Romero, o bispo mártir que escolheu o Evangelho e o povo

IACOPO SCARAMUZZI – 15/08/17

Cem anos atrás nascia o bispo de El Salvador que seria assassinado enquanto celebrava missa, pelos “esquadrões da morte”.

Beatificado por Francisco, agora está perto da santidade

Foto: Fiéis em peregrinação pelos 100 anos de nascimento do beato Romero

Tradução: Orlando Almeida

É bem possível que Oscar Arnulfo Romero, que nasceu cem anos atrás, em 15 de agosto de 1917, assassinado no altar em 24 março de 1980, beatificado só em 2015 por vontade do Papa Francisco, seja canonizado no futuro. Certamente ele foi “difamado, caluniado, enlameado” após a morte, como denunciou o próprio Pontífice latino-americano, tanto que o seu martírio “continuou” também “por parte dos seus irmãos no sacerdócio e no episcopado”, com “a pedra mais dura que existe: a palavra”.

A figura de Romero marcou os dramas de uma época e de um continente, a sua memória tem sido muitas vezes controversa. Quando, em 1977, Paulo VI o nomeou arcebispo de San Salvador, ele era conhecido como um “conservador”, bem aceito pelas oligarquias que estavam no poder no país.

Com o passar do tempo, Romero começou a denunciar publicamente os abusos do regime, sem entretanto  omitir as violências dos guerrilheiros que se opunham ao regime. O arcebispo estava convencido de que a guerra civil em El Salvador tinha origem nas de injustiças sociais, e por isso apontou o dedo contra a junta militar no poder.

Chegou a ler durante o sermão de domingo na catedral os nomes das pessoas torturadas, assassinadas ou desaparecidas durante a semana. A sua era uma espécie de conversão, seguindo o Evangelho e servindo o povo de Deus, na qual provavelmente pesou o assassinato, em 1977, pelos esquadrões da morte ligados aos latifundiários, também católicos, do padre Rutilio Grande Garcia, jesuíta, indómito em denunciar a exploração dos pobres (também para ele foi aberto o processo de beatificação).

“Agora – escreveu ele em 1979 à sobrinha do jesuíta – estão tentando macular a imagem e a memória de pessoas como o padre Rutilio, e fazer os outros acreditar que nós erramos caminho e evangelho. Fique atenta, porque eles são muito astutos. Reze muito ao Espírito Santo para que ajude você a compreender a audácia que o Evangelho exige”.

A conversão do arcebispo perturbou o establishment salvadorenho e não poucos cartolas da Cúria Romana de João Paulo II.

No domingo, 23 de março de 1980, monsenhor Romero dirigiu-se ao exército: “Peço-vos, imploro-vos, ordeno-vos: em nome de Deus, cesse a repressão”.

No dia seguinte, um assassino contratado atirou no arcebispo enquanto ele celebrava missa na capela do hospital da Divina Providência. Não ficara calado.

“A Igreja – escrevera anos antes – não pode ficar calada quando há milhares de irmãos nossos que sofrem as consequências da injustiça em que vive a nossa América Latina, não pode ficar calada diante da dor e das constantes violações de que são objeto os nossos irmãos camponeses e o povo em geral”.

A causa de beatificação de Romero foi aberta em 1997, mas somente com a chegada do Papa Francisco é que foi desbloqueada. O Prêmio Nobel da Paz Adolfo Perez Esquivel, argentino, que visitou o Papa poucos dias após a eleição no conclave de 2013, preanunciou-a de imediato. E com decreto de 03 de fevereiro de 2015, Jorge Mario Bergoglio reconheceu o martírio em odium fidei do arcebispo. No dia 23 do mês de maio seguinte celebrou-se em San Salvador a beatificação solene.

Um resultado que estava longe de ser previsível.

O martírio de Romero não foi pontual, não aconteceu só no momento da morte, foi um martírio-testemunho, foi sofrimento anterior, perseguição antes da sua morte. Mas também foi posterior” – denunciou o Papa Francisco após a beatificação. Romero,

“depois de morto – eu era um jovem padre e fui testemunha disso – foi difamado, caluniado, enlameado. O seu martírio continuou também por parte dos seus irmãos no sacerdócio e no episcopado. Não falo por ouvir dizer. Eu escutei essas coisas” – disse o papa. “É bom vê-lo assim: um homem que continuou a ser um mártir. Agora creio que quase ninguém ouse… mas depois de dar a sua vida, ele continuou a dá-la deixando-se ferir por todas aquelas incompreensões e calúnias. Isto me dá a força, só Deus sabe. Só Deus sabe a história das pessoas, e quantas vezes as pessoas que já deram a sua vida continuam a ser lapidadas com a pedra mais dura que existe no mundo: a língua”.

Como pôde constatar o postulador da causa de beatificação, monsenhor Vincenzo Paglia, durante anos tinham chegado “quilos de papeis” contra Romero, umas vezes, de boa-fé, outras vezes, com “má consciência”:

“Escreviam

  • que fazia política,
  • que era seguidor da teologia da libertação.
  • Acusaram-no de problemas de caráter, de desequilíbrios.

Todas coisas que, obviamente, frearam [o processo] e fortaleceram os inimigos”, tanto dentro do país entre o episcopado como no Vaticano.

 

Imagem relacionada

Resultado de imagem para Gregorio Rosa Chavez

É conhecida a hostilidade do cardeal colombiano Alfonso Lopez Trujillo  (foto à esquerda) contra a causa de beatificação de Romero. “A decisão sobre Romero faz silenciar os motivos que impediram um procedimento  mais linear” –  concluiu Paglia.

Agora em El Salvador comemora-se o centenário do nascimento do arcebispo mártir com a primeira peregrinação em sua honra. A ocasião é celebrada com três dias de cerimônias e orações que se encerram hoje.

Quem as promoveu, mais que todos, foi Gregorio Rosa Chavez, (foto acima, à direita)  estreito colaborador de Romero, bispo auxiliar de San Salvador que recebeu – “ultrapassando”, hierarquicamente, o arcebispo titular da cidade, sucessor de Romero, José Luis Escobar Alas – do Papa Bergoglio o chapéu de cardeal, no último consistório de 28 de junho passado. No futuro Romero poderia ser proclamado santo.

O arcebispo Paglia disse nestes dias à Rádio Vaticano:

“Estamos bem adiantados. Estamos examinando um milagre que diz respeito a uma mulher grávida e ao seu filho que foram, assim esperamos, milagrosamente curados por intercessão de Romero. Foi concluído o processo diocesano, que chegou a Roma e começamos o exame do milagre. Espero que o processo seja concluído em breve. Se tudo isso acontecer, é possível que no próximo ano se possa esperar celebrar a canonização de Romero”.

Certamente, a figura de Romero ainda perturba alguns espíritos. A sua mensagem foi radicalmente evangélica.

“Às vezes crescemos na religião sem compreender que o evangelho é vida. Alguns praticam a religião com a convicção de que Deus está com eles só porque detêm algum poder: não importa se têm ou não têm fé, nem a imoralidade dos seus atos. Jesus os chamou de “justos”, ou seja, homens fechados ao apelo de conversão dirigido a eles pelos profetas, porque estão convencidos de que esse apelo não lhes diz respeito. De fato, eles crêem- se abençoados por Deus através da riqueza que possuem ou do poder que receberam, baseando-se na asserção de que ‘todo o poder vem de Deus’.

Alguns de nós, levados por uma prática fraca e superficial da religião, acreditamos que temos um coração aberto a Deus, porque vamos à igreja aos domingos, mesmo se chegamos tarde ou assistimos distraidamente; e acreditamos ser generosos com os outros, porque lhes damos trabalho, apesar de lhes atrasarmos o pagamento ou de até retermos o salário ou, simplesmente,  não pagarmos o que é justo. A conversão começa quando percebo que fui obstinado no pecado, turrão nas minhas opiniões, contumaz em minhas más ações.

Então a humildade abre uma brecha no muro que me fazia  pensar que estava “certo”; então também age o amor que me conduz para o seu  fim, que é Deus. Então, finalmente, descobrirei que Deus nunca esteve longe de mim, mas que fui eu o cego,  não o vendo tão perto de mim, todos os dias, na pessoa dos meus vizinhos” (trecho tirado de: Oscar A. Romero, ‘ La Chiesa non può stare zitta’ [A Igreja não pode ficar calada], escritos inéditos 1877-1980, Emi).

 

 

IACOPO SCARAMUZZI

http://www.lastampa.it/2017/08/15/vaticaninsider/ita/commenti/romero-il-vescovo-martire-che-scelse-il-vangelo-e-il-popolo-BS3zFaHVv9kP7Zz5KlRjqI/pagina.html

 

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>