169 anos de um “martírio sangrento” pelo celibato opcional

Rufo González Pérez, 18/8/17

Foto: Ladislau e esposa Camila

Não podemos esquecer!

“É difícil acreditar que exista na Igreja tal apego a uma lei que produziu tantos desmandos durante séculos”

 

Um sacerdote da diocese de Buenos Aires (Argentina), Ladislau Gutiérrez e sua esposa, Camilla O’Gorman, foram assassinados pela autoridade civil com a benção da Igreja. O seu crime: abandonar o ministério sacerdotal e formar uma família. Mataram os dois e o filho concebido, no oitavo mês de gestação.

Mariano Medrano 2.jpgO bispo da época, Mariano Medrano y Cabrera ( na foto: Wikipedia), pediu ao governador:

“Em qualquer lugar que os encontrem, esses miseráveis desgraçados infelizes, sejam presos e trazidos, para que, procedendo em justiça, sejam corrigidos por um tão enorme e escandaloso procedimento”.

Na sua fuga para o Brasil, outro padre avisou a polícia e eles foram detidos.

A caminho de Buenos Aires, num julgamento sumaríssimo, foram condenados à morte e fuzilados na manhã de 18 de agosto no Quartel General de Santos Lugares de Rosas (hoje localidade de San Andrés, General San Martín). Ladislau enviou a Camila este escrito:

“Camila minha: acabo de saber que vais morrer comigo. Já que não pudemos viver unidos na terra, nos uniremos no céu diante de Deus. Abraça-te o teu Gutiérrez”.

Sentados em cadeiras, carregados por quatro homens por meio de duas varas compridas, vendam-lhes os olhos e, acompanhados pela banda de música do batalhão, levam-nos para o pátio interior. Camila chorava. Quando os soldados os estavam amarrando às cadeiras, eles puderam despedir-se, até que Ladislau começou a gritar: “Assassinem-me a mim sem julgamento, mas não a ela, ainda mais nesse estado, miseráveis…!”

As balas silenciaram-nos.

 

Não podemos esquecer!

Sobretudo, quando a lei que permitiu tal crueldade ainda continua em vigor. Este crime é uma consequência extrema de preferir a Lei à liberdade do Evangelho. Foi o mesmo na morte de Jesus: “nós temos uma lei e, segundo essa lei, deve morrer” (Jo 19: 7). Este é um episódio particularmente violento dos muitos que marcam a luta pelo celibato opcional.

É difícil acreditar que haja na Igreja tal apego a uma lei que produziu tantos desmandos durante séculos e ainda continue substancialmente em vigor. Devido a esta lei, continua a haver

  • comunidades sem eucaristia,
  • pessoas vitalmente acabadas,
  • escândalos,
  • filhos desprotegidos,
  • mulheres invisíveis,
  • desterros impostos,
  • vícios “contra naturam” (Concílio Lateranense, III 1179, cânone 11),
  • abusos “com impúberes de qualquer sexo” (Instrução de 9 de junho de 1922),
  • etc. etc.

Aqueles que se opõem a esta lei

  • não negam em absoluto a possibilidade de um celibato evangélico,
  • desde que seja livremente mantido.

O celibato opcional contribui para ganhar vidas entregues ao ministério eclesial, cheias de sentido. E também é verdade que, em parte da Igreja Católica – a oriental – há “sacerdotes casados meritíssimos” (Presbyterorum Ordinis 16), por sua santa gestão do ministério. Poderia havê-los na Igreja católica ocidental, se esta lei, que liga necessariamente ministério e celibato, não existisse. Em meados do século XX, há padres casados nas paróquias católicas ocidentais, provenientes de outras confissões cristãs convertidos ao catolicismo. Escandaliza que isso não seja igual para todos.

O fechamento autoritário continua a manter essa lei, apesar das maciças deserções ministeriais – por causa d do celibato – no catolicismo ocidental.

Os dirigentes máximos da Igreja recusam-se a ver o sinal de Deus em tais abandonos. A Igreja está cada vez mais desamparada em termos de vocações para esses ministérios, mas não se procuram soluções reais.

Não se aceitam ministros ordenados não celibatários nem mulheres cristãs, que, junto com os homens, são “um em Cristo Jesus” (Ga 3:28).

À imensa maioria da Igreja – homens e mulheres casados – é vedado o acesso aos ministérios ordenados. Já chega de perder o senso comum e eclesial!

 

Uma evidência: esta lei não tem origem no Evangelho de Jesus

A lei do celibato teve um primeiro estágio na “lei da continência matrimonial dos clérigos” aprovada pelo papa Sirício (384-399). Baseava-se nas superstições judaicas sobre a impureza do relacionamento matrimonial. A Carta de Santo Sirício ao Bispo de Tarragona sobre esta lei da continência continua a ser tida hoje como “Magistério da Igreja” (cf. H. Denzinger 185). As suas bases errôneas podem ser assim resumidas:

confusão entre o sacerdócio antigo e o ministério de Jesus;

ignorância sobre a natureza – boa – da sexualidade;

interpretação errônea da frase “aqueles que estão na carne não podem agradar a Deus” (Rom 8: 8);

– acreditar que Deus não escuta quem tem relações sexuais com a sua mulher.

Conclusão lógica, tão aberrante quanto as premissas: as relações sexuais conjugais inabilitam para celebrar os sacramentos divinos.

 

Outra evidência: esta lei não é vontade divina nem de “tradição apostólica”

Para arrochar ainda mais a lei – como se dão bem as tiranias com estas argumentações! – pretendem fazer-nos crer que esta norma é vontade divina expressa na vida de Jesus e dos seus apóstolos. Atrevem-se até a atribuir a sua imposição ao Espírito Santo que guia a Igreja. Como se pode honestamente sustentar que a “continência” é uma “tradição apostólica” diante de textos tão claros como estes?:

“Deus criou o homem, homem e mulher, à sua imagem … crescei e multipliaci-vos” (Gênesis 1: 27-28).

“Não é bom que o homem esteja sozinho, vou fazer para ele uma companheira” (Gn. 2:18).

Jesus não exigiu isso dos seus apóstolos, nem o recomendava: “nem todos entendem esta palavra, mas só aqueles  quem foi concedido…” (Mt 19, 11-12).

Os apóstolos seriam casados. De Pedro sabemos, por acaso:

“A sogra de Simão Pedro estava de cama com febre…” (Mc 1:30).

São Paulo diz claramente que “não é lei do Senhor”:

– “Para os solteiros não tenho preceito do Senhor” (1 Cor. 7:25).

Paulo dá um critério, em desuso devido à lei do celibato, para escolher o bispo:

– “que governe bem a sua casa e eduque seus filhos na obediência, mas com dignidade” (1 Tm 3: 4).

Reconhece que é um direito tão vital como o alimento e a bebida:

– “Acaso não temos o direito de comer e beber? Não temos o direito de levar conosco uma mulher cristã, como os outros apóstolos, incluindo os parentes do Senhor e Pedro?” (1Cor 9: 4- 5).

– “Se não podem conter-se, que se casem; é melhor casar do que abrasar-se” (1 Cor 7: 9).

– “Suponhamos que alguém com muita vitalidade pense que está se excedendo com a sua companheira e que a coisa não tem remédio: que faça o que deseja, não há pecado nisso, casem-se. Outro, ao contrário, está firme interiormente e não sente uma compulsão irresistível, tem liberdade para tomar a sua própria decisão e decidiu  respeitar a sua companheira: fará bem. Em suma, quem se casa com a sua companheira faz bem, e aquele que não se casa, melhor ainda”(1 Cor., 7, 36-38).

– “O Espírito diz claramente que nos últimos tempos alguns abandonarão a fé, dando ouvidos a espíritos enganadores e a ensinamentos de demônios, a impostores hipócritas marcados a fogo em sua própria consciência, que proíbem o casamento e o consumo de alimentos que Deus criou…” (1Tm 4: 1-3).

 

A lei impositiva atual é fruto do imperialismo da Igreja. 

Nasceu formalmente no segundo milênio. Fruto do imperialismo papal que surgiu no final do primeiro milênio, uma das épocas mais tristes da Igreja. Gregório VII (+1085), que ousou impor o “Dictatus Papae”, em que se proclamou senhor absoluto da Igreja e do mundo, não teve dúvidas em impor que toda a pessoa que deseja ser ordenada deve fazer antes um voto de celibato: “Os sacerdotes devem antes escapar das garras das suas esposas” (1074).

Pouco depois, em 1095, o Papa Urbano II manda vender as esposas dos sacerdotes como escravas e deixa seus filhos abandonados. No século XII, em 1123, o I Concílio de Latrão, por insistência do Papa Calixto II, decreta que os casamentos clericais não são válidos. Em 1139, o Papa Inocêncio II consegue que o II Concílio de Latrão confirme o decreto do Concílio anterior. Tudo contrário ao espírito evangélico (Mc10, 42 ss e paral.).

 

Quando é que a Igreja Católica vai reconhecer esta liberdade do Espírito Santo?

Muitas confissões cristãs romperam esta lei iníqua. Quando o fará a Igreja Católica?  Peçamos ao Espírito Santo que esta liberdade seja realidade em breve. Também a Igreja “quando se voltar para o Senhor, tirará o véu. Esse Senhor é o Espírito, e onde há Espírito do Senhor, há liberdade” (2 Cor 3, 16-17). Vincular ministério e celibato não é obra do Espírito. É obra da Lei. “Se vos deixais guiar pelo Espírito, não estais debaixo da Lei” (Gl. 5:18).

 

Rufo González PérezRufo González Pérez

Aposentado da Pastoral e do Ensino, escreve sore Espiritualidade. Licenciado em Filosofia, Doctor em Teología por la Universidad Pontificia Comillas (Madrid) com a Tese:  “Presencia del Espíritu Santo en los documentos del Concilio Vaticano II”

http://www.periodistadigital.com/religion/opinion/2017/08/18/169-anos-de-un-martirio-cruento-por-el-celibato-opcional-religion-iglesia-dios-jesus-papa-francisco-fe-asesinato-evangelio-gregorio-vii-urbano-ii.shtml

 

Sobre o mesmo tema:

A lei do celibato clerical

John Shuster (padre católico casado) – john@johnshuster.com

http://www.oraetlabora.com.br/mpc/lei_celibato.htm

 

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