Os problemas de Guam, uma diocese abalada por escândalos financeiros e sexuais

Salvatore Cernuzio -20/09/17 –Foto:Ilha de Guam

Tradução: Orlando Almeida

O Insider do Vaticano reconstrói os acontecimentos que levaram ao processo contra o arcebispo Anthony Apuron. A sentença é esperada para os próximos dias por parte do Tribunal presidido pelo Cardeal Burke. Entre corrupção, intrigas, abusos e jogos de poder.

Corrupção, vinganças, lobbies, escândalos financeiros, abusos sexuais. Tudo parece entrelaçar-se em Guam, a maior ilha do arquipélago das Marianas, no Oceano Pacífico ocidental, colocada recentemente sob os refletores do noticiário internacional devido às ameaças do líder norte-coreano Kim Jong-un de bombardear as bases militares americanas na ilha .

Uma preocupação a mais para os habitantes de Guam, já profundamente perturbados pelos escândalos na arquidiocese de Agana que provocaram a paralisia de uma igreja que, no panorama do Pacífico, se distinguia pela vivacidade dos seus fiéis, que são cerca de 85%  de uma população de 160 mil habitantes. Um dado nada irrelevante numa parte do mundo onde estão desaparecendo progressivamente todos os vestígios de catolicismo.

Aguarda-se por estes dias a sentença do processo canônico contra o arcebispo Anthony Apuron, 72 anos, da Ordem dos frades menores capuchinhos, que se auto-suspendeu de qualquer função depois de ter sido acusado de ter cometido abusos sexuais contra menores quando era sacerdote, há mais de quarenta anos atrás. Mas o que poderia parecer um último, triste, caso de um padre pedófilo, visto de perto assume contornos muito mais complexos em que entram em jogo rivalidades, intrigas, jogos de poder, verdadeiros ou supostos abusos de natureza sexual, e campanhas midiáticas.

E isto num território de pequenas dimensões, onde a maioria da população está ligada por laços de parentesco. Em suma, uma ‘novela’ bem mais túrbida do que a divulgada até hoje, que Vatican Insider procurou reconstruir em detalhes, através de declarações recolhidas junto a testemunhas locais, gravações e dados provenientes de documentos que se teve a oportunidade de consultar.

Guam e o projeto de transformá-la em uma “Las Vegas do Pacífico “

Tudo começa em 2002, quando um grupo de empresários chineses se interessa pelo Hotel Accion em Yona, um hotel japonês construído em 2000 e falido pouco tempo depois, que tem uma área  de  20 hectares e um acesso direto ao mar. Na época da sua inauguração, o valor da instalação está  avaliado entre 60 e 80 milhões. David Lujan, o advogado encarregado da negociação, oferece 5 milhões para comprá-lo. A ideia é transformar o hotel em um grande casino; um projeto que faz parte de uma estratégia maior para tornar a ilha de Guam uma “Las Vegas do Pacífico” para todos os apostadores da China, Rússia, Japão e Coréia.

Um projeto ambicioso que envolvia também Mark Anthony Brown, anteriormente Ceo da empresa Trump Hotels & Casinos Inc,  e que traria lucros milionários mas também o risco de importar para a ilha

  • criminalidade,
  • prostituição,
  • drogas,

como afirmava o arcebispo Apuron (Na Foto: Sensus fidei), que sempre se opôs à iniciativa porque “não traz dinheiro mas miséria moral”.

Os proprietários japoneses recusam a oferta de Lujan. Monsenhor Apuron  seguindo o conselho de alguns colaboradores mais próximos, oferece 2 milhões de dólares – provenientes de doações – para transformar o hotel falido num seminário Redemptoris Mater, cujas vocações e formadores provêm do Caminho Neocatecumenal, uma realidade eclesial muito difundida em Guam desde 1996 e fortemente apoiada pelo próprio Apuron.

A esperança do arcebispo é de oferecer um ponto de referência para a formação dos jovens futuros padres da área do Pacífico, diante da crise das ordens religiosas tradicionalmente presentes nas várias ilhas e do crescimento de Mórmons e Testemunhas de Jeová que investem, inclusive economicamente, para atrair fiéis.

 

Nascem o Redemptoris Mater e o Instituto Teológico

A oferta de monsenhor Apuron é aceita. Depois de assinar um contrato que estabelece a restrição de uso do edifício como seminário, a nova estrutura do Redemptoris Mater é inaugurada em 2004. Dentro dela nasce também. em 2005, o Instituto Teológico “Beato Diego Luis de San Vitores SJ”, subscrito por  31 bispos do Pacífico e filiado à Pontifícia Universidade Lateranense por vontade do então reitor Rino Fisichella e do decano da Faculdade de Teologia, Ignazio Sanna. O nascimento do Instituto, que abriga uma biblioteca com mais de 30.000 volumes, é saudado com entusiasmo por muitos prelados australianos, filipinos e americanos que ao longo dos anos tiveram oportunidade de visitá-lo. No seminário de Guam estudam 40 seminaristas vindos de todo o mundo.

Dezessete chegaram ao sacerdócio e foram enviados em missão pela ilha, mas também  a Saipan, China e Estados Unidos. Mas hoje tanto o Seminário como o Instituto estão perto de ser fechado para uma decisão do novo administrador apostólico da diocese, o arcebispo coadjutor Michael Jude Byrnes.

 

Um monsenhor muito poderoso 

Mas antes de chegar às decisões dos últimos meses, é necessário dar um passo atrás e lembrar o nome do influente monsenhor James Benavente (foto ao lado: divulgação), conhecido em Agana pela sua tríplice função de

  • reitor da catedral,
  • de administrador do cemitério
  • e de diretor da Escola católica “Saint Thomas”.

Benavente, que se gaba de ter uma sólida amizade com o cardeal Luis Antonio Tagle, é alvo de muitas críticas (e também de muitas fofocas) devido a algumas das suas atitudes e sobretudo ao luxo de que gosta de cercar-se,

  • entre carros,
  • casas (três compradas para si mesmo  e um conjunto inteiro para sua família),
  • vôos em primeira classe,
  • restaurantes
  • e festas.

Entre os documentos da arquidiocese que Vatican Insider teve oportunidade de examinar estão recibos e faturas que variam de 9.000 a 17.000 dólares por hospedagens em hotéis e resorts cinco estrelas, como o Saipan World Centre ou o Makati Shangri-La de Manila.

Benavente é também chefe do Conselho financeiro da Arquidiocese de Agana, que em 2002 foi assolada por um ciclone devastador que causou prejuízos de milhões de dólares.  O arcebispo Apuron arregaça as mangas e, até 2010, consegue sanar ou pelo menos reduzir todas as dívidas causadas pela calamidade. Mas no balanço há alguma coisa que parece não bater. Há grandes importantes buracos financeiros em três instituições da arquidiocese: a catedral, o cemitério e a escola católica “Saint Thomas”. Fala-se de contas no vermelho com dívidas de cerca de 7 milhões e meio de dólares, como atesta  um relatório do próprio Conselho Financeiro da Arquidiocese de Agana.

Em 2011, o problema é submetido à Congregação para a Evangelização dos Povos, uma vez que Guam faz parte dos territórios sob sua competência. O cardeal Prefeito Fernando Filoni pede uma auditoria para obter os esclarecimentos necessários, mas a iniciativa é bloqueada: de fato há “falhas contábeis significativas” nas contas das entidades administradas por monsenhor Benavente e fica difícil levantar as receitas e as saídas.

A Ilha de GUAM, a maior do Arquipélago das MARIANAS

 

Apuron reforma ex novo do Conselho Financeiro da Arquidiocese 

O arcebispo então reúne os seis membros do Conselho: pede explicações e propostas de solução. A proposta de Benavente – aliás  “afilhado” do advogado David Lujan – é de vender o Redemptoris Mater para tapar os buracos econômicos evitando assim um escândalo público.

“Tereis de passar sobre o meu cadáver”, responde o Arcebispo, que deixa claro que não quer discutir nunca mais o assunto. Mas, apesar das recomendações do chefe da diocese, os membros do organismo se movimentam para favorecer o negócio.

Apuron então decide reformar ex novo o Conselho, eliminando membros como Richard Untalan – cuja presença na equipe tinha sido pedida expressamente por Benavente –  um advogado expulso da Ordem no final dos anos 80 por “torpeza moral” depois de uma condenação pelo Tribunal de Apelação de Washington D.C. por “facilitação criminal de um crime de segundo grau: roubo fraudulento”.

Um dos colaboradores de Apuron, presentes no momento dos fatos e testemunha direta, refere que o arcebispo, o seu vigário geral e o seu chanceler recebem ameaças devido a esta decisão, por parte de monsenhor Benavente, que faz questão de dizer que tem importantes relações de amizade com o FBI e personalidades de poder em Roma.

 

Deloitte & Touche não consegue elaborar um relatório financeiro

Chegamos assim a 2012 quando é criado na rede um blog chamado Jungle Watch que ataca o arcebispo Apuron e o Caminho Neocatecumenal, acusado de manipular o prelado e de ‘colonizar’ toda a diocese de Agana. A plataforma web é administrada por Tim Rohr, um agente imobiliário empregado de monsenhor Benavente e envolvido no ‘affaire’ da venda do Seminário. As críticas do blog tornam-se cada vez mais virulentas. Apuron recorre de novo à Propaganda Fide, que por sua vez encarrega Deloitte & Touche, conhecida sociedade de auditoria independente, de elaborar um relatório sobre as desastradas finanças da Igreja de Guam.

Também desta vez, é praticamente impossível concluir a auditoria, como se lê num documento da Deloitte & Touche datado de 8 de janeiro de 2014, no qual se declara a impossibilidade de obter “resultados satisfatórios” com base nos balanços analisados. Alguns documentos aliás desapareceram. De acordo com os depoimentos recolhidos por Vatican Insider a documentação relativa à administração de Benavente teria sido rapidamente destruída para evitar verificações e análises.

 

Acusações pesadas contra monsenhor BenaventeResultado de imagem para mons. James Benavente

No entanto emergem alguns detalhes, relatados a Vatican Insider pela advogada civil Jacque Terlaje, ex-secretária do Conselho Financeiro dos Cemitérios Católicos de Guam:

“Como membro oficial de uma sociedade sem fins lucrativos, vi inúmeros abusos de fundos cemiteriais que levaram a grandes injustiças para com os defuntos e as suas famílias” –  explica. –

  • “Por exemplo, nos fundos cemiteriais não havia qualquer verba para os “cuidados perpétuos”, responsabilidades de longo prazo para financiar a manutenção dos lóculos vendidos.
  • Durante a mudança de administração, descobriu-se depois que havia apropriações indevidas e furtos que ocorriam dentro dos Cemitérios Católicos.
  • Por exemplo, a doação não autorizada de 380.000 dólares em terras do cemitério para a família e amigos de James Benavente. Um deles veio depois para reembolsar o valor recebido.
  • Benavente também usou 13 mil dólares dos fundos da entidade para pagar os festejos do seu 20º aniversário de sacerdócio em julho de 2014″.

 

Não só:

“Na revisão dos financiamentos durante um período que vai de 2009 a 2014 – sublinha também a advogada – verificou-se que foi emitido um cartão de crédito em nome do Conselho dos Cemitérios, mas de uso exclusivo por monsenhor Benavente para despesas

  • com refeições em restaurantes de luxo,
  • passagens aéreas em primeira classe,
  • pernoites em hotéis 5 estrelas.
  • Outra  despesa de 23.000 dólares foi rastreada em outro cartão de crédito, sempre usando fundos cemiteriais.

Num período de cinco anos, Benavente também pagou a si mesmo somas equivalentes a 326.913,61 dólares, misturando e transferindo fundos entre os Cemitérios e a Basílica “Dulce nombre di Maria” [as entidades de que ele era administrador, ndr] sem respeitar as restrições; ou seja, os fundos cemiteriais foram utilizados para

  • pagar os salários dos empregados da Catedral
  • ou para pagar empréstimos da Basílica,
  • ou, pior, para reembolsar os pagamentos pessoais dos cartões de crédito.

Isto tornou difícil para a Deloitte & Touche concluir a auditoria”.

As alegações da advogada – removida posteriormente do Conselho financeiro e atacada com ameaças e denúncias – também foram divulgadas no site da Arquidiocese www.aganaarch.org (atualmente a página está apagada).

Benavente é então demitido de qualquer função e o arcebispo Apuron forma um novo conselho para administrar os fundos da Catedral e do Cemitério; a escola entretanto faliu.

 

Propaganda Fide intervém novamente

Para evitar o exacerbar-se das tensões, o cardeal Filoni intervém novamente, enviando em “visita de informação”, em janeiro de 2015, o secretário do Dicastério, o arcebispo salesiano Savio Hon Tai-Fai, natural de Hong Kong. O prelado permanece quinze dias na ilha. Durante estas duas semanas, ele realiza várias mudanças na Igreja de Guam e, por sua própria iniciativa, realiza interrogatórios com a colaboração do administrador apostólico do Pacífico, o núncio Martin Krebs, alemão de Essen.

Entretanto, ao mesmo tempo em que continuam as acusações online contra monsenhor Apuron, o diácono Steven Martinez, membro do Conselho Financeiro, organiza, junto com outros colegas, um grupo chamado ‘Concerned Catholic of Guam’, que, entre outras coisas, se propõe como objetivo “vigiar sobre a corrupção” do arcebispo.

Por último são organizados, através de um site atualizado em tempo real, protestos ‘sit-in’ em frente à catedral com cartazes que pedem a sua demissão e a redução ao estado laical. Na liderança do grupo estão Gregory Perez, presidente, e David Sablan, vice-presidente, nome conhecido nos noticiários por um caso de malversação que está atualmente sendo investigado pelo governo federal dos Estados Unidos.

 

Abusos sexuais

Passam alguns meses de relativa trégua, e em maio de 2016, nas páginas de todos os jornais da ilha, aparece um anúncio de Tim Rohr convidando “a se apresentar” qualquer pessoa que tenha sido vítima ou tenha conhecimento dos abusos cometidos por Apuron em 1976-77 na paróquia de “Nossa Senhora do Monte Carmelo, onde era pároco. O anúncio permanece por um mês em todos os jornais.

Depois de alguns dias, apresentam-se quatro pessoas; entre estas Roy Taitague Quintanilla, que afirma ter sido abusado quarenta anos atrás quando, com doze anos, era coroinha do padre Apuron. O qual – é a sua acusação – o teria levado de noite para a sua casa para violentá-lo. Nos atos do processo em curso haveria porém  declarações de ex-coroinhas que afirmam que nunca viram Quintanilla na paróquia  e que desenvolviam as  atividades sempre em grupo e nunca sozinhos.

Junto com Quintanilla, estão se apresentando outras pessoas, que em lágrimas revelam diante das telecâmeras que foram molestadas. Como se infere da gravação de uma entrevista com Patti Arroyo na rádio K57 Newstalk, Tim Rohr admite publicamente que “gastou quatro dias para

  • publicar um anúncio
  • e encontrar Roy,
  • e pagar-lhe as passagens do Havaí”,
  • ter coordenado o grupo de vítimas e parentes dizendo a eles “o que dizer e quando chorar”,
  • além de aconselhá-los a contratar David Lujan como advogado.

 

“Santidade, eu sou inocente”

Depois de nem sequer cinco horas após a publicação das acusações, o núncio Krebs telefona a Apuron do exterior – e continua a fazê-lo durante toda a semana seguinte – para pedir-lhe a imediata demissão  “por vontade” do Papa. Mas é ao próprio Papa que Apuron quer dirigir-se para discutir a situação; por isso protela e parte para Roma para pedir um encontro com o Pontífice. Encontra-se com ele no fim da audiência geral de 24 de maio de 2016 na Praça de São Pedro; durante o beija-mão Apuron diz a Francisco: “Santidade, sou inocente. Gostaria de ter uma audiência privada com o senhor”. Bergoglio chama um colaborador para pedir-lhe que marque uma data, mas aquela audiência não acontecerá nunca.

 

A arquidiocese tenta defender seu bispo

Enquanto isso, a arquidiocese tenta intervir em defesa de seu bispo e contata o escritório de advocacia “Lewis Roca” de Denver, uma importante firma de advocacia dos EUA em matéria de abusos sexuais envolvendo a Igreja, consultado frequentemente pela Conferência Episcopal dos EUA. A “Lewis Roca” aceita defender a arquidiocese e Apuron gratuitamente, recebendo uma possível eventual porcentagem da reparação dos danos apenas em caso de vitória. Ao mesmo tempo, o advogado David Lujan instaura uma ação judicial por difamação contra o bispo e a arquidiocese por terem declarado que as acusações de abuso eram falsas.

 

Apuron se auto-suspende, chega Hon Tai-Fai como administrador sede plena

Resultado de imagem para mons. Savio Hon Tai-Fai

Apuron decide então afastar-se de todas as funções e pede à Santa Sé a nomeação de um administrador apostólico para devolver ordem e paz à ilha e dar a ele a possibilidade de se defender das acusações.

O pedido é acolhido pelo Vaticano, e, em 6 de junho de 2016, um boletim da Sala de Imprensa da Santa Sé anuncia a nomeação do secretário da Propaganda Fide, monsenhor Savio Hon Tai-Fai (foto: Arquidiocese de Agaña) como administrador apostólico sede plena de Guam. Apuron é mantido temporariamente como arcebispo, embora exautorado.

Aos fiéis envia um vídeo em que reitera a sua inocência e anuncia a iminente mudança, dizendo que acolhe “de braços abertos” o novo administrador apostólico, um sinal de que o Papa quer “restabelecer a verdade” que “me permite defender-me das falsas ilações contra mim”.

 

A reestruturação geral

Monsenhor Hon chega ás ilhas Marianas depois de algumas semanas, e, como primeiro passo, pede a todos os sacerdotes, em particular aos formados no Redemptoris Mater, que apresentem as suas demissões como “prova de lealdade a mim e à Igreja”. Alguns aceitam, outros ao contrário opõem resistência. Contra estes últimos surgem imediatamente acusações, algumas de natureza sexual, outros são reenviados aos seus países de origem. Dois bispos samoanos são obrigados a retirar os seus seminaristas mandados a estudar em Guam. O vigário geral David Quitugua, nomeado por Apuron como reitor da catedral em lugar de Benavente, é removido.

O mesmo acontece com o chanceler Adrian Cristobal (um chamorro, isto é, nativo de Guam) e com o seu vice Alberto Rodriguez. Perdem o cargo também os párocos das quatro maiores e populosas paróquias da arquidiocese de Agana, entre os quais mons. Brigido Arroyo, idoso e já com idade de aposentar-se, muito amado pela comunidade paroquial de Saint Anthony onde é conhecido como “padre Bibi”. Hon também mexe no conselho encarregado de organizar os fundos do cemitério e, no lugar de Quitugua, confia a catedral ao padre Paul Gofigan, removido dois anos antes.

 

Padre Gofigan e o condenado

Neste ponto, é necessário dar outro passo atrás e lembrar que o arcebispo Apuron tinha removido o padre Gofigan depois de receber queixas e pressões pelo fato de o padre estar convivendo na casa paroquial com um ex-preso, Joseph Lastimoza, 54 anos, condenado à prisão perpétua por ter estuprado e matado uma aeromoça de 25 anos de Nova York, em 1981, e ter tentado depois violentar outras mulheres. Lastimoza, que saíra da prisão em liberdade condicional em 2002, tinha as chaves da vizinha escola infantil “Santa Barbara Catholic School”, onde era responsável pela manutenção.

Vários pais haviam manifestado a sua contrariedade a Apuron, seja pessoalmente seja escrevendo cartas e enviando e-mails, pelo fato de um condenado ter tal liberdade de movimento em um lugar frequentado por mulheres e crianças. Além disso, é a própria lei de Guam que estabelece que qualquer pessoa condenada por crimes graves “não pode ser empregada, diretamente ou por meio de um contratador independente” num setor como “uma escola ou instituição educacional enquanto as crianças estão presentes”.

Em 2014, o nome de Lastimoza foi inscrito no primeiro nível do Registro dos “sex offender” do Sistema Judiciário de Guam, depois que David Mills, um ex-militar agora residente em Nova York e que tinha acompanhado o caso à época dos fatos, mandou uma carta incandescente à imprensa local. É então que monsenhor Apuron, depois de ter dado um pré-aviso dois anos antes, insiste para que Gofigan afaste Lastimoza, até por que a sua presença violava as leis vigentes.

Mas o padre não dá ouvidos à advertência do bispo que, por fim, também por orientação do advogado da arquidiocese, Edward Terlaje, decide removê-lo. O afastamento do sacerdote, também fundador do movimento “Rainbow Mercy” para jovens católicos homossexuais, foi descrito muitas vezes pelos comentaristas de Jungle Watch como resultado das manipulações do Caminho Neocatecumenal.

 

A “reforma” de Hon

Entretanto Hon dá entrevistas e declarações em conferências de imprensa sobre a culpabilidade de Apuron antes mesmo do início do processo, acusando o arcebispo de mentir ao negar os abusos.

Depois,

  • reabilita Benavente publicamente
  • e readmite-o como pároco da maior paróquia de Guam,
  • assim como membro do Conselho Financeiro (com ele retorna também Richard Untalan)
  • e do grupo encarregado dos fundos do cemitério.

O administrador apostólico sede plena rescinde também o contrato com a “Lewis Roca” e contrata em seu lugar a Swanson & McNamara, um escritório caríssimo de São Francisco. Hon também começa uma série de interrogatórios a sacerdotes e seminaristas do Redemptoris Mater, durante os quais os garotos se encontram diante de um dilema:

  • obedecer a Apuron
  • ou “a um arcebispo investido dos poderes de Deus”.

O Redemptoris Mater sofre uma redução drástica: de 40 a pouco menos de 15 seminaristas.

 

Hon é chamado de volta a Roma, chega um novo coadjutor: o americano Byrnes

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Durante a estadia de nem cinco meses de Hon em Guam, três cartas são enviadas ao Papa Francisco para colocá-lo a par da situação. As cartas não recebem resposta direta, mas Bergoglio em 31 de outubro de 2016 – depois de pedir ao cardeal Filoni que encontre rapidamente um candidato – chama Savio Hon a Roma e nomeia um arcebispo coadjutor, o americano Michael Jude Byrnes (na foto: Pacific Daily News), bispo auxiliar de Detroit, para guiar a diocese já em situação caótica. Antes de sair, Hon dá uma longa entrevista ao diário Pacific Daily News para indicar ao sucessor o caminho a seguir.

Quatro dias antes da chegada de Byrnes à ilha, Hon manda entregar-lhe também um pacote contendo uma série de documentos sobre as finanças da ilha, inclusive uma carta em que insiste para que os estatutos do seminário Redemptoris Mater sejam alterados e seja eliminada a cláusula de restrição de uso. Escolha, esta, adotada para salvaguardar um bem diocesano, mas que, segundo os detratores, teria feito com que Apuron perdesse todos os direitos sobre a propriedade (acusação desmentida pelo fato de que, com uma simples assinatura, Byrnes eliminou a restrição de uso).

 

Fecha o Redemptoris Mater, suspensa a filiação Lateranense-Instituto Teológico

Em Roma, monsenhor Savio Hon dirige-se à Congregação da Educação católica – quem o conta são os funcionários deste Dicastério – para pedir a suspensão da renovação da filiação do Instituto Teológico à Pontifícia Universidade Lateranense, aliás já renovada por mais dez anos. As últimas informações dão conta de que, em 29 de agosto de 2017, Byrnes anunciou o fechamento do Seminário e do Instituto.

E que, também nas últimas semanas, removeu quatro sacerdotes das funções diocesanas porque culpados de insubordinação por escreverem uma carta ao cardeal Filoni informando-o sobre a intenção de vender o prédio de Yona, informação pedida pelo próprio cardeal. Monsenhor Benavente foi reintegrado em todos os cargos anteriores, aos quais foi acrescentada a nomeação de delegado para o patrimônio da arquidiocese.

 

A investigação do cardeal Burke

Quanto às acusações de abusos sexuais contra Apuron, aguarda-se a sentença do “Tribunal de primeira instância”, presidido pelo Cardeal Raymond Leo Burke, crítico notório do Papa Francisco, sendo um dos autores dos “dubia” sobre a Amoris laetitia.

Quando, em 17 de fevereiro de 2017, Francisco enviou o cardeal ao arquipélago das Marianas para investigar  o caso Guam, muitos falaram de “punição” ou de “exílio”. À luz dos fatos parece ao contrário que a escolha do Pontífice foi ditada pela notável competência do cardeal adquirida durante os anos em que foi Prefeito do Tribunal da Assinatura Apostólica.

O purpurado americano recolheu em cerca de duas semanas toda a documentação e os testemunhos a serem transmitidos à Congregação para a Doutrina da Fé, visitando pessoalmente, além de Guam, o Havaí, São Francisco, Phoenix e a Costa Leste para ouvir as vítimas. Muitas das quais, como afirmaram elas mesmas a jornais locais, não quiseram encontrar-se com o cardeal senão com a  presença do seu advogado, David Lujan.

 

À espera da sentença

Burke e outros quatro juízes, todos bispos, deverão agora emitir a sentença de culpa ou de inocência de monsenhor Apuron. Uma decisão que já era esperada para o dia 4 de agosto passado, mas foi adiada. Talvez por causa das pressões externas que está recebendo o cardeal, que confiou aos seus colaboradores mais próximos ter ficado impressionado com a forte presença de lobbies na ilha. Se Apuron for considerado culpado, a sentença terá consequências canônicas e não-civis.

“O fato de o Papa ter concedido um julgamento a um bispo – explica um advogado canônico ao Vatican Insider –  é um sinal de que a Igreja quer restabelecer de algum modo  um procedimento de legalidade”. Se a sua inocência fosse declarada, não seria fácil para ele, devido ao dano à imagem, voltar a dirigir a diocese de Guam. Embora o próprio arcebispo tenha confidenciado que está disposto a fazê-lo, talvez com a ajuda de um bispo auxiliar. De qualquer modo, para esta situação turbulenta ainda parece difícil escrever a palavra “fim”.

 

 

Salvatore Cernuzio

http://www.lastampa.it/2017/09/20/vaticaninsider/ita/inchieste-e-interviste/i-guai-di-guam-una-diocesi-devastata-da-scandali-finanziari-e-sessuali-dyv52USDcGeMfdzIFT96oO/pagina.html

 

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