O dia em que o Papa João Paulo II humilhou Monsenhor Romero no Vaticano

El día en que el Papa Juan Pablo II humilló a Monseñor Romero en el VaticanoPor: Iván Gallo | 24/03/2017

O bispo salvadorenho, que foi elevado a Beato, viajou para Roma com as provas da perseguição da ditadura aos sacerdotes. 

– Eu já disse a vocês para não virem carregados com tantos papéis! Aqui não temos tempo ler tanta coisa – diz o papa. Surpreso, com lágrimas nos olhos, o bispo de San Salvador abriu o envelope que guardava a foto do rosto destruído do padre Otavio Ortiz. –”Mataram-no com crueldade e até disseram que era de guerrilheiro…” Olhando a foto de soslaio, Karol Wojtyla perguntou: “E por acaso ele não o era?”.

Antes de as rodas de um carro blindado passarem por cima do rosto do padre salvadorenho Otavio Ortiz, um carrasco tinha cortado a sua garganta com uma faca. Os grupos paramilitares,  que apoiavam a ditadura do general Carlos Humberto Romero Mena, tinham-no acusado de dar apoio e pertencer à guerrilha da Frente Farabundo Martí. Com Ortiz, foram cinco os religiosos assassinados em 1979 sob o lema: ‘Faz pátria, mata um padre’.

A extrema direita que mandava em El Salvador procurava barrar a ferro e fogo os postulados da Teologia da libertação assassinando religiosos. O bispo de San Salvador, Óscar Romero, queria enfrentar a perseguição a que estavam sendo submetidos os sacerdotes do seu país e viajou para Roma, para se encontrar com o recém-eleito Papa João Paulo II. Era o seu superior hierárquico e Romero sentia-se na obrigação de denunciar as atrocidades que se cometiam contra a Igreja Católica e os seus prelados.

Monsenhor Romero chegou, com audiência confirmada,  ao gabinete do Papa, mas não foi recebido. Os assistentes do Pontífice deram um jeito para que a reunião não acontecesse. “Você já devia saber que o correio italiano é um desastre” – foi o que lhe disseram como desculpa. E fecharam todas as portas na cara dele.

beato

 

Sem se resignar a voltar para El Salvador sem ter falado com João Paulo II, monsenhor Romero fez o que faz qualquer fiel que vai a Roma para conhecer o Papa:

  • madrugou no domingo para estar na primeira fila na Praça de São Pedro e aguardar a saudação do Papa.
  • Quando chegou a hora de apertar a mão do Papa, ele disse simplesmente: “Sou o arcebispo de San Salvador e preciso falar com o senhor”.

Sem outra saída, o Papa concedeu-lhe a audiência para o dia seguinte.

Monsenhor Romero colocou sobre a mesa do gabinete uma caixa com os documentos e informações que mostravam os abusos, as calúnias, a campanha de difamação que o governo do general Romero Mera tinha empreendido contra a igreja de El Salvador.

Impaciente, quase desdenhoso, o Papa respondeu:

– Eu já disse a vocês para não virem carregados com tantos papéis! Aqui não temos tempo ler tanta coisa.

Surpreso, com lágrimas nos olhos, o bispo de San Salvador abriu o envelope que guardava a foto do rosto destruído do padre Octavio Ortiz. Contou ao papa a história da origem camponesa do padre, da tarde em que o ordenou, do dia em que foi preso pelo governo só porque estava ensinando o evangelho aos meninos de um bairro humilde de San Salvador. –”Mataram-no com crueldade e até disseram que era de guerrilheiro…”

Olhando a foto de soslaio, Karol Wojtyla perguntou: “E por acaso ele não o era?”.

Monsenhor Romero suportou tudo. O conselho do Papa não poderia ser mais surpreendente: diz-lhe que deve estabelecer pontes com a ditadura e lembra que o general é católico e portanto algo de bom deve ter.

Abandonado pela sua igreja, o bispo endurece ainda mais o seu discurso denunciando a arbitrariedade e a repressão do exército e a fome insaciável do “império do inferno”, epíteto que ele daria aos latifundiários.

 

As ameaças aumentam até que o seu círculo íntimo decide, como precária medida de segurança, limitar as suas missas à capela do hospital para cancerosos, ‘La divina providencia’. Mas até lá chegaram os seus algozes. Em 24 de março de 1980, três meses depois de ter estado no gabinete do Papa, um franco-atirador, em plena homilia, rebenta-lhe o coração com uma bala.

Monseñor Romero tras su muerte. Foto: archivo AP Eduardo Vazquez Becker

Monsenhor Romero depois de sua morte. Foto: AP Photo Eduardo Vazquez Becker

 

O Vaticano manteve o silêncio, mas a América Latina adotou-o como o santo dos oprimidos. Trinta e cinco anos mais tarde, depois que a causa da sua canonização foi postergada pelo desinteresse do papado de João Paulo II em relação aos sacerdotes do movimento da Teologia da libertação e com a ajuda cúmplice, dificultando o andamento do processo, dos cardeais colombianos Alfonso López Trujillo e Darío Castrillón, Monsenhor Oscar Romero foi beatificado em sua própria terra onde ele travou a sua grande batalha para tornar realidade a palavra do evangelho.

 

Iván Gallo

 

Iván Gallo

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4 comments to O dia em que o Papa João Paulo II humilhou Monsenhor Romero no Vaticano

  • Irene Cacais

    Pois é, “santo súbito”!?

  • Evaldo Tartas

    O papa conservador e defensor do capitalismo selvagem foi automaticamente elevado aos alteres após sua morte enquanto mártires em consequência de sua omissão ainda são vistos como guerrilheiros. Nos papados de João Paulo II e Bento XVI infelizmente a Igreja Católica abandonou o povo e em especial os mais pobres e colocou-se a serviço do capitalismo selvagem.

  • Dionê

    Me dói o coração só de ler estas coisas.

  • Dilmar Franchini

    Contente por receber JORNAL RUMOS e saber destas ações da nossa SANTA IGREJA CATÓLICA APOSTÓLICA ROMANA.
    Essas informações nos propiciam uma reflexão mais crítica das nossas atitudes frente a vida religiosa.

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