ESTE PAPA É UMA DECEPÇÃO!

Se este é o espírito e o comportamento do Papa, porque suscitará ele tanta oposição?

Frei Bento Domingues – 17 setembro 2017

“No meu ponto de vista, seria péssimo que os gestos e as atitudes do Papa não fossem discutidos. O uso da liberdade de expressão na Igreja é um direito e um dever. Aliás, é o que este Papa mais exerce e mais deseja para todos.

O que é inaceitável é que sejam aqueles que sempre atacaram a liberdade no passado, usem todos os meios para restaurar um tempo em que só eles e os da sua tendência tinham direito de expressão.

Servir-se de um tempo de liberdade para a destruir, não é o caminho da ética humana e cristã mais respeitável.”

  1. Num dos períodos de conflito armado mais ameaçador e de medo generalizado, dei aulas e fiz conferências de teologia em Bogotá e Medellin. Depois de 50 anos de horror, comoveu-me a coragem e o empenhamento do Papa Francisco, no meio de muitas dificuldades locais, em intensificar e tornar irreversível o processo de paz, na Colômbia.

Bergoglio não foi celebrar um país reconciliado, sem traumas nem ressentimentos. Quis contribuir para que  todos desejem que o diálogo e a reconciliação se tornem o estilo de vida do país.

É difícil aceitar que o ressentimento do ex-Presidente Álvaro Uribe – que se confessa um fervoroso católico – o tenha tornado alérgico à iniciativa do Papa que declarou aos colombianos: foi demasiado o tempo que passaram no ódio e na violência; não queremos que mais nenhuma vida seja anulada ou restringida. A conversão não é um acontecimento impossível.

Bergoglio não escolheu apenas o nome de Francisco de Assis. Em todo o lado, na Europa, no Oriente, em África, nas Américas, na Ásia, a sua vontade é realizar a oração que dele recebeu:

Senhor, fazei de mim um instrumento da vossa paz; Onde houver ódio, que eu leve o amor; Onde houver discórdia, que eu leve a união; (…); Pois é dando que se recebe; É perdoando, que se é perdoado; é morrendo que se vive para a vida eterna.

Mas se este é o espírito e o comportamento do Papa, porque suscitará ele tanta oposição?

 

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  1. Uma revista jesuíta[1]resolveu divulgar um texto de um biblista italiano, Alberto Maggi (foto: Reprodução), membro da Ordem dos Servos de Maria, intitulado: Desilusão. O autor desenhou uma tipologia que alguns julgarão simplista, mas talvez seja apenas tão exacta que lhe baste ser simples.

Segundo ele,

  • tudo começou com um murmúrio discreto,
  • que se tornou uma queixa e se foi ampliando.

Agora, a resistência já é declarada:

  • um confronto público,
  • por vezes uma provocação
  • acompanhada de ameaças de um cisma.

Francisco, em pouco tempo, conseguiu decepcionar quase todos. Esta decepção de ressentimento encapotado converteu-se em algo que está à vista de quem quiser ver. Alguns dos cardeais que o elegeram estão desiludidos. Parecia o homem ideal, sem esqueletos nos armários, doutrinalmente conservador, mas aberto às novas ideias. Com ele poder-se-ia garantir um tempo de paz no meio dos escândalos da Igreja, um período sem turbulências nem divisões.

Nunca imaginaram que Bergoglio tivesse a intenção

  • de reformar a Cúria Romana,
  • de acabar com os seus privilégios
  • e fustigar as vaidades do clero.

A sua presença, simples e espontânea, é uma acusação constante aos prelados

  • pomposos,
  • faraónicos,
  • anacrónicos,
  • cheios de si mesmos.

Os bispos carreiristas estão decepcionados. A nomeação para uma cidade era só um passo para uma posição de maior prestígio. Estavam prontos a clonar-se com o pontífice de serviço, imitá-lo sempre em tudo, desde os gestos externos até aos doutrinais, fazer qualquer coisa para lhe agradar e obter os seus favores.

Agora, vem este Papa e convida os bispos ambiciosos e vaidosos a ter o cheiro das suas ovelhas… Que horror!

Uma parte do clero também está decepcionada.

  • Esse clero sente-se perdido.
  • Criado no estrito cumprimento da doutrina,
  • indiferente ao povo de Deus,
  • já não sabe que fazer.

Tem de recuperar um sentido de “humanidade” que o escrupuloso cumprimento das normas da Igreja tinha atrofiado. Pensava que estava, como “sacerdote” (presbítero), acima dos fiéis e, agora, este Papa convida-o a descer e a colocar-se ao serviço dos últimos…

Decepcionados também estão os leigos empenhados na renovação da Igreja, assim como os tradicionalistas super apegados ao passado.

  • Para estes últimos, o Papa é um traidor, a ruína da Igreja.
  • Para os primeiros, não está a fazer o suficiente, não muda nem as regras nem as leis que já não estão em sintonia com os tempos, não legisla, não usa a sua autoridade como “comandante” da Igreja…

Os mais entusiasmados com ele são os pobres, os marginalizados e invisíveis e, também, aqueles cardeais, bispos, padres e leigos que, durante décadas

  • estiveram afastados por causa da sua fidelidade ao Evangelho,
  • encarados com suspeita
  • e perseguidos por causa da sua mania louca de ligar mais à Sagrada Escritura do que à tradição.

Aquilo que só haviam esperado, sonhado ou imaginado converteu-se numa realidade com Francisco, o Papa que fez descobrir ao mundo a beleza do Evangelho.

 

  1. Alberto Maggi não tinha de falar de tudo. Os leitores portugueses podem e devem completar os mapas locais e o mundo das suas relações cujas percepções serão, naturalmente, muito variadas.

Pelo que ouço dizer e observo, em Portugal, existem movimentos e orientações paroquiais, discretamente empenhados em contrariar as consequências dos gestos, das palavras e das intervenções do Papa.

Quando ele diz que a reforma litúrgica é irreversível,

  • esses movimentos, organizações e personalidades não fazem declarações públicas de que estão contra ela.
  • Adoptam gestos e devoções que a contrariam.

Isto sem falar nos textos que escrevem para mostrar que o Papa

  • é um homem de boa vontade,
  • mas incompetente do ponto de vista teológico, para orientar a Igreja.
  • O que lhe falta em teologia sobra-lhe em atrevimento e falta de respeito pelo Direito Canónico.

No meu ponto de vista, seria péssimo que os gestos e as atitudes do Papa não fossem discutidos. O uso da liberdade de expressão na Igreja é um direito e um dever. Aliás, é o que este Papa mais exerce e mais deseja para todos. O que é inaceitável é que sejam aqueles que sempre atacaram a liberdade no passado, [que agora] usem todos os meios para restaurar um tempo em que só eles e os da sua tendência tinham direito de expressão. Servir-se de um tempo de liberdade para a destruir, não é o caminho da ética humana e cristã mais respeitável.

P.S. Foi no dia em que escrevi esta crónica que soube da morte do Bispo do Porto, António Francisco dos Santos, o Bispo português de quem mais gostava e que sempre me acolheu com muita amizade.

[1] http://www.jesuitas.co/21780.html

 

 

Frei Bento Domingues, O.P.

Fonte: https://www.publico.pt/2017/09/17/sociedade/noticia/este-papa-e-uma-decepcao-1785276

 

 

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