Um dia como voluntário entre os doentes de Madre Teresa

Carlo Pizzati ,02/09/2017 – Calcutá  Foto:  Reuters 
Tradução: Orlando Almeida 

Em Calcutá, entre as irmãs que prestam assistência aos últimos, a sua lembrança ainda está viva. Ajudar os que sofrem é uma cura para a lepra ocidental: a solidão

O voluntário chega ao beco onde aparece a inscrição “Mother House” [Casa Mãe]. No muro do outro lado da rua está pintada uma foice e um martelo. Uma freira de sari branco com listras azuis espalha pó de cor mostarda sobre a pele de um cachorro coxo. Entrando, o voluntário é recebido pelo sorriso doce de outras duas freiras. No primeiro pátio, pequeno, uma estátua cinza da santa estende uma mão com a palma voltada para baixo para permitir que os peregrinos, baixando a cabeça, recebam a benção da escultura.

Passando para um pátio maior que se abre para quatro andares de pequenas celas e salas, à esquerda, uma curta escadaria leva à cela da Madre Teresa (um pequeno leito, banco, mesa) e à direita chega-se finalmente ao túmulo. Ali é um esvoaçar de saris brancos e de fiéis que cantam e rezam participando da missa celebrada por um jovem padre.

Os fiéis andam em sentido horário, deixam pedidos de milagres, apoiam a testa na pedra. No centro da laje de mármore acinzentado destaca-se um coração de pétalas de rosas vermelhas. Uma mulher pega uma e come-a, como se fosse uma hóstia consagrada. Através do toque da estátua e do sabor adocicado da pétala procura-se o contato sensorial com Santa Teresa, cujo nome original em albanês significa exatamente Rosellina [rosinha].

 

A acolhida

O voluntário pergunta se pode visitar um dos centros onde ficam moribundos, leprosos, doentes e aflitos. Quem recebe os visitantes que desejam saber mais é a irmã Blessiella, o modelo da freira severa: “Mas há muito pouco tempo! Amanhã? Deveria ter feito o pedido por escrito. Vê-se que você não entende nada do que fazemos aqui. De qualquer forma, tudo bem, esteja  presente na missa das seis amanhã cedo e veremos”. Peço desculpas – diz o voluntário, lembrando uma famosa frase da Santa: “O sofrimento é um presente de Deus”.

Amanhece. Ruas desertas. No primeiro andar, 100 freiras e 60 voluntários rezam ajoelhados. As noviças admiram, extasiadas, um padre espanhol barbudo e fixam o olhar, atrás dele, num Cristo que realmente se parece muito com ele. A Madre Superiora tem mais de 70 anos, mas continua de joelhos, pálida e impassível, ao lado de uma irmã que se meneia ao teclado do pequeno órgão, arrebatada por uma canção angélica a duas vozes que desafia os ruídos das algazarras, dos caminhões, dos latidos, dos gritos e das buzinas que entram pelas janelas abertas.

 

 

A oração

Está aqui uma comitiva de 45 fiéis de Madri pronta para o último dos 18 dias de voluntariado. Mulheres com trança, t-shirts e calças estampadas tipo «Venho de uma hora de ioga». Homens com bermudões e rabo de cavalo. Depois de uma hora de ave-marias, mea-culpas, aleluias e pai-nossos, uma freira adormece no banco com o breviário na mão.

Está quente. É Calcutá. É verão. O voluntário quase se arrepende. Pensa no ar condicionado. Mas é tarde demais. Café da manhã com torradas, bananas e chá com leite e saímos a pé por 40 minutos de suor através do ‘slum’ [favela], desviando de riquexós, jipes da polícia, trens, bosta de vaca, vacas, homens que se ensaboam nos chuveiros coletivos, crianças que zombam dos estrangeiros, currais a céu aberto, montanhas lixo em todos os lugares, multidões descendo do trem enquanto uma mulher canta melancólica dentro da plataforma.

Tudo parece muito bem ensaiado. Mas o voluntário sabe que é preciso ter paciência. A cidade da alegria1 alguma alegria dará. Chega-se aos portões azuis de Prem Dan, casa para moribundos e doentes, como havia dito a freira americana na hora da inscrição. Mutilados com a gaze suja de iodo, doentes e deficientes sentados sob um telhado ondulado a tomar ar. Os mais graves, no salão. Um homem com uma malformação no estômago do tamanho de um recém-nascido, pernas e braços esqueléticos, deitado na sua cama de campanha. Outro, só ossos, está prostrado, não quer levantar-se. Uma ambulância leva embora um morto.

É preciso subir ao terraço que serve de teto. O voluntário põe o avental e, durante duas horas, com um lenço na cabeça à maneira de Mauro Corona, começa a torcer roupas, shorts, camisas, toalhas, lençóis, e a estendê-los ao sol escaldante. Três rapazes espanhóis estão de veia mística.

“Para mim o homem é fundamentalmente bom, depois é pervertido”– diz Francisco, um papa-boy [admirador do papa] catalão com uma pulseira com a advertência :“Diga não à nova droga” (é a pornografia, explica). Lucas, o andaluz, é cético: “Não acredito num ser superior. Acredito que há seres iluminados como Madre Teresa ou Vincent Ferrer, que mudaram algumas coisas no mundo. Mas não acredito no Deus cristão ou no paraíso. Mas se há um inferno, certamente tem uma sala VIP para os catalães” – diz dando uma palmada em Francisco.

 

O trabalho

Já aqui se começa a perceber o início daquela euforia e energia que vai crescendo, embora cercada de sofrimento e morte. Ou talvez seja por isso mesmo. Quanto mais desagradáveis e humildes são os trabalhos, mais forte é a energia que a sua execução parece infundir no voluntário. E a sensação de união, de uma cura para o que a Madre Teresa chamou de lepra do Ocidente: a solidão.

Assim Alfonso, um basco corpulento e tagarela, fica andando no meio dos doentes oferecendo-se para cortar as unhas dos pés e das mãos.

Andrés, o hippie argentino, parece contente em esvaziar os penicos cheios de urina, depois de arrumar as camas de metade do dormitório entre pacientes em diálise, alguns sem um olho, outros com membros malformados, mas todos com sorrisos luminosos.

É hora de lavar pratos e copos.

Rocio, Maria e Cristina, três irmãs de Madri, dizem que no setor feminino fazem-se mais ou menos as mesmas coisas.

“Mas, além de cortar as unhas, também passamos o esmalte”– diz rindo Maria. Pilar retorna amanhã a Madrid para o seu trabalho como secretária de um notário.

“É uma experiência que muda” – admite ela – “nos três primeiros dias: choque total. Pensei que não conseguiria. Calor, barulho, mau-cheiro, cães, corvos, sujeira, alimentação. Trauma. Mas depois acostumei-me. Agora estou feliz por voltar. Não é como depois das férias na praia, quando o fim das férias é uma tristeza … “.

Volon-turismo? Sim, um pouco. A sensação de que alguns passem duas ou três semanas com Madre Teresa não por vocação, mas pela experiência, para poder dizer que o fizeram, existe.

 

Volon-turismo

Andy é um estudante alemão, alto, magro, com um sorriso simpático:

“Próxima parada, Varanasi e Mumbai. De trem. Vim para fazer uma experiência. Não sou muito religioso. Certo, dou os meus 8 por mil2 para a Igreja, mas vim para entender. Ver pessoas que dormem a céu aberto, ou aqui entre os doentes, é chocante. Mas ninguém é beneficiado pelo fato de te emocionares com a tua empatia. Aqui faz-se alguma de concreto. E vai ser útil para mim quando eu pensar que as coisas não estão indo bem para mim, na Alemanha, e quando eu ficar com raiva porque não há wi-fi ou não se acha um  Starbucks. Então me lembrarei de ter raspado a barba de um doente com febre em Calcutá.”

Keith, um ex-legionário neozelandês, ocupa-se principalmente em levar bandejas de chá quente aos doentes, enquanto Lucas, enxaguando os copos de alumínio, admite: “Depois de três semanas, que chatice! É sempre a mesma coisa!”

O argentino grita contra um grupo de voluntários que empunham os smartphones: “Ei,  vocês acham que este é o lugar para fazer selfies!”

A irmã Sabina aproxima-se. Em 1961, aos 18 anos, fez os votos em Kerala. Madre Teresa veio pessoalmente recebê-la e à sua irmã, na estação.

“Tinha na mão a nossa carta, disse-nos para irmos com ela. Nós a seguimos. Foi uma viagem cansativa, nunca tínhamos andado de trem. Depois a nossa vida mudou. A minha irmã foi para a Sibéria. Agora está no México. Tem 80 anos. Viajei por toda a Índia com as irmãs missionárias. De vez em quando volto ao Kerala para ver a minha família, mas agora esta é a minha família. Como era a Madre? A mãe é a mãe. É tudo. Era a mãe que me punha na boca os remédios quando eu tinha febre. Assim era a madre. Toda coração. Toda amor”.

Continua-se até ao pôr do sol. Lepra, doentes terminais. Dor, mas força. À noite, volta-se para a Casa Mãe. “O que se vive aqui externamente – conclui Pilar, católica praticante – eu o experimento dentro de mim durante a oração”. O dia é longo, mas ao final, mesmo não sendo crente, o voluntário percebe com surpresa que  não se sente cansado, mas que ao invés tem mais energia do que às 6 da manhã. Esse voluntário sou eu.

 

Notas:

1 “Cidade da alegria” – nome de uma favela (slum, bidonville)da cidade de Calcutá, tema de um romance e de um filme do mesmo nome.

2 O oito por mil (geralmente abreviado como 8xmil) é a parcela do imposto de renda que o Estado italiano distribui entre si e as confissões religiosas que celebraram um acordo com ele. Foi introduzido pelo art. 47 da Lei n. ° 222, de 20 de maio de 1985 [1], que implementa o Acordo Villa Madama de 1984 entre a República Italiana e a Santa Sé, como representante da Igreja Católica. (fonte: Wiki)

 

Resultado de imagem para CARLO PIZZATI - La Stampa
 CARLO PIZZATI

http://www.lastampa.it/2017/09/02/esteri/una-giornata-da-volontario-fra-i-malati-di-madre-teresa-mzsIg5U1UTW1ng7Ir97JLM/pagina.html

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>