Crise do padre. O que fazer?

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Francesco Cosentino – 23/9/17
Imagem: Aleteia

O padre Francesco Cosentino, da Diocese de Catanzaro-Squillace, professor e diretor de retiros e encontros espirituais, atualmente é membro na Congregação para o Clero e Professor da Pontifícia Universidade Gregoriana, reflete sobre a ‘crise do padre’, em artigo publicado por Settimana News, 02-07-2017

  A tradução é de Ramiro Mincato.

 

Eis o artigo.

O ministério sacerdotal perde valor e significado. Atrai cada vez menos. Parece mover-se com dificuldades, como se estivesse “fora do tempo”, isto é, em um tempo que não é mais o seu. Assim, Padre Armando Matteo fotografou, em seu site, a “crise do padre“, sem muitos rodeios.

Penso que se deva dar prosseguimento àquelas observações, e tentarei fazê-lo, embora sob uma ótica um pouco mais otimista do que meu amigo Matteo,

  • enfrentando algumas questões
  • e abrindo algumas pistas de reflexão.

Qual identidade?

Para abordar seriamente a “crise do presbítero“, é necessário fazer referência à questão – tanto debatida, mas sem solução fácil – de sua identidade. Não se trata apenas de um teórico argumento teológico, mas, pelo contrário, quando se fala de identidade presbiteral

  • é preciso não se fixar logo sobre um modelo abstrato,
  • mas sobre a figura do padre, assim como se configurou na história concreta da comunidade de fé.

Ainda mais, deve-se fazer referência à Palavra de Deus, que representa o horizonte subjacente dentro do qual devem surgir os critérios do ministério presbiteral.

Se é verdade que, como afirma o conhecido teólogo Greshake em Essere preti in questo tempo (Ser padres neste tempo – ndr) (Queriniana, 2008), “nos últimos anos o tema do “padre”

  • tornou-se uma espécie de muro das lamentações,
  • onde tantos sacerdotes batem com a cabeça,
  • assim como bispos desesperados
  • e também leigos desorientados”,

é igualmente verdade que, antes de questionar-se sobre

  • a crise numérica,
  • o modelo de vida
  • e as atribuições pastorais,

é preciso voltar-se à questão de fundo: o que Jesus realmente queria quando reuniu em torno a si os apóstolos e os enviou em missão?

Somente se esta questão for tomada a sério poder-se-á enfrentar a crise, talvez até descobrindo que

  • ela não é pois tão dramática,
  • não porque não seja real,
  • mas pelo fato de afetar aspectos provavelmente não tão essenciais ao ministério.

Assim, como primeira provocação – deixando para depois escavar mais a fundo sobre o tema, – gostaria de debruçar-me sobre a questão da identidade.

Um olhar sobre a história

Podemos recordar suas origens, quando o cristianismo organizou-se em

  • pequenas comunidades,
  • errantes e nômades,
  • centradas principalmente na evangelização;

mais tarde, como sabemos, as coisas mudaram consideravelmente.

Durante anos, de fato, talvez séculos, o ministério presbiteral foi se configurando no interior da nascente cristandade, isto é, daquele processo de simbiose entre religião, sociedade e cultura, que, se por um lado, favoreceu a integração e expansão de fé, por outro lado, de alguma maneira, obscureceu a potência profética do Evangelho,

  • a força da sua fraqueza,
  • a riqueza da sua pobreza
  • e, em geral, a sua voz “obstinadamente outra” em relação ao mundo.

O modelo de Igreja, a simbologia litúrgica, as formas de fé e, não por último, a própria figura do padre passaram, lentamente, a parecer-se mais ao modelo do Império Romano do que ao da identidade evangélica.

É verdade que

  • a Igreja tornou-se estrutura fundamental da sociedade,
  • e que o cristianismo alastrava-se como incêndio,
  • desenvolvendo sua capacidade de presença e incidência na vida pública;

no entanto, é igualmente verdade que

  • o cristianismo deixou de ser uma resposta pessoal a um chamado evangélico,
  • para tornar-se um fator natural e cultural;

a Igreja

  • mudou sua forma externa e suas estruturas,
  • e, consequentemente, o ministério presbiteral também teve que se adequar.

O padre

  • sobre um “pedestal”,
  • autoridade indiscutível capaz de exercer certo poder espiritual,

mas não só,

  • era um modelo bem integrado com uma sociedade marcada pela fé religiosa,
  • em que acreditar era algo “normal”.

Este é, para mim, o primeiro motivo sério para a crise atual.

Hoje, com o

  • desenvolvimento moderno da liberdade da pessoa,
  • o crescimento do valor da democracia,
  • o mundo fortemente marcado pelo secularismo
  • e pelo abandono da fé,

ainda pode prevalecer aquela ideia e aquele modelo de padre que, mesmo diante das inovadoras indicações do papa Francisco,

  • parece ser o sonho latente de muitos
  • e a imagem escondida por trás de algumas estratégias pastorais?
  • Pode-se ainda continuar falando de “serviço”,
  • mas com uma convicção secreta de monarcas absolutos?

Uma crise provisória?

Talvez, a crise atual do cristianismo, que força a Igreja a tornar-se novamente minoritária, poderia ser uma ocasião profícua: Deus quer seu povo de volta ao deserto e à diáspora,

  • para aliviá-lo de um sistema imperial e mundano,
  • para destruir um cristianismo que se tornou um subsistema da sociedade,
  • e permitir-lhe recuperar um espírito evangélico.

Este caminho, profético e corajosamente traçado pelo atual pontificado, deixa ainda perplexas muitas figuras do clero.

O medo de abandonar um modelo “seguro”, no qual fomos formados e habituados, por ora vence sobre a coragem de se tentar novas vias. Na paralisia, esquece-se que a identidade do presbítero está em caminho, está aberta, em constante evolução.

Não existe o presbítero “válido de uma vez por todas”, mas um ministro chamado, no concreto da história, feita de rostos, de alegrias e de lágrimas, em um mundo real que possui coordenadas precisas e dentro das quais, se realmente se quer incidir, é preciso habitar. Não como um chefe, um supervisor ou um estranho, mas como um companheiro de estrada.

Se tudo muda, me pergunto também sobre a identidade e o modelo de presbítero: pode-se continuar parado?

 

 

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