A oscilação política de Fátima – ou o poder da fé

Fátima, 100 anos, de Maio a Outubro (5) – A oscilação política e as guerras de Fátima à volta da paz Peregrinação. É na década de 1950 que se inicia a projeção internacional de Fátima

António Marujo –13/9/17 – Foto:António Pedro Ferreira

Depois de Maio, podemos voltar a parte do muito que se publicou sobre Fátima e que ajudará a sistematizar informação e elementos para vários debates sobre o fenômeno, que importa agora aprofundar.

Hoje, dia da peregrinação aniversária de Setembro, trago aqui dois textos sobre a relação de Fátima com a política, ambos publicados no Expresso: um, publicado a 6 de Maio na Revista E, sobre a oscilação da relação com a política, ao longo do primeiro século de Fátima.

Outro, publicado dia 12 de Maio no Expresso Diário, sobre a questão específica da guerra e da paz.

 

Este é o quinto trabalho da série, que terminará a 13 de Outubro. Os textos já publicados podem ser lidos nestas ligações:1.Visões, não aparições – pôr Fátima no sítio  – Como começou a história  – Segredos, contextos e linguagens – Maria, factor de unidade ou perturbação no catolicismo e no diálogo ecuménico? 

Neste século, Fátima foi terreno de conflito entre o catolicismo tradicional e a República, afirmação do desejo de paz contra a participação de Portugal na guerra, “escola” do nacionalismo católico durante o Estado Novo e da mensagem anticomunista, lugar de divulgação de mensagens contra a guerra colonial, centro do catolicismo português depois da instauração da democracia

Cem anos e muitas polémicas depois, o momento presente de Fátima não revela nenhum “motivo de atrito” nem de “utilizações abusivas entre o Estado e a Igreja”, ao contrário do que aconteceu durante este primeiro século de Fátima. A conclusão, expressa pelo historiador José Miguel Sardica na “Enciclopédia de Fátima”, traduz a realidade de ter sido o regime democrático a estabilizar a relação do Estado com a Igreja, no que também a Fátima diz respeito.

Ao longo destes 100 anos, a história do fenómeno faz-se também a partir do que foi a sua relação com o Estado e a política. E pode concluir-se pela oscilação, pois Fátima foi sendo várias Fátimas:

  • o relato ingénuo dos primeiros três anos, acerca das visões das três crianças (e sobretudo de Lúcia) em 1917, coincidindo com a primeira adesão popular e as críticas severas dos republicanos;
  • o reconhecimento do fenómeno como “autêntico” por parte da diocese de Leiria; as novas narrativas que Lúcia acrescenta, a partir da década de 1930 e até 1945;
  • a relação de respeito e aproveitamento mútuo entre Fátima e o Estado Novo;
  • a oposição surda das populações à guerra colonial e as ambiguidades de um santuário que falava de paz mas se silenciava perante um regime que coartava a liberdade e conduzia a guerra (ver texto “As guerras à volta da paz”);
  • o esvaziamento do discurso anticomunista após a queda do Muro de Berlim…

No início, Fátima é um dos fatores de conflito entre a Igreja e o novo regime republicano. Para isso contribuem vários elementos. Entre eles, está a feroz oposição da imprensa republicana, rápida a denunciar a “crendice”, a “pérfida especulação” e a “superstição” que o fenómeno revelaria.

Lúcia era referida como “papagaio bem falante” e instrumento usado pelo clero.

Haveria ainda outras achas para a fogueira:

  • o “rapto” que o administrador de Ourém fez dos videntes, em agosto, no dia em que estava prevista uma nova “aparição”;
  • a mentalidade do catolicismo popular, genericamente inculto e supersticioso, baseado na tradição, na devoção, no medo e em formas elementares de vida religiosa;
  • o início da participação portuguesa na Grande Guerra e as mortes de milhares de jovens nos campos de França e da Flandres;
  • o atentado em 1922 contra a primeira Capelinha das Aparições…

 

SALAZAR E FÁTIMA, A MESMA LINGUAGEM

Só com a instauração da Ditadura Militar e do Estado Novo é que aparece um novo quadro de relações. Sardica escreve, no texto sobre “Estado e Fátima”, da obra referida, que,

  • do “distanciamento, hostilidade e repressão da política face à religião”,
  • se passou “a uma atitude de respeito, colaboração, incentivo e, até, tentativa de instrumentalização”.

Alguns dados confirmam esta nova fase:

  • Fátima é dos primeiros lugares no país, fora dos grandes centros urbanos, a ter energia elétrica, recorda, ao Expresso, Bruno Cardoso Reis, investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE.
  • O então Presidente Carmona foi a Fátima inaugurar a instalação, em 1929,
  • ao mesmo tempo que o Estado facilitava e acordava com o santuário nascente os planos urbanísticos da nova localidade.

No mesmo ano, morre o cardeal Mendes Belo, até então patriarca de Lisboa e pouco entusiasta de Fátima. É também em 1929 que a diocese de Leiria, restaurada em 1918, reconhece como “autênticas” as visões de Fátima. O processo de restauração da diocese, como o bispo Carlos Azevedo mostra no livro “Fátima – Das Visões dos Pastorinhos à Visão Cristã” (ed. Esfera dos Livros), vinha de trás e nada teve que ver com o fenómeno nascido em 1917.

Este autor propõe quatro fases de apropriação da mensagem de Fátima:

  • nacionalista,
  • anticomunista,
  • dinamizadora da pastoral
  • e (após a leitura teológica da terceira parte do segredo) a perseguição da fé cristã no mundo.

Entre a vertente nacionalista e a apropriação anticomunista, “está a ligação ao Estado Novo, que se aproveitou e manipulou Fátima para uma resignação da população, sobretudo a uma visão colonial, fora da doutrina social da Igreja”.

Um dos episódios que revelam esta ligação é a carta da irmã Lúcia, de novembro de 1945, divulgada e estudada por José Barreto no livro “A Senhora de Maio” (ed. Temas e Debates/Círculo de Leitores). Nela, Lúcia escreve que Salazar era o escolhido por Deus “para continuar a governar a nossa pátria”.

Salazar, por regra, não ia a Fátima, recorda Bruno Reis, mas servia-se do fenómeno de várias maneiras. Uma delas, nota Sardica no texto referido, era a perfeita “simbiose” entre os dois discursos: “Salazar usava, na política, a mesma linguagem — “calvário”, “sacrifício”, “redenção” — que ecoava na Cova da Iria.”

 

REALIZAÇÃO “QUASE 
MIRACULOSA” DA PROFECIA

O anticomunismo que, nessa época, se cola a Fátima — muito com a ajuda do cónego Manuel Nunes Formigão, grande divulgador da mensagem e conselheiro espiritual de Lúcia — tem outro contexto: na então União Soviética, Estaline fazia dos cristãos um dos alvos privilegiados de perseguição, entre os milhões que foram levados para os campos de trabalho forçado do “arquipélago de Gulag”.

Na Espanha, onde Lúcia vivia ainda durante a década de 1930 (residiu em conventos em Tui e Pontevedra), os republicanos envolvidos na Guerra Civil opunham-se ao clericalismo e ao poder da Igreja. E Lúcia conhecia as ameaças dessas forças à liberdade institucional dos católicos e os assaltos dos republicanos a vários conventos.

A referência ao comunismo foi-se acentuando — sintetiza António Matos Ferreira, no estudo publicado no livro “A Senhora de Maio”

  • “com as progressivas medidas de Estaline relativamente à Igreja Ortodoxa,
  • com a Guerra Civil de Espanha
  • e com a Guerra Fria”.

No seu livro, Carlos Azevedo sublinha que,

  • à apropriação anticomunista,
  • sucede a acentuação da devoção à Senhora de Fátima como garante da paz.

E, na década de 1950, inicia-se ainda a projeção internacional de Fátima,

  • através das viagens da Virgem peregrina,
  • bem como o início da realização de grandes peregrinações ao santuário
  • e de congressos dinamizadores do catolicismo português.

Ao triângulo nacional-catolicismo/anticomunismo/internacionalização, não são alheios a questão da paz e o papel do Papa Pio XII, que depois ficaria conhecido como “o Papa de Fátima” — até aparecer João Paulo II. Pio XII contaria que, em 1950, ele próprio tivera visões semelhantes às do chamado “milagre do sol”.

Já antes, em 13 de maio de 1946, o Papa Pacelli falara aos fiéis católicos portugueses, através de uma das suas radiomensagens, que coincidiu com a coroação da imagem da Senhora de Fátima, em agradecimento pelo facto de Portugal ter sido “poupado” à guerra, como dizia o discurso católico oficial.

“A mais funesta guerra que viu a história” deixara Portugal de fora e, agora, a “rainha da paz e do mundo” iria ajudar o mesmo mundo “a encontrar a paz e a ressurgir das suas ruínas”, dizia o Papa Pacelli.

O discurso anticomunista perdurará em Fátima até aos últimos anos do século XX, pouco depois da queda do Muro de Berlim.

No congresso Fátima e a Paz, realizado em 1992, para assinalar os 75 anos de Fátima, o bispo de Györ (Hungria), Pápai Lajos, rejubilava com a queda do comunismo e não tinha quaisquer dúvidas: “A predição de que a Rússia ‘se converterá’ realizou-se de forma quase miraculosa. Tornou-se evidente que a conversão, a expiação, a devoção a Maria, a oração, são as forças que fazem a História.”

Ao longo destas duas últimas décadas, no entanto, o discurso que relaciona o fim do comunismo no Leste europeu com a profecia de Fátima (registada por Lúcia, na realidade, apenas a partir do final da década de 1930), praticamente desapareceu. “É como que um encerramento triunfal, como que a avalizar a importância de Fátima”, observa Bruno Cardoso Reis ao Expresso.

Apesar deste triunfo, continua a poder perguntar-se a que se converteu a Rússia, como predito nas visões de Lúcia:

  • ao caos político,
  • a um regime autocrático,
  • à corrupção?

Todos estes elementos marcam a realidade da Rússia pós-comunista. A única realidade positiva (e importante) neste domínio foi

  • o fim da perseguição aos cristãos
  • e a instauração de uma certa liberdade religiosa — da qual, aliás, nem todos beneficiam, como comprovam as denúncias recentes de perseguições às Testemunhas de Jeová e a outros grupos religiosos.

“EXCESSO DE EMPENHO” NO ANTICOMUNISMO

Já antes desse desaparecimento do discurso anticomunista (que apenas subsiste em grupos católicos ultratradicionalistas) dois Papas se tinham tentado afastar dele:

  • João XXIII notara mesmo, numa conversa com o embaixador português junto da Santa Sé, António de Faria, que Lúcia por vezes dizia coisas demais, em matérias delicadas que exigiam toda a “prudência”Bruno Cardoso Reis olha para o relato da conversa de João XXIII com o embaixador como uma evidência de que o Papa Roncalli considerava que havia um “excesso de empenho na questão da Rússia e do comunismo”, por pretender encetar uma nova fase nas relações da Santa Sé com os regimes comunistas do Leste europeu.
  • Também Paulo VI, que lhe sucede em 1963, estava interessado na mesma orientação, que não era facilitada pela persistência desse discurso. E durante a sua visita, o relacionamento com Lúcia não terá sido propriamente muito caloroso, segundo alguns relatos, apesar de o Papa aparecer com ela diante da multidão.

A visita de Paulo VI ao santuário, nos 50 anos dos acontecimentos, em 1967, foi o último grande momento de alta tensão entre Estado e Igreja tendo Fátima como pretexto. Montini irritara profundamente Salazar e os dirigentes do Estado Novo, com a sua ida à Índia, em 1964, apenas três anos depois do que o regime português considerava a “invasão” dos territórios da Índia portuguesa. Por isso, Salazar chegaria a afirmar que não daria o visto ao Papa, se este quisesse vir a Portugal.

Perante a insistência de vários membros do episcopado em que viesse a Fátima, Paulo VI contorna a zanga do ditador português de duas formas:

  • atribui a Rosa de Ouro, a mais alta condecoração papal, ao Santuário de Fátima;
  • e decide vir apenas como peregrino, não passando sequer por Lisboa.

Tendo em conta o isolamento internacional do regime, Salazar acabou por sair vencedor nos seus intentos, enquadrando a visita como pretendia, sobretudo pelo controlo que exercia dos jornais, rádio e televisão. Mas alguma oposição política ao regime, nomeadamente aquela ligada a Mário Soares, aproveitou para sublinhar a distância que Paulo VI marcara em relação a Salazar, lembra Bruno Cardoso Reis.

O Papa também atingiu o que pretendia, apesar do tom moderado da sua homilia:

  • recentrou a mensagem de Fátima na questão da paz, desvalorizando o discurso anticomunista;
  • e, saber-se-ia mais tarde, garantiu que o veto do regime à nomeação do padre António Ribeiro para bispo da Beira (Moçambique) não se repetiria se ele fosse nomeado para o continente como bispo auxiliar, como veio a acontecer. “Seria ele o escolhido do Vaticano para ser o futuro patriarca de Lisboa, sucessor de Cerejeira, e que asseguraria a transição para a democracia”, lembra o investigador.

A DEMOCRACIA, “PARA 
O BEM DA SOCIEDADE PORTUGUESA”

A democracia trará a estabilização nas relações entre a Igreja e o Estado, também no que a Fátima diz respeito. Apesar de, nos primeiros tempos pós-25 de Abril, o santuário ter sofrido uma ligeira quebra na afluência, rapidamente começa um movimento de ascendência que, hoje, faz dele um dos mais importantes santuários católicos do mundo. Ao mesmo tempo, Fátima torna-se um importante centro de formação (desde logo pela localização geográfica) dos católicos portugueses, com a realização de dezenas de congressos, reuniões ou iniciativas ao longo do ano.

As visitas de João Paulo II ao santuário (1982, 1991 e 2000) e a divulgação da terceira parte do “segredo de Fátima” marcaram as últimas décadas do santuário, basicamente pacíficas, na relação Igreja-Estado.

  • Por um lado, pela afirmação de um Papa extremamente devoto de Maria, que deu força à internacionalização do santuário;
  • por outro, pela relativização que o então cardeal Ratzinger fez no seu comentário ao segredo, do modo como a linguagem de Fátima tinha sido lida até aí.

É o futuro Papa Bento XVI que, cinco anos antes de ser eleito para o cargo,

  • fala em visões e não aparições,
  • define apenas como “razoável” que João Paulo II leia no texto do segredo uma profecia do atentado sofrido em 1981
  • e diz que Lúcia pode ter sido influenciada por imagens vistas “em livros de piedade e cujo conteúdo deriva de antigas intuições de fé”.

Simbolicamente, nota Bruno Reis, a estabilização das relações entre Estado e Igreja a propósito de Fátima tem um momento fundador:

  • a 25 de abril de 1974, o episcopado estava reunido em Fátima, para a sua assembleia plenária.
  • E foi dali que os bispos enviaram a sua primeira mensagem de saudação ao novo regime, em que manifestavam uma expectativa favorável à implantação da democracia.

Nessa primeira saudação, expressa no comunicado final divulgado no dia 26, os bispos manifestavam o desejo de que os acontecimentos da véspera contribuíssem “para o bem da sociedade portuguesa, na justiça, na reconciliação e no respeito por todas as pessoas”.

Nestas quatro décadas de democracia, apesar de alguns episódios esporádicos — rubricas de televisão a ridicularizar Fátima, polémicas sobre a presença de governantes ou do Presidente no santuário por ocasião de visitas papais, ou o luto nacional por Lúcia, em 2005 — a relação da Igreja e do Estado a propósito de Fátima tem sido sobretudo pacífica. Pode dizer-se que o piedoso voto dos bispos, em abril de 1974, se tem cumprido…

 

 

António Marujo

Fonte http://religionline.blogspot.com.br/2017/09/fatima-100-anos-de-maio-outubro-5.html

 

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