“Há um imenso potencial de Igreja na ‘periferia’ dos ex”

“A Igreja oficial tem marginalizado os ex, fazendo-lhes sentir o seu ‘fracasso”

Xabier Pikaza (teólogo)17/08/17  

Imagem: O celibato, por José Luis Cortés

“Com eles, a Igreja não foi inteligente nem  cristã, foi seita mais do que  Igreja” – Neste momento (ano 2017) a Igreja no seu conjunto, deve enfrentar este tema com inteligência e com valentia cristã, com humildade (pelo pecado dela) e com generosidade (pelo Evangelho…)”

Tradução: Orlando Almeida

O artigo

Hoje quero falar de uma periferia muito concreta: a que formam  (formamos) os “secularizados” uma determinada  Igreja Clerical. Existe uma igreja clerical de tipo hierárquico,  quer dizer, de Clero separado e mais alto, formado pelo centro e pela cúspide  da grande pirâmide dos que possuem as “ordens sagradas” de vários tipos,

  • bispos e sacerdotes,
  • religiosos e religiosas ,

que têm um status  e uma autoridade  superiores no conjunto oficial da Igreja.

Essa igreja não é em si mesma uma seita, mas correu o risco de se tornar uma grande seita, alguém diria que é a mãe de todas as seitas do ocidente,

  • pelo seu classismo,
  • pela sua visão hierárquica,
  • e sobretudo pela forma de tratar os “expulsos”,  saídos da sua hierarquia (os ex)

Sacerdotes secularizados  Celibato  Curas y el celibato

 

A Igreja quis ser o centro (começando pelo oval de Bernini ), mas sempre existiram os que estão fora desse centro, os que não fazem parte da ordem superior, os que não têm hierarquia, os leigos (do simples laos, que é povo: os que são povo-povo), com os seculares  (que fazem parte do saeculum /século, ou seja, do baixo mundo). Certamente Jesus andou  com esse tipo de gente (doentes, pobres, impuros, marginalizados, gente de vida duvidosa).

Pois bem, neste momento, no início do século XXI, há uma espécie de cristãos

  • que não são simplesmente  seculares , mas “secularizados” (secularizadas),
  • que deixaram por diversas razões  as “ordens” sagradas,
  • deixaram de ser padres ou freiras, tornaram-se  (ou os tornaram) “secularizados”.

Estes não são simplesmente leigos, mas “laicizados”, um tipo de pessoas que foram mal vistas na Igreja, como caras que não “resistiram”… ou até mesmo “apostataram”.

Em princípio, essas pessoas são (somos) simplesmente o que são (somos): seres humanos, ou seja, leigos (do grande povo), seculares (do século, ou seja, deste mundo). Pessoas que, de repente, tendo sido da “hierarquia” (ou seja, de cima)

  • se encontram na pura rua
  • e aprendem coisas que não sabiam antes,
  • e vivem experiências que antes não viviam.

Entre a multidão de secularizados (dezenas de bispos, muitos milhares de padres, frades e freiras…) há pessoas de todos os tipos, como na botica (como se dizia antigamente)…

  • há cansados e tristes,
  • há revoltados e  ressentidos,
  • há os simplesmente adaptados …
  • mas há outros  que são o centro da nova igreja.

 

Celibato

 

Desses ex, de periferia, tratam os capítulos finais do livro de Riccardi, e ele apresenta-os como o que são: como princípio de uma nova igreja, como o foi Jesus, o que mudou pelo menos três vezes de projeto (deixou João, com o qual tinha “professado”, deixou a  Galiléia onde se tinha  estabelecido …) por fidelidade à palavra de Deus e ao seu chamado do Reino. 

Certamente há mudanças ruins, por frivolidade, por ressentimento … Mas há sobretudo, como diz  A. Riccardi  neste livro das Periferias, mudanças que são boas e necessárias. Pois bem, entre os “mudados” da Igreja, os “ex” do clero destacam-se  dois tipos de pessoas:

Os que sofrem rejeição dos que continuam no clero (da hierarquia)... e a sua própria situação  de ruptura… Eles formam uma periferia dura da Igreja que, em geral, não foi e não está sendo reconhecida,  como se fora um material de demolição …

Mas há outros que querem criar Igreja de um modo diferente, que sabem ser ex … para ser in, de uma maneira nova, no centro da grande Igreja, do outro lado da grande barreira, a  partir da sua nova situação.

Entre esses ex que são in, há, neste momento, segundo A. Riccardi , milhares e milhares de homens e mulheres de fé e de vida cristã,

  • que não são se definem pelo seu “ex” (o que foram: ex-padres, ex-freiras…)
  • mas pelo que é chamado “in”,
  • pelo que são e fazem,
  • e pelo que querem fazer na igreja.

Estes ex não são pessoas que deixaram o arado ou que olharam para trás, mas pessoas que viram que

  • havia outro arado e outra terra para semear,
  • havia outros caminhos de evangelho e de vida.

Entre eles estão alguns dos que hoje mais podem contribuir  para a igreja de Jesus, como diz Riccardi (e não simplesmente  para a Igreja Estabelecida, que também tem muito que  fazer, muito que dar).

 

Lamento e proposta de Riccardi

Nesse contexto dos “secularizados” do século XX, Riccardi lembra especialmente os “padres operários” da França nos anos 40 e 50 do século passado, que quiseram viver a vida cristã a partir da periferia do grande mundo burguês da igreja estabelecida. A situação era dura, o caminho difícil … mas quiseram encontrar uma resposta, um caminho diferente … e fecharam -lhes as portas.

Grande parte dos padres operários (e das religiosas  do seu entorno) secularizaram-se  (no sentido menos  ordinário do termo) porque não encontraram um lugar cristão num tipo de Igreja dominante. Os “hierarcas”

  • não reconheceram o seu caminho,
  • não exploraram com eles as novas possibilidades eclesiais,
  • e eles deixaram um tipo de igreja estabelecida.

Foi um fracasso, em parte deles, em parte da igreja estabelecida, foi uma oportunidade perdida.

 

Neste contexto A. Riccardi também recorda o caso de numerosos ministros e monges da Igreja Russa, que se secularizaram  procurando o evangelho  a partir do outro lado da Igreja. Eles ofereceram e oferecem uma visão nova do evangelho e da tarefa da Igreja…

Mas acima de tudo, quero insistir no fato de que há muitíssimos “sacerdotes” (padres e freiras) da Igreja Católica que se secularizaram (que deixaram a hierarquia) basicamente

  • por fidelidade  à sua própria vocação cristã
  • e à sua tarefa básica  na Igreja (entre os quais  Riccardi cita em especial G. Sandri).

Nem todos os casos são iguais, mas há muitos que seguiram este padrão:

– Num dado momento, alguns padres e freiras,

  • por evolução vital,
  • por  fidelidade à sua própria vocação humana e cristã,
  • viram que o seu lugar na igreja não era o clero nem o convento, e “saíram”,

mas não para “deixar” (não deixaram …), mas para entrar em outro contexto eclesial e tomar outros caminhos  e responsabilidades afetivas,  familiares, humanas …

O conjunto, a Igreja oficial, respondeu sociologicamente como respondem as “classes privilegiadas” (ou um tipo de seitas):

  • marginalizaram os  ex,
  • deixando-lhe um lugar, mas quase como “penitentes”,
  • fazendo-os sentir o seu “fracasso”.

Esta atitude de grande parte da Igreja

  • não foi inteligente ou cristã,
  • foi mais de seita do que de Igreja,
  • foi de um grupo de poder mais do que de evangelho.

    Foto: Francisco, com o Primaz Anglicano e sua esposa

     

– Neste momento (2017) a Igreja em conjunto deve enfrentar esta  questão

  • com inteligência e valentia cristã,
  • com humildade (pelo seu pecado)
  • e com generosidade (pelo evangelho ….).

Há um imenso potencial da Igreja que está na “periferia” dos  ex

 

O cardeal de Cusa dizia que a periferia de Deus é o seu próprio coração (“um círculo de cuja circunferência é o centro …).

Nessa linha, o Papa Francisco continua dizendo que  a verdadeira hierarquia da Igreja são

  • os coxos-mancos-cegos,
  • os marginalizados  da história,
  • os famintos e  estrangeiros,
  • os enfermos e os presos

(mas isso já o tinha dito Jesus, segundo Mateus 25, 31-46; o papa é apenas uma bom copista).

Avançando nesta mesma linha, retomando o evangelho  e o projeto do papa  Francisco;  é onde quer situar-se este livro, que foi uma das minhas melhores leituras de verão:  A. Riccardi, Periferias. Crise e novidades para a Igreja (San Pablo, Madrid, 2017).

Deus não está no centro, mas na margem da grande cidade grande vencedora, com os vencidos, os expulsos, os marginalizados … Com eles esteve Jesus, com eles (somente com eles pode começar a nossa história de evangelho).

Certamente, A. Riccardi não é periferia … Ele talvez seja o “secular” mais conhecido da Igreja da Itália e da Igreja Universal:

  • Pai de Família,
  • Professor de Universidade  (Roma III),
  • Ministro do Governo na Itália….
  • e, sobretudo fundador da Comunidade de Santo Egídio, do Trastevere Romano, do outro lado da Grande Cidade.

Santo Egídio é uma comunidade de tipo orante e comprometido com a justiça, num bairro de Roma, que é símbolo de todos os bairros e periferias do mundo (hoje em grande parte para os turistas). Quem quiser saber alguma coisa da vida e obra de Riccardi

  • olhe no Google e leia A. Riccardi  ou  Comunidade de Santo Egídio ...
  • ou … ou mais em particular notas de apresentação deste livro

que foi lançado em Madrid nesta primavera com toda a abundância de imprensa e bispos.

 

 

Xabier Pikaza

teólogo

http://www.periodistadigital.com/religion/opinion/2017/08/17/xabier-pikaza-iglesia-religion-dios-jesus-papa-obispo-sacerdotes-celibato.shtml

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