Neo-clericalismo e carreirismo laical

 “Esquece-se que o leigo não é para a Igreja, mas para o mundo”

A. Velásquez Uribe, 25/09/2017 – Fotos: El País

Tradução: Orlando Almeida

“Seria nefasta a utilização do laicado para validar uma estrutura de poder religioso que nunca deveria ter chegado a ser a Igreja.

Embora haja plena consciência dos graves males que o clericalismo produz na Igreja, a sua resistência e erradicação é dificultada porque ele mesmo faz parte da cultura eclesial católica. Consequentemente, há uma espécie de conivência com este nocivo costume e tolera-se porque a sua erradicação implica conversão pastoral.”

Segundo a Real Academia da Língua Espanhola, entende-se por clericalismo alguma das seguintes acepções:

  • “influência excessiva do clero nos assuntos políticos;
  • intervenção excessiva do clero na vida da Igreja, que impede o exercício dos direitos dos demais membros do povo de Deus;
  • ou, acentuada afeição e submissão ao clero e às suas diretrizes”.

Nesses significados, os dois primeiros supõem um protagonismo e responsabilidade direta do clero; ao passo que no último tanto a responsabilidade como o exercício do clericalismo cabem diretamente ao laicado.

Em qualquer uma das suas acepções, o clericalismo é um desvio da sã religiosidade e espiritualidade, pelo que, longe de ser virtude, é um mal eclesial que deve ser combatido e erradicado, para realizar da melhor maneira o bem social que compete à Igreja.

Embora haja plena consciência dos graves males que o clericalismo produz na Igreja, a sua resistência e erradicação é dificultada porque ele mesmo faz parte da cultura eclesial católica. Consequentemente, há uma espécie de conivência com este nocivo costume e tolera-se porque a sua erradicação implica conversão pastoral.

 

No entanto, não tem faltado orientação magisterial para combater este flagelo do clericalismo. Os três últimos Papas condenaram-no com ênfases diferentes.

Enquanto Francisco o faz de forma sistemática, pública e vigorosa; Bento XVI o fazia de forma esporádica, reservada ao clero e com o mesmo vigor.

No entanto, a condenação pontifícia mais contundente foi feita por João Paulo II que a expressou na exortação apostólica Christifideles laici, dirigida precisamente aos leigos católicos.

Com efeito, João Paulo II dedicou um dos seus documentos pontifícios expressamente aos leigos católicos, onde sem mencionar a palavra clericalismo, expressou uma das críticas mais incisivas da Igreja nesta matéria.

Na introdução do referido documento, afirma:

“O Sínodo acentuou como o caminho pós-conciliar dos fiéis leigos não tem estado isento de dificuldades e de perigos. Em especial podem recordar-se duas tentações, de que nem sempre souberam desviar-se:

  • a tentação de mostrar um exclusivo interesse pelos serviços e tarefas eclesiais, por forma a chegarem frequentemente a uma prática abdicação das suas responsabilidades específicas no mundo profissional, social, econômico, cultural e político;
  • e a tentação de legitimar a indevida separação entre a fé e a vida, entre a aceitação do Evangelho e a ação concreta nas mais variadas realidades temporais e terrenas”.[ChL 2].”

Nestas palavras há uma crítica frontal ao desvio do caminho pós-conciliar dos leigos que vinte anos depois do Concílio,

  • os havia levado a ficar obcecados pelas questões intra-eclesiais,
  • deixando de lado as responsabilidades sociais específicas da sua identidade e vocação primordial, como são o serviço das “realidades temporais”.

A este respeito, é necessário concordar com o magistério que as identidades do clero e dos leigos se distinguem precisamente pelo seu âmbito ordinário de ação. De maneira que,

  • sendo próprio do clero o serviço preferencial da Igreja ou da ecclesía (comunidade cristã)1,
  • o próprio dos leigos é o serviço preferencial na sociedade, imerso em cada cultura.

Sem serem excludentes, tanto a dinâmica da identidade do clero como a dos leigos são um critério orientador fundamental das capacidades de serviço da Igreja.

Só assim é possível compreender como,

  • graças a um laicado amadurecido,
  • livre de todos os vestígios de clericalismo,
  • essa terna e consoladora alegria do Evangelho,
  • assim como essa capacidade de sanar as estruturas de pecado que sustentam muitos males do mundo,
  • possam estender-se aos mais recônditos espaços da vida humana e do mundo.

Nisto,

  • não é que a Igreja, com o seu ensino, faculte ou conceda aos leigos um poder de serviço de alto impacto na vida e na sociedade,
  • mas é reconhecer as potencialidades que o próprio Deus confia a um laicado que assume conscientemente a consequências de seu batismo.

Passados 52 anos do Concílio e 29 anos de Christifideles laici, o caminho do laicado continuou a desviar-se por novos atalhos e perigos que o afastam e distraem da sua missão essencial, precisamente devido ao crescente processo de clericalização, que lhe tira a sua fecundidade apostólica e domestica a sua parresia profética.

Nesse sentido, a conjuntura da escassez de clero e de membros da vida religiosa é antes de tudo uma desculpa para justificar esse enorme contingente humano que pulula em torno das paróquias, das sacristias e de  uma ampla gama de distrações eclesiásticas. Nisso se esquece que o leigo não é para a Igreja, mas para o mundo.

Com a chegada do Papa Francisco a Roma, portador de novas e grandes esperanças para a Igreja, aparecem novos perigos.

Precisamente quando temas antes impensados, como a maior participação das mulheres e do laicado na vida da Igreja, começam a ser discutidos, já há quem parece descobrir novas oportunidades para iniciar uma espécie de “carreirismo leigo“.

Com efeito, e nesse anelo de maior participação, alguns parecem descobrir um espaço para integrar o laicado nas estruturas de poder da Igreja. Assim, interpreta-se como um grande avanço eclesial a integração do laicado, incluindo algumas mulheres e homens em postos-chaves de certos dicastérios romanos.

Se este é o desejo de reforma da Igreja, seria nefasta a utilização do laicado para dar validade a essa estrutura de poder religioso que nunca deveria chegar a ser a Igreja. Seria levar o laicado a participar dessa monarquia eclesial, da qual esta numerosa vocação da Igreja sempre esteve excluída, em virtude dessa hierarcologia viciada que felizmente a marginalizou.

A grande reforma da Igreja visa necessariamente a redescobrir os potenciais de um laicado maduro, para transformar as realidades temporais distorcidas pelo pecado; isso implica redescobrir as possibilidades e potencialidades do sacerdócio comum dos fiéis para despertar aquele gigante adormecido que é o laicado católico.

1  NT-  Ecclesía – Achei uma interessante matéria sobre o que seria o significado original deste termo: ekklesia e sua etimologia “chamados para fora”  em

http://iadrn.blogspot.com.br/2014/01/ekklesia-e-sua-etimologia-chamados-para.html

 

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A. Velásquez Uribe

Fonte: http://www.periodistadigital.com/religion/opinion/2017/09/25/religion-iglesia-opinion-marco-antonio-velasquez-uribe-neoclericalismo-y-carrerismo-laical-males-eclesiales-que-hay-que-combatir.shtml?utm_source=dlvr.it&utm_medium=twitter

 

 

Nota da Redação:

Muito interessante a exposição e argumentação do autor sobre o específico do padre e do leigo, na Igreja. Mas dá a impressão que, por IGREJA, o autor entende HIERARQUIA. Só que Igreja é, acima e antes de tudo, o POVO DE DEUS, feito de Leigos e de Ministros ordenados. Cada um com suas características específicas, mas um grupo não excluindo o outro.

A eclesiologia da Lumen Gentium parte da igualdade fundamental de todos os cristãos, proveniente do batismo. E afirma com insistência o sacerdócio comum dos fieis: “Cristo Senhor… fez do novo povo um reino de sacerdotes para Deus Pai”. E: “O sacerdócio comum dos fieis e o sacerdócio ministerial e hierárquico…. ordenam-se uma ao outro… pois ambos participam do único sacerdócio de Cristo” – LG, 10). 

Insistindo demais que a função dos leigos é no Mundo e não na Igreja, o autor pode dar a entender, erradamente, que quem deve gerir a Igreja é exclusivamente o Clero e que os Leigos não teriam nada a opinar. Assim, o autor estaria a confirmar ainda mais o CLERICALISMO imperante na Igreja hoje. Que foi muito acentuado no “reinado” de João Paulo II e deu origem a um clero que se sente o dono da Igreja, cabendo ao leigo dizer: AMEN.

No nº 102 da Evangelii Gaudium, o papa Francisco afirma claramente que: 

“A imensa maioria do povo de Deus é constituída por leigos. Ao seu serviço, está uma minoria: os ministros ordenados. Cresceu a consciência da identidade e da missão dos leigos na Igreja.”  (Clique e veja)

Não é um equilíbrio fácil, mas é preciso perscrutá-lo, avaliá-lo bem e caminhar decididamente para ELE, para o bem da Igreja como um todo.

João Tavares

 

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