Müller acusa o Papa de não basear a sua autoridade magisterial numa teologia “competente”

Denuncia que ele se preocupa mais com as “questões de diplomacia e poder” do que as da fé

Cameron Doody 14/9/17.  Foto: Cardeal Müller, ex-Prefeito da Doutrina da Fé

“Deveria estar em seu lugar a fé cristã, a que está no centro, e o Papa deveria ser simplesmente um “servo da salvação”

Müller aproveitou as suas intervenções para queixar-se mais uma vez das diferenças que mantém com o Papa, o que desencadeou a sua destituição como chefe do Santo Ofício, no final de junho”.

Tradução: Orlando Almeida

 

Não tendes nem ideia disto!”. O cardeal Gerhard Müller faz eco às palavras com que São Roberto Belarmino, uma vez, jogou na cara do papa Clemente VIII a sua falta de competência teológica, para voltar a atacar o papa Francisco, acusando-o de não basear a sua “autoridade magisterial” numa teologia sólida.

Segundo relatam o Tagespost e o Mannheimer Morgen, o ex-Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé participou na semana passada de um colóquio em Mannheim para apresentar seu novo livro Der Papst. Sendung und Auftrag (O Papa. Missão e Mandato).

Müller aproveitou as suas intervenções para queixar-se mais uma vez das diferenças que mantém com o Papa, o que desencadeou a sua destituição como chefe do Santo Ofício, no final de junho.

A substância dos novos protestos do cardeal alemão vem a ser que Francisco, nos seus quatro anos de pontificado, desvalorizou o papel da Doutrina da Fé na vida da Igreja, até ao ponto – dolorosíssimo para Müller – de que o seu Prefeito já não goza de prestígio algum.

“Em vez da Congregação [da Doutrina da Fé], é a Secretaria de Estado do Vaticano a que agora é considerada a instituição mais importante” – criticou Müller acerca da política do Papa Bergoglio.

Foto: Lançamento do livro de Müller: Der Papst. Sendung und Auftrag (O Papa. Missão e Mandato).

Questões de diplomacia e de poder agora têm prioridade” – afirmou, lamentando que esta seja uma mudança “crucial”, mas “equivocada… que deve ser corrigida”. “Deveria estar em seu lugar a fé cristã, a que está no centro, e o Papa deveria ser simplesmente um”servo da salvação”.

Para jogar sal na ferida, Müller também criticou a recente viagem do cardeal Pietro Parolin, atual secretário de Estado, à Rússia. Embora o Papa, segundo Parolin, se tenha mostrado “contente” com os “resultados positivos” que a viagem deu, Müller quis ficar acima dos dois, criticando a “ótica infeliz” com a qual muitos interpretaram a visita, porque aqui pode cair-se  na armadilha de pensar que a religião e a política são uma só unidade”.

E acontece que, de acordo com Müller, a associação da religião e da política “nunca prosperou, quando a missão da Igreja foi se centralizava  [e se concentrava] no poder”.

Mas há mais, o destituído ex-Prefeito da Doutrina da Fé quis mandar uma nova advertência ao atual bispo de Roma, lembrando-lhe que o centro do papado não é o papa em si mesmo, mas a fé cristã“, razão pela qual Francisco deve ter em conta a necessidade – sentida pelos “cardeais dos dubia” a respeito do conteúdo de Amoris laetitia – deuma preparação teológica mais clara dos documentos [oficiais]“.

 

Cameron Doody

 

Cameroon Doody

http://www.periodistadigital.com/religion/vaticano/2017/09/14/religion-iglesia-vaticano-gerhard-muller-acusa-al-papa-francisco-de-no-basar-su-autoridad-magisterial-en-una-teologia-competente.shtml

 

 

COMENTÁRIO DO EDITOR:

Só um papa com muita paciência e, provavelmente, com grande senso estratégico, para aceitar por tanto tempo, na poderosa e hiper-sensível Congregação para a Doutrina da Fé, o vaidoso, desleal e prepotente cardeal Müller, herança de Bento XVI, confirmado no mesmo cargo por Francisco.

Mas continua um mistério:  por que o papa Francisco aguentou por tanto tempo um cardeal que continuamente o contradizia, desafiava e, pior ainda, estava convencido que deveria orientar e corrigir o papa, dando-lhe um enquadramento teológico alemão?

Como se existisse apenas a teologia dele, alemão e europeu, anti-Vaticano II…

Com todo esse cabedal teológico de Müller, poucos papas, na história da Igreja, passariam pelo crivo dele. A começar por São Pedro. 

Outro cardeal que se sente superior ao Papa e o quer corrigir, é o card. Robert Sarah (foto), da Congregação para o Culto Divino, querendo voltar para a Liturgia pré-Concílio Vaticano II, a de Pio V e do Concílio de Trento. Sarah quer continuar a Reforma da Reforma Litúrgica do Concílio Vaticano II, iniciada por João Paulo II e continuada por Bento XVI (que, talvez para agradar à Fraternidade Pio X, teve a infeliz ideia de aceitar de novo a missa em Latim e no rito de Pio V), e quer os padres celebrando voltados para o oriente, de costas para o povo.

Sem falar dos quatro ardeais dos “dubbia” – dúvidas- sobre a AMORIS LAETITIA: Brandmüller, Burke, Caffarra e Meisner(foto) que exigiram uma resposta à carta deles (que nunca receberam!) e ameaçaram processar e pedir o “impeachment” de Francisco.Como tinha acontecido com o cardeal Ottavianni, em relação a João XXIII, na década de 60. 

Será que Jesus talvez se enganou ao entregar as chaves da Igreja a Pedro, um pobre pescador? Não teria sido melhor tê-las entregado ao Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e dito: “cuida da ortodoxia de Pedro e enquadra-o teologicamente”?

João Tavares

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