACNUR (agência da ONU para os refugiados), o ataque “foi horrível”. As forças de Riek Machar, que haviam se sublevado contra o Governo de Kiir quatro anos antes, tinham estabelecido uma de suas bases na periferia desta comunidade de etnia acholi, a 15 quilômetros da fronteira com Uganda, onde viviam quase 50.000 pessoas.

“Os moradores sabiam onde os rebeldes estavam acampados”, recorda Ocan, um professor de Ciências que sobreviveu com heroísmo à ofensiva. “E muitos dos tiros não vinham da zona do acampamento rebelde, mas sim da nossa cidade. Só de escutar as balas já sabíamos que estavam abrindo fogo contra os civis.”

 

Angustiado com os disparos, Ocan recolheu o seu filho, reuniu várias famílias e organizou a fuga de todos os moradores que conseguiu avisar. A vida da comunidade dependia da bateria do seu celular. Primeiro ligou para um dos professores da escola, para tirar as crianças de lá. Do centro da cidadezinha, um homem o avisou que os militares avançavam a sangue e fogo.

Um dos seus vizinhos havia sido alvejado numa perna. Outro caíra morto. A cada telefonema, o alto-falante do seu celular narrava a queda de Pajok: os soldados derrubavam portas e mais portas e entravam com violência em todas as moradias. Ninguém estava a salvo. Ocan pediu aos professores que, em vez de atravessarem o núcleo urbano, levassem seus alunos para o monte. Juntos, de lá, tentariam contornar os soldados e escapar para o país vizinho.

Para pessoas como Robert Ocan, a fuga é um ato reflexo, um gesto treinado na tragédia. Esse professor nasceu há 33 anos no atual Sudão do Sul, mas cresceu num campo de refugiados no norte de Uganda. Seus pais já tiveram que fugir de Pajok, escapando da última guerra de independência em relação ao Sudão: um conflito que durou 21 anos, e no qual Kiir (hoje presidente) e Machar (ex-vice-presidente) lutaram ombro a ombro contra o governo árabe de Cartum. A família Ocan não tomou partido na época, como tampouco agora, mas acabou tendo sua vida dilacerada entre os dois bandos.

O mesmo ocorreu em 2014. Pouco depois de Machar se rebelar contra Kiir, as forças leais a este se mobilizaram nesta localidade de Pajok, no Estado de Equatória Oriental, e saquearam tudo. “Quando os soldados partiram, os rebeldes chegaram. Como as tropas de Kiir tinham estado aqui, prenderam os líderes da comunidade. Eu estava entre eles”, conta Ocan.

“Deram-me 100 chibatadas, porque alguém me acusou de ter colaborado com o Exército.”

 

O professor que guia sua gente entre a guerra e a fome
Javier Sauras

E de novo, em abril deste ano, os soldados regulares retornaram e Ocan teve que abandonar a cidade outra vez. Agora, aos olhos dos soldados leais ao Governo, todos os moradores eram suspeitos de simpatizar com os rebeldes e assim foram tratados. Ao vê-los fugir, recorda Robert, uma caminhonete saiu no seu encalço. Com um megafone, os soldados pediam aos moradores que voltassem para suas casas. Eles, escondidos nos campos, continuavam escutando os disparos que arrasavam sua comunidade.

“Enquanto nos gritavam em árabe para que voltássemos à cidade, alguém, de dentro do veículo, nos dizia em idioma acholi que não retornássemos, que procurássemos refúgio”.

Aquilo acabou por convencê-lo de que corriam um grave perigo. E, obviamente, nunca mais voltaram.

Refúgio em Uganda

Robert Ocan chegou ao posto fronteiriço de Ngomoromo, no limite com Uganda, junto com outras 7.000 pessoas. Na primeira noite de fuga, o grupo ficou escondido nos campos ao redor de Pajok, tentando se reunir com outros moradores. Levaram 24 horas até se colocarem a salvo.

“Partimos de improviso, sem água nem comida, carregando as crianças, os idosos e os feridos, e só descansamos por três horas. Podem imaginar como foi complicado proteger a todos”, relata Ocan, alçado a porta-voz comunitário.

A seca, que na época agravava a fome em muitas áreas do país, jogou a seu favor: a falta de vegetação deixou o caminho livre até a fronteira. Uma vez ali, o ACNUR os esperava para acompanhá-los até Palabek, o último da longa lista de campos de refugiados que a guerra e a fome abriram em toda aÁfrica.

Palabek simboliza o capítulo mais recente da tragédia sul-sudanesa, uma crise que obrigou 3,8 milhões de pessoas a abandonarem seus lares e que deixou metade do país em uma situação de grave insegurança alimentar, segundo um relatório de julho da FAO (agência da ONU para a alimentação e agricultura). O plano de acolhida de Uganda, país ao qual Robert Ocan chegou, encontra-se à beira do colapso, pois o número de refugiados já se aproxima de um milhão.

Os demais países vizinhos compartilham esse ônus: mais de 800.000 refugiados sul-sudaneses se distribuem entre

  • Sudão,
  • Etiópia,
  • Quênia,
  • República Centro-Africana
  • e República Democrática do Congo.

Os dois milhões restantes, aqueles que escaparam de seus lares mas não conseguiram abandonar o país, carecem da proteção oferecida pelas Nações Unidas.

Mary Akongo representa a luta de muitos destes refugiados internos. Aos 28 anos, mãe solteira de três filhos, trabalhava fazendo faxina em órgãos administrativos no condado de Ikotos, perto de Pajok, até que a guerra a alcançou. Eram sete da manhã de um dia qualquer (não consegue se lembrar), quando os insurgentes lançaram seu ataque. “Um grupo de jovens atacou o quartel para soltar os presos”, recorda. O combate, cerrado e cruento, estendeu-se por toda a cidade.

“Fugi com várias pessoas. Quando atiraram na primeira, saltei por cima do corpo dela para escapar. Enquanto corríamos, mataram outra”, relembra. Ninguém parou para ajudá-los. Akongo resgatou seus filhos e se escondeu nas montanhas. Lá sobreviveram por três semanas à base de raízes e frutos selvagens, até que chegaram a Chahari, onde vive sua irmã. Agora mora em um tukul (uma cabana de tijolo cru e palha), tem uma esteira e vários utensílios de cozinha que quase nunca usa. “Eu gostaria de poder plantar, mas quase não temos sementes, e as chuvas estão atrasando”, explica.

As precipitações tardias e a falta de segurança agravaram a crise em Equatória Oriental, onde Robert, Mary e tantos outros viviam até que a violência os expulsou. O comércio é quase inexistente, e as reservas de grãos são cada vez mais exíguas. Cerca de 35% dos habitantes da região estão sob grave risco de não encontrar comida. E milhares de agricultores estão se dando por vencidos. Antes que o combate bata às suas portas, muitos optam por abandonar seus campos e se encaminham para a fronteira, com a esperança de encontrar

  • uma fonte de alimentação estável
  • e uma educação para seus filhos nos campos de refugiados.

Assim Peter Chol, um desses camponeses, chegou com todo seu clã ao posto fronteiriço de Tseretenya. São 20 pessoas, incluindo vários bebês e alguns idosos. O caminho foi desumano para eles. Carregados com panelas e mantas, se mandaram para Uganda assim que ficaram sabendo da existência do campo de Palabek.

“No ano passado pelo menos fomos capazes de plantar e colher alguma coisa, mas neste ano não houve colheita e já não restam reservas”, explica Chol, pesaroso. “Tínhamos medo de ir para outros lugares do país por causa guerra, então nos arriscamos no caminho. Passamos três dias caminhando, carregando as crianças que não podem andar”, narra.

O pessoal do ACNUR os acompanhou da fronteira até o novo campo de refugiados, onde Robert Ocan já se encontrava.

“Acreditei que depois da independência a guerra acabaria. Nunca pensei que voltaria para um campo de refugiados”, reconhece o professor, enquanto ajuda seus novos vizinhos a erguerem suas tendas. “E nunca acreditei que meus filhos também fossem crescer como refugiados.”

Agarrado ao seu telefone, Ocan trabalha para reunir os que chegaram mais tarde ao acampamento, para recuperar autoridades e instituições, organizar os ociosos, mediar os conflitos e tentar manter a comunidade unida.

“Precisamos que não percam a esperança, que aceitem a vida como ela é, e que digam: ‘Vim sem nada, mas talvez volte para casa com algo; cheguei ao campo sem educação, mas quando voltar poderei estar formado’. Esse é o papel que quero desempenhar.”

 

 


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Javier Sauras                                                                                                Michele Bertelli

Fonte:https://brasil.elpais.com/brasil/2017/09/18/internacional/1505750685_607598.html

 

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