Colômbia, entre os sacerdotes armados que acreditavam na revolução

Hoje, o Papa em Bogotá. Assinado o histórico cessar fogo entre o governo e o Exército de Libertação

Fabio BOZZATO – De Quito -Ecuador -6/09/17
Foto: REUTERS – Tradução: Orlando Almeida

Eram jovens de classe média mas capazes, como ninguém mais , de falar com os camponeses. Estavam apaixonados pela Cuba de Castro, mas alérgicos ao dogmatismo soviético. Eram também padres, frades e freiras, alistados às centenas. O ELN, o Exército de Libertação Nacional, desde 1964 é algo único na América do Sul. Não por acaso é a última guerrilha que ainda resiste. E não por acaso é tão difícil negociar com os seus comandantes, como está fazendo há meses o Estado colombiano em Quito, no Equador.

É de três dias atrás o anúncio tão esperado: a partir de 1 de outubro, começará o cessar fogo bilateral. Pela primeira vez haverá uma verdadeira trégua, embora temporária, de três meses: sem ataques, sequestros e recrutamentos. Nada é casual no país de Macondo. Nem o fato de o acordo acontecer por ocasião da chegada do Papa.

A história do ELN e da Igreja entrelaçam-se tanto que alguém o chamou de “convento armado”. A teologia da libertação foi acolhida aqui como em nenhum outro lugar.
“Na época em que eu fazia parte do comando geral, havia mais de 500 religiosos só na estrutura interna e centenas nas organizações civis” – conta León Valencia Agudelo. Politólogo, presidente da Fundação Paz e Reconciliação, fundador do jornal digital Las2orillas, Valência era um ativista estudantil quando foi convencido a juntar-se ao ELN por um padre, don Ignacio Betancur. Fora de clandestinidade desde 1993, hoje é uma das vozes mais autorizadas da sociedade civil colombiana.

 

Um ano após a assinatura da paz com as FARC, o Papa Francisco chega à Colômbia para canonizar dois religiosos-símbolos. O primeiro é Pedro María Ramírez, um pároco assassinado em 1948, na fase inicial da feroz “violência” entre conservadores e liberais após o assassinato do presidente Jorge Eliecer Gaitán. Foi o batismo de um conflito que dura até hoje.

O segundo a ascender aos altares é Mons. Jesús Emilio Jaramillo, bispo de Arauca: um assassinato cometido em 1989 exatamente por um comando do ELN, o “Domingo Laín”, nome aliás de um sacerdote-guerrilheiro. “Tínhamos entrado num abismo de onde seria difícil sair” – lembra León Valencia.

Os líderes de ELN assumiram a responsabilidade pelo ato e sabiam que era um gesto vil: “Eu não queria acreditar que uma força guerrilheira que tinha nas suas fileiras centenas de sacerdotes, freiras e leigos, vacilasse no momento de condenar ao sacrifício um pastor da Igreja”. A decisão de deixar o ELN, para Valência, começou também a partir dali.

Sacerdote foi também o mais famoso dos “elenos” (os milicianos do ELN), Camilo Torres, nascido em 1929 e morto em combate em 1966. O seu nome ainda é respeitado em todo o país, mesmo pelos inimigos mais acérrimos. Por muitos anos, outro padre, Manuel Pérez, foi o líder militar da guerrilha, financiando-a por meio de sequestros, chantageando as companhias petrolíferas, explodindo oleodutos e plataformas. A sua companheira era freira, Monica.

Dizem que o ELN tem em torno de 2.000 milicianos. Mas a sua força são os ativistas

  • no campo e nas cidades,
  • nos grupos sindicais,
  • nos bairros
  • e nas paróquias.

“Quantos são os elenos? Poderiam ser vinte mil” – diz sorindo Olimpo Cárdenas, que dirige o jornal Periferia, de clara simpatia pelo ELN: “É por isso que em Quito o primeiro ponto é o papel da sociedade civil – diz ele. – Na mesa “mesa social”, a mesa das questões sociais, há porta-vozes de 83 organizações. Poderíamos dizer que em Quito nós estamos na mesa dos negociadores, sem estar lá”.

“Na época em que eu fazia parte do comando geral, havia mais de 500 religiosos só na estrutura interna e centenas nas organizações civis” –  León Valencia, ex-guerrilhjeiro das Farc

 

Altos e baixos no ELN sempre estiveram juntos. “Camilo Torres era um sacerdote da elite deste país” – diz León Valencia. A sua marca religiosa continua a pesar sobre esta guerrilha”.

Também Leonor Esguerra Rojas estava destinada a uma vida muito confortável, mas em 1949 preferiu juntar-se às Irmãs do Sagrado Coração em Nova York. Durante décadas, dirigiu os prestigiosos colégios Marymount reservados às garotas ‘bem’ de Bogotá e Medellín. Aproximou-se do ELN na onda do Concílio e dos protestos de 1968. Em sua autobiografia, “La búsqueda” [A busca], a agora idosa e há muito tempo fora da guerrilha, conta a sua história.

A madre Maria del Consuelo tornou-se a companheira Socorro, a diretora irrepreensível, uma ativista armada e amante de Fabio Vásquez, o comandante do ELN depois expulso e fugido para Cuba.

Bergoglio conhece todas as nuances da idiossincrasia latino-americana. E não ficará surpreso. Certamente, a sua visita à pátria do “convento do armado” não será fria como a de Paulo VI, que em 1968 deixou em Bogotá “um certo gosto amargo”, como lembra Leonor Esguerra, então freira e depois guerrilheira.

 

Fabio Bozzato

FABIO BOZZATO

Foto: http://www.lastampa.it/2017/09/06/esteri/colombia-tra-i-sacerdoti-col-fucile-che-credevano-nella-rivoluzione-UQ7O2uNQFh2qOwEZm8f1hL/pagina.html

 

 

 

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