O verão de Bergoglio, lendo Bauman

Paolo Rodari – 10 Agosto 2017 – Foto: www.newecclesia.it

Os livros de Zygmunt Bauman acompanham o verão romano de Francisco. O papa, no calor de Roma, ciente das muitas pessoas que veem nele um guia espiritual e moral de autoridade, e entre elas muitos jovens, usa algumas horas livres que a suspensão dos compromissos públicos lhe concede para estudar os textos daquele que, melhor do que outros, segundo ele, pode ajudá-lo a entrar no coração da sociedade atual: Zygmunt Bauman.A reportagem é de Paolo Rodari, publicada por La Repubblica, 09-08-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

O filósofo e sociólogo polonês, que morreu em janeiro deste ano, tornou-se um autor imprescindível para Francisco. Lê-lo o ajuda a compreender melhor aquela “globalização poliédrica em que cada cultura conserva a sua identidade”, como ele mesmo disse em fevereiro passado, na Universidade Roma Tre. E, acima de tudo, é útil para que o pontífice entenda mais as realidades nas quais os jovens estão imersos.

Muitas vezes, sociedades anônimas e líquidas desembocam na violência. Bergoglio sabe disso, e ele, não por acaso, várias vezes, propôs a receita da “concretude”, o diálogo que aproxima as pessoas umas às outras.

Bauman também lia, e sobretudo ouvia, Bergoglio. Era fascinado pela empatia com a fragilidade humana e com o pecado mostrada pelo papa argentino. Francisco, disse, “não se eleva acima de nós, mas está ao nosso lado”.

Em 1939, Bauman leu o livro de Emil Ludwig, “O Filho do Homem, a história de um profeta”. O relato o impressionou. Bauman disse que as pessoas se aglomeravam ao redor do herói da história porque “esse nazareno não lhes trazia outra ladainha de prescrições ou de normativas, nem prometia tormentos infernais aos desobedientes, mas anunciava a boa notícia: ele trazia a esperança”.

Assim é Francisco, para Bauman: um portador de esperança para além dos castigos e dos fechamentos de um certo cristianismo.

Bauman se encontrou com Francisco em Assis, em 2016. Ele elogiou o papa pela sua insistência na “cultura do encontro”. A luz no fim do túnel existe, disse, e está na expansão da palavra “nós”.

Bergoglio e o seu magistério, explicou, “são o maior presente para a Igreja”. O papa ouviu e prometeu a si mesmo usar as semanas de verão para se aprofundar. E, como o La Repubblica apurou, ele está fazendo isso pontualmente.

Na biblioteca de Bergoglio, não faltam os grandes clássicos, “Os Noivos”, lido pelo menos três vezes, Dante AlighieriDostoiévski. Mas também autores como Bruce Marshall, o contador escocês que se descobriu romancista graças a diversos livros de sucesso, como Father Malachy’s Miracle [O milagre do padre Malaquias]. Depois, as poesias de Hölderlin e, especialmente, Jorge Luis Borges, “um agnóstico – disse Bergoglio – que, todas as noites, rezava o Pai-Nosso, porque tinha prometido isso à sua mãe, que morreu com o conforto religioso”.

Na biblioteca do papa, também estão muitos volumes mais “religiosos”. Os Exercícios Espirituais de Inácio de Loyola. Depois, “Vida e atualidade de Teresa de Lisieux”, de René Laurentin, dedicado à freira carmelita, mística e dramaturga francesa conhecida como Teresa do Menino Jesus, da qual ele é devoto.

O estudo é intercalado com a audição da “Missa em Dó menor” (Die Grosse Messe – KV 427, de Mozart, e do Parsifal, de Wagner. Tudo isso sem deixar de receber as pessoas e de dedicar mais tempo do que de costume à oração.

O papa disse muitas vezes aos seus conhecidos como ele gosta de levar uma vida de “rato”, daquele que prefere permanecer no seu habitat sem nunca ir longe demais. Particularmente nos meses de verão. Ele descobriu isso em 1975. Era o superior provincial dos jesuítas na Argentina. Propuseram-lhe de ir à praia para descansar. No país, pairava a ameaça do golpe de Estado. E, por isso, disse aos seus: “Vão vocês”.

Foi naqueles dias que ele se deu conta de como era rejuvenescedor ficar em casa, continuar com a vida de sempre, embora com os compromissos reduzidos. E assim o fez sempre, de 1975 até hoje, sem nenhuma exceção.

Até mesmo durante o cardinalato, se devia viajar para Roma, ele o fazia pelo tempo estritamente necessário. Não ficava muito tempo na capital italiana. Partia novamente na mesma noite do último dia de trabalho ou no dia seguinte.

No verão, os horários do papa não mudam. Apesar da responsabilidade do papel que ele desempenha, ele consegue dormir profundamente. Não assiste televisão. Prefere um bom livro.

 

Paolo Rodari

Fonte: www.ihu.unisinos.br/570500-o-verao-de-bergoglio-lendo-bauman

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