Carta ao primeiro ministro israelense Netanyahu sobre os “assentamentos”

José Ignacio González Faus, sj., 06/08/17

Tradução: Orlando Almeida

Foto: O primeiro ministro israelense Benjamin Netanyahu

González Faus, sj: “Apelar ao dom de Deus para tomar a terra de outros é simplesmente uma blasfêmia”. “O que temos em comum como humanos é superior ao que nos diferencia”

 

Senhor Primeiro-ministro: permito-me roubar-lhe apenas cinco minutos, para falar-lhe dos “assentamentos”. Embora pessoalmente discorde do seu modo de proceder neste ponto, não vou entrar em razões éticas ou políticas: há outras instâncias e outros momentos para estes debates, ainda que não funcionem muito bem…

Vou limitar-me simplesmente ao aspecto bíblico, uma vez que muitos colonos argumentam: “esta terra é nossa, porque Deus a deu a nós“.

Deixemos de lado agora a falta de nobreza dos que argumentam assim sem ser crentes. Respondendo apenas aos que ainda acreditam e continuam a rezar o “Shemâ Israel“, devo dizer que essa argumentação bíblica não se sustenta. Por estas razões:

  1. O mesmo Deus que deu a terra, à vista da infidelidade do povo que continua a adorar “Baal e Astarte”, proclama: “Tampouco Eu tirarei do meio deles as nações que Josué deixou ao morrer”; de modo que os israelitas viveram no meio de cananeus, heteus, amorreus, ferezeus e jebuseus (Juízes 2, 21.23; 3, 3-5).

Os arqueólogos acreditam, além disso, que a ocupação da terra foi bastante mais pacífica porque havia muitas zonas despovoadas; foi narrada de maneira militar para inspirar confiança no apoio de Deus que dá a vitória. E, por exemplo, consta que nem Jericó nem Ay nem outras cidades existiam na época em que o livro de Josué narra a sua conquista.

  1. A revelação bíblica de Deus tem um caráter progressivo que se evidencia numa infinidade de exemplos: no princípio, cada desgraça que acontece ao povo é lida como um castigo de Deus, por uns homens que eram, pelo menos, muito conscientes da sua infidelidade ao Senhor.

Mas entender de maneira fixa e estática fez com que, durante o Holocausto, muitos judeus de boa fé não tenham sabido defender-se, acreditando que se tratava de um castigo de Deus, que se valia de Hitler como outrora se valera de Nabucodonosor. Quando da agressão de Antíoco IV, Israel já tinha aprendido que aquilo não era um castigo de Deus mas sim uma agressão injusta. Pena não se terem lembrado dos Macabeus quando explodiu a barbárie nazista!

Por aí se veem os estragos que pode fazer uma leitura estática e não progressiva da revelação de Deus.

  1. O exílio foi vivido pelo seu povo como um castigo de Deus; mas foi lá que Israel aprendeu que Deus não era um bem exclusivamente seu, mas Criador de todos os homens e que também havia pessoas agradáveis a Deus fora das suas fronteiras, tanto que Israel incorporou na sua Bíblia, como a Palavra de Deus, muita sabedoria de outros povos.

E apesar das resistências conservadoras impostas no regresso do desterro babilônico (que impuseram vários repúdios), um judeu poderá em época posterior casar-se com uma mulher não judia e isso ficará depois como algo definitivo: porque o que temos em comum como humanos capazes de amar, é superior ao que o que nos diferencia como filhos de uma ou outra religião. Precisamente de um desses matrimônios mistos era descendente Davi e nasceria logo Salomão.

  1. Fruto dessa dinâmica é a lição de que, quando Deus chama ou escolhe alguém, não o chama para o seu próprio proveito, mas para o bem dos outros. Isaías dirá que Israel foi escolhido como “luz para as gentes” (42,6), criando uma sociedade que, na sua humildade e sua pequenez, era modelo de justiça e de colaboração, onde não deveria haver pobres nem escravos.

O atual estado de Israel, tal como os seus antecessores, perdeu essa exemplaridade, empenhando-se em ser “como as outras nações” (Samuel 8,5): adorador de Mamom, essa palavra aramaica tão intraduzível, que designa a confiança na riqueza antes da e contra a confiança em Deus; com o que perverte aquilo que é um dom de Deus, (a abundância para todos), transformando-a numa ofensa a Deus (a abundância para uns poucos).

  1. Fruto desta dinâmica é também a crítica da religião, patente e presente na Bíblia, onde a religião deixa de ser uma questão de culto, para passar a ser uma questão de justiça inter-humana: “quero misericórdia e não culto” (OS 6.6); o jejum que eu quero é que tu dividas o teu pão com o faminto, que dês casa ao que não tem… (Is 58); e Deus sabe que vai ser tão pouco escutado neste ponto, que diz ao profeta: “clama, não pares, grita em voz bem alta”.

Não tranquilizes a tua consciência dizendo “templo do Senhor, templo do Senhor” (Jeremias 7,4), porque eu tenho toda a terra para morar nela e não preciso nada das tuas oferendas e dos teus holocaustos, nem dos teus templos. Como foi crescendo a pedagogia de Deus do tempo de Davi até ao profeta Jeremias!

Se um colono ainda é um crente, não escutará a voz do Senhor dizendo-lhe como a Jonas: tu te queixas da tua moradia; e achas que para mim não importa nada essa Palestina onde moram centenas de milhares de homens? (4,11).

Diante deste quadro o senhor compreenderá que fazer apelo ao dom de Deus para tirar a terra a outros é simplesmente uma blasfêmia ou uma loucura: a mesma (se assim posso dizer) dos que apelam a um “Alá maior” para descarregar a sua metralhadora contra seus irmãos.

Temo que, após esta carta, nunca mais possa obter visto para visitar Israel; e talvez não seja a única vingança que caia sobre mim. Mas escrevi-a não só em defesa de muitos palestinos maltratados, mas também em defesa de outros judeus fiéis, verdadeiro “resto de Israel”, que se sentem encurralados na sua terra e que arriscaram por vezes a vida ou a liberdade, por não querer disparar contra seus irmãos em humanidade.

Começando por Isaac Rabin que aprendeu, como Davi, a entoar o seu “Hannení Elohim Behasedeka”: esse “misericórdia, meu Deus, por tua bondade” que hoje rezam tantas pessoas, judeus ou não.

Que esse espírito de Javé, que enche toda a terra, também ilumine o senhor.

 

 

José Ignacio González Faus

Fonte: http://www.periodistadigital.com/religion/opinion/2017/08/06/religion-iglesia-opinion-gonzalez-faus-asentamientos-israelies-apelar-al-don-de-dios-para-quitar-la-tierra-a-otros-es-sencillamente-una-blasfemia-benjamin-netanyahu.shtml

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>