Terrorismo: O que faz alguém querer (tanto) lutar e morrer?

Cientistas estiveram no Iraque com opositores do Daesh

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Foto: Cientistas estiveram no Iraque com opositores do Daesh Goran Tomasevtc/Reuters

Os cientistas foram, literalmente, para a “linha da frente” de combate entre as forças do Daesh e os seus opositores. Numa zona de batalha perto de Mossul, questionaram representantes de vários grupos de combatentes para perceber o que pensam e sentem, mas, sobretudo, o que os move.

Os cientistas foram para o perigoso terreno de luta armada perto de Mossul,no Norte do Iraque, mergulhando num mundo de actores devotos. Olhos nos olhos com estes homens, foi preciso – antes de qualquer tentativa de recolha de informação – conquistar a sua confiança. E só depois, avançar, com cuidado, com as perguntas e exercícios. Enquanto isso, liam e absorviam tudo o que se passava à volta.

No artigo, os investigadores reconhecem que “estudar combatentes da linha de frente é um desafio”. Num comentário publicado também na Nature Human Behaviour sobre o trabalho, o especialista John G. Horgan, do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual da Georgia (em Atlanta, nos EUA), corrige os autores:

“Dizer que estudar combatentes da linha de frente é um desafio é pouco. O que torna este estudo ainda mais notável é o facto de

  • juntar investigações etnográficas, experimentais e baseadas em entrevistas,
  • e interpretar estes dados num quadro teórico rico e interdisciplinar.

Fazer isso em circunstâncias normais seria louvável. Fazer essa investigação com combatentes da linha de frente perto do território controlado pelo Estado islâmico [Daesh] é impressionante.”

Do que viram e ouviram no Iraque e das respostas que conseguiram com questionários online a “não combatentes” realizados em Espanha, os cientistas concluíram que a vontade de lutar dos combatentes neste terreno de luta tem raízes comuns.

Estes homens

  • estão dispostos a lutar e morrer por causa de um compromisso com valores sagrados não negociáveis,
  • revelam uma prontidão para renunciar aos mais próximos por esses valores e em nome do grupo a que pertencem
  • e exibem ainda uma percepção da força espiritual do seu grupo que, acreditam, é muito maior do que a do seu inimigo.

O investigador norte-americano Scott Atran não é um novato nestas andanças e já tinha publicado outros artigos sobre o “espírito de combate” dos actores devotos, defendendo que estas pessoas estão dispostas a sacríficos exigentes e acções extremas quando se encontram motivadas para proteger valores sagrados e não negociáveis (que recusam trocar por qualquer compensação financeira ou material).

Desta vez, com a colaboração da investigadora Lucia López Rodriguez, da Universidade de Almeria (Espanha), Scott Atran refinou a investigação e identificou outros traços do perfil destes homens.

 

Neste artigo, o cientista apresenta uma variedade de fontes de informação,

  • desde o estudo etnográfico, entrevistas e testes realizados com elementos de grupos que combatem as forças do Daesh,
  • a informações recolhidas a partir de alguns (os autores não especificam quantos) testemunhos de terroristas do Daesh capturados
  • até 14 estudos com questionários online feitos a mais de 6000 participantes em Espanha.

No centro das atenções está a amostra de 56 homens que fazem parte de três grupos de forças que combatem os jihadistas:

  • os peshmerga (combatentes curdos),
  • os curdos que combatem ao lado do exército iraquiano
  • e as milícias árabes sunitas.

O trabalho de campo foi feito no Norte do Iraque em dois períodos distintos:

  • entre Fevereiro e Março de 2015
  • e nos mesmos meses do ano seguinte.

Na primeira visita, os investigadores estiveram com elementos capturados do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK, na sigla em inglês).

A formidável força

Além da protecção de valores sagrados (que podem ser religiosos ou seculares, como por exemplo a democracia), os investigadores destacam a importância que estes grupos de combatentes dão à força espiritual do grupo, algo que sobrepõem à força física. Esclarecem ainda que esta dimensão da força espiritual

  • não é apenas fervor religioso
  • mas algo mais abrangente e abstracto do que isso.

“É uma força que, referem, vem do coração”, diz Lucia López Rodriguez.

Nos exercícios feitos por combatentes e nos questionários a pessoas que residem em Espanha ficou claro que uma relativa força espiritual de um grupo, comparada com uma relativa força física, está mais relacionada com a capacidade e vontade de sacrifício numa batalha. Ou seja, é a força espiritual que serve de melhor indicador para a vontade de lutar e morrer.

PÚBLICO -

Foto: O investigador Scott Atran numa das suas viagens ao Médio Oriente DR

Os participantes na linha da frente associaram

  • à capacidade física questões como o tamanho do exército ou as suas armas
  • e ao lado espiritual a convicção interior, ligada aos valores sagrados.

No que se refere à percepção destas duas forças, os autores notam que de uma forma geral

  • as forças terroristas são vistas como tendo uma maior força espiritual e menos força física
  • e aos EUA (ou mesmo a Espanha, segundo os dados dos inquéritos) é atribuído o resultado inverso, ou seja, mais força física e menos espiritual.

Num exercício feito por um combatente curdo, foi pedido que, num tablet, moldasse o tamanho de um homem como se ele se tratasse dos Estados Unidos e do Estado Islâmico de acordo com a sua força física e espiritual. O jogo teve o resultado previsível:

  • O “homem” físico dos EUA era robusto, idêntico ao “homem” espiritual do Daesh.
  • Por outro lado, o homem espiritual dos EUA era médio e o homem físico do Daesh era o mais pequeno deste grupo.

Para quê saber?

Na conferência de imprensa organizada pela revista Nature, Scott Atran lembrou que o “tiro” de partida para esta investigação – tal como, aliás, escreve nas primeiras linhas do artigo científico – foi da responsabilidade de Barack Obama.

Clarificamos: em Setembro de 2014 o (então) Presidente dos EUA concluiu que

  • as forças terroristas tinham sido subestimadas
  • e a capacidade de luta do exército iraquiano tinha sido sobrevalorizada.

“Tudo se resume a prever a vontade de lutar, que é imponderável”, disse. O mesmo, lembrou, aconteceu na guerra do Vietname.

A equipa de investigadores tentou avaliar esse indicador decisivo. Tentou perceber de onde vem esta vontade de lutar, o que motiva estes homens que se unem e muitas vezes se revoltam contra grupos mais fortes do que eles. No entanto, tal como admite John Horgan no comentário que fez sobre o artigo, muitos de nós podem questionar:

  • para quê?
  • Por que nos devemos sequer importar em percebê-los?

Constata que, além dos comentários políticos e sociais sobre o terrorismo, sabe-se muito pouco sobre estes “soldados”.

Por várias razões, argumenta.

  • Porque é difícil ter acesso a estas pessoas (e mesmo apenas a dados sobre elas)
  • ou porque as circunstâncias em que estão envolvidas acabam por condicionar uma investigação balizada por critérios científicos.

Depois, acrescenta o especialista norte-americano que assina o comentário, há a hipocrisia.

“Os estudos sobre os ‘nossos soldados’ podem explorar noções de

  • ‘espírito de luta’,
  • nobreza,
  • coragem
  • e auto-sacrifício,

enquanto os estudos sobre os ‘terroristas deles’ geralmente

  • caem num padrão com explicações individuais,
  • baseadas em traços de personalidade,
  • se não em qualidades explicitamente negativas.”

Por essas e outras razões, investigar o terrorismo é tão difícil e só poucos os conseguem fazer de forma séria, conclui. Daí, também, argumenta John Horgan, o mérito do trabalho apresentado agora.

 Saber mais é importante, ponto assente.
  • Mas, o que fazer depois com o que sabemos?
  • Pode servir para alguma coisa?

Os autores do trabalho acreditam que sim, argumentando, por exemplo, que a identificação dos elementos-chave que motivam estes homens e os fazem lutar e morrer por valores sagrados deve ser uma peça importante na concepção de estratégias de defesa.

“Quando percebemos o que faz estas pessoas lutar e morrer, podemos prever o que estão dispostos a sacrificar”, sublinhou Scott Atran, durante a conferência de imprensa.

Até recentemente, nomeadamente em muitos estudos feitos depois da Segunda Guerra Mundial, a vontade de lutar era de uma forma geral “medida” pela reciprocidade com os pares e a vontade de proteger os companheiros. “Até este estudo não houve nenhum outro que, baseado no que se passa na linha da frente, se debruçasse sobre a vontade de lutar por valores”, diz Scott Atran. “No caso do Estado Islâmico, a partir do momento em que alguém se fecha num conjunto de valores sagrados, é quase impossível tirá-los daí. Aí, estão dispostos a lutar até morrer”, adianta.

Porém, para alguns o espírito de sacrifício parece ser imposto. Entre outras conversas na linha da frente, os investigadores ouviram um homem a falar com um walkie-talkie com outro.

“Ele estava a dizer que o irmão tinha morrido e que queria sair dali. Ouvimos uma voz a dizer em árabe: ‘Devias estar feliz porque estás prestes a ir para o paraíso.’ E o jovem habitante local disse: ‘Mas eu não quero ir para o paraíso, quero sair daqui.’ O comandante do ISIS respondeu: ‘Bem, mas vais de qualquer maneira.’”

Há diferenças entre os combatentes e os líderes do Daesh, admite Scott Atran. Mas a maioria, conclui, está disposta a lutar. Até ao fim

 

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Andrea Cunha Freitas 

Fonte: https://www.publico.pt/2017/09/05/ciencia/noticia/terrorismo-o-que-faz-alguem-querer-tanto-lutar-e-morrer-1784339

 

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