É possível outra renovação pastoral (II) –   “Resultados espectaculares” em Poitiers

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Jesús Martínez Gordo, 2/08/ 2017 – em Vida Nueva

Tradução: Orlando Almeida

“É urgente promover bispos com entranhas pastorais”

“o carisma, além de inspirar esperança ao pequeno e fraco, acabou sendo quase sempre – por sua raiz evangélica – a tábua de salvação do institucional e até das pessoas que criticaram o seu “espontaneismo”, criatividade, indisciplina e uma suposta (sem qualquer fundamento) “desafeição”.”

  1. A organização das equipes pastorais

Os ministérios laicais são designados – seguindo o livro dos Atos –  pelo sucessor dos apóstolos (por proposta das comunidades locais e após prévia aprovação dos seus  candidatos pelos conselhos pastorais do arciprestado e do Vicariato). Os dois “delegados” restantes são eleitos por cada comunidade local, sendo suficiente uma ratificação posterior por parte do bispo.

Cabe a cada ministério laical, como já foi dito anteriormente, formar a sua equipe de colaboradores. Esta maneira de proceder está aberta ao que em Poitiers se conhece como o “segundo círculo“, ou seja, a atender aos pedidos de ajuda das pessoas que, estando próximas do primeiro círculo (formado pela comunidade local com a equipe pastoral), se interessam pela fé (sem serem praticantes regulares) e que estão dispostas a colaborar ativamente, sempre que a comunidade local o solicite.

O ministério ou serviço que estas pessoas prestam é voluntário e por um tempo determinado,  três anos renováveis por mais três. Ninguém pode fazer compromisso por mais de seis anos ou indefinidamente ou “por toda a vida”.

Como já é costume nas várias igrejas locais da França, o bispo (ou um seu delegado) entrega a missão pastoral a estas equipes pastorais numa celebração litúrgica que teve o mérito de abrir um debate (de grande alcance) sobre a identidade destes ministérios laicais: simples colaboradores (em conformidade com o cânon 517 § 2) do ministério ordenado devido à escassez de sacerdotes? Início (como sustenta, por exemplo, B. Sesboüé) de uma nova forma de sacerdócio ministerial que vai além da mera “participação” no exercício das tarefas pastorais do sacerdote? Porta aberta (como propõe F. Moog alargando o caminho aberto na sua época por Yves Marie-Joseph Congar) para a superação do binômio sacerdotes-leigos em favor da comunidade-ministérios?

 

4. Um novo modelo de presbítero

Diferentemente de outras épocas, nos nossos dias estamos passando de uma situação em que os leigos giravam em torno do sacerdote para outra em que o sacerdote se põe a serviço das comunidades locais. É outro indicador da renovação eclesial em andamento.

Isto quer dizer que precisamos de um modelo de sacerdote

  • que exerça e viva a presidência da comunidade cristã de uma maneira mais apostólica do que a seguida até agora; que não seja clerical nem autoritário;
  • que acompanhe na fé um conjunto de comunidades locais com as suas respectivas equipes pastorais de base;
  • que cuide da comunhão eclesial entre todas elas
  • e que recorde constantemente  que a missão evangelizadora é a razão de ser e o coração  de todas e cada uma das comunidades locais.

Evidentemente, trata-se de um sacerdote que já não é o responsável primeiro e último de toda a estrutura organizacional e que, portanto, não tem que conhecer,  saber e proceder sobre cada um dos detalhes, dirigindo tudo. Por isso, pode atender adequadamente ao que é essencial e próprio da sua missão apostólica:

  • o crescimento da fé,
  • o dinamismo missionário das equipes pastorais de base e das comunidades
  • e a comunhão entre todas elas e as demais realidades diocesanas.

Além disso, é uma maneira de ser sacerdote que vive o ministério litúrgico na importância que realmente tem, sem incorrer na tentação sacramentalista à qual são tão proclives tantas espiritualidades triunfantes nos pontificados de João Paulo II e de Bento XVI. As liturgias bonitas são boas, mas sem preocupação com os outros ou sem uma práxis habitual e continuada de corresponsabilidade ou sem o cuidado da missão, são insuficientes.

A efetivação desta nova articulação da identidade da espiritualidade sacerdotal leva a que os sacerdotes não celebrem – como acontece em Poitiers, por proposta do bispo – mais de três missas a cada fim de semana: uma na tarde de sábado e duas aos domingos.

 

  1. Resultados espetaculares

Este projeto é discutido, modificado e aprovado pelo Conselho Presbiterial (em 21 de novembro de 1994) e pelo Conselho Pastoral Diocesano de Poitiers.

Dez meses após a sua aprovação, em 11 de setembro de 1995, é criada a primeira comunidade local.

Um ano depois, em 26 de setembro de 1996, reune-se o grupo que passou a ser conhecido como grupo dos “12 sacerdotes fundadores” e em 07 de dezembro de 1996 dá-se o encontro dos primeiros 25 “delegados pastorais”.

Em junho de 1997 estão em funcionamento umas 50 comunidades locais e em 1998 já são uma centena.

Entre 2001 e 2003 celebra-se o segundo sínodo diocesano para ler os Atos dos Apóstolos e mostrar a sua continuidade na Igreja de Poitiers. É o evento eclesial em que a diocese assume o projeto das comunidades eclesiais e das equipes pastorais.

Em janeiro de 2003 já são 220 as comunidades locais em funcionamento. E dez anos após ter sido dado o sinal de partida (2004) chegam a 273 as constituídas e a 265 as que estão funcionando. Deve-se anotar que uma boa parte das que ficaram pelo caminho foi porque tiveram dificuldades em renovar as equipes pastorais de base.

O mais provável – prognosticava monsenhor A. Rouet em 1999 – é que estejam abertas cerca de 230 novas comunidades locais de base em 2010; ano em que a diocese contará com cerca de 150 padres ativos e uns 60 diáconos.

A realidade, no entanto, superou as previsões mais otimistas: em 2010, a diocese de Poitiers tinha 200 sacerdotes, 45 diáconos e cerca de 10.000 pessoas envolvidas nas 320 comunidades locais.

 

6. O “munus regendi” dos presbíteros (2010)

Em 17 de outubro de 2010 monsenhor Albert Rouet assina o decreto pelo qual substitui o sistema tradicional de paróquias pelo modelo organizacional experimentado nos últimos anos: as comunidades locais com a suas equipes pastorais de base e a nova maneira de viver e entender o ministério ordenado.

Um grupo de onze sacerdotes (quase todos com menos de 50 anos e uma idade média de 45) manifestam em 19 de outubro de 2010 o seu desacordo com este decreto:

1. Entendem que o direito canônico foi mal aplicado e esvaziado de conteúdo com o fim de estabelecer uma autoridade paralela na Igreja e supostamente fundada no sacerdócio baptismal dos fiéis.

2. Dizem que a tarefa como “pároco” foi diluída num emaranhado de conselhos de diferentes níveis, impedindo que o sacerdote possa exercer livremente a sua responsabilidade de pastor (“munus regendi”), intrinsecamente vinculada ao sacramento da ordem que receberam.

3. Assinalam que se assiste à desmobilização dos jovens aspirantes ao sacerdócio (minando as vocações ao mesmo ou favorecendo a sua fuga para fora da diocese) e ao esgotamento dos padres (e também dos leigos) uma vez que, muitas vezes, acabam absorvidos por tarefas organizacionais internas, e por isso negligenciam a evangelização, tão urgente nos nossos dias

4.  Declaram que a reforma efetivada está gerando conflitos inevitáveis por ter colocado em funcionamento um sistema que dissolve a verdadeira responsabilidade, em particular a dos presbíteros.

5. E denunciam que se estão promovendo princípios teológicos e eclesiológicos mais que ambíguos, ameaçando a plena comunhão eclesial com a Santa Sé e com outras igrejas particulares.

Este recurso, apresentado a A. Rouet, sobe  posteriormente à Congregação para o Clero e ao Conselho Pontifício para a Interpretação dos Textos Legislativos.

Um decreto assinado pelo Cardeal-Prefeito da Congregação para o Clero [Mauro Piacenza, 2010-2013], suspende a execução do decreto diocesano “até que o dicastério tome uma decisão a respeito” já que as questões levantadas sobre a “estrutura geral da diocese” e em particular, sobre “o cuidado pastoral dos sacerdotes” são consideradas “graves”. O mesmo faz o Conselho Pontifício para a Interpretação dos Textos Legislativos [presidido então e atualmente pelo cardeal Francesco Coccopalmerio, cujo secretário, Luigi Capozzi, foi preso recentemente por uso de drogas ilícitas].

Em 13 de fevereiro de 2011 Albert Rouet apresentou, em cumprimento ao determinado pelo código de direito canônico, a sua renúncia por ter atingido a idade de 75, sendo sucedido em janeiro de 2012, por monsenhor Pascal Wintzer, até então seu bispo auxiliar.

 

  1. O (estéril) retorno do clericalismo

Uma das primeiras decisões do novo bispo foi aprovar um decreto em que “volta a definir” a missão de cada um de acordo com as “recomendações” enviadas pela cúria do Vaticano cujos pontos mais importantes são as seguintes:

  1. A constituição de cada nova paróquia será feita por decreto do arcebispo, depois de ter ouvido o conselho presbiteral, ficando sob a responsabilidade pastoral de um sacerdote que será o pároco (“munus regendi”) da mesma. Outros sacerdotes poderão ajudá-lo como vigários (CIC 545), e até mesmo diáconos ou leigos, mas de acordo com o direito. 
  1. Cada paróquia terá um conselho pastoral paroquial (CIC 536) e um conselho paroquial para os assuntos econômicos (CIC 537), que serão presididos pelo pároco, sendo este último o seu único representante, assim como o responsável pelos seus bens (CIC 532)
  2. As paróquias serão formadas pelas comunidades locais, animadas por pessoas enviadas pelo pároco e que terão como missão zelar, sob a autoridade do pároco, pelo anúncio da fé, pela oração e pela caridade.

 

Em conclusão

A crise provocada pelo pedido apresentado por estes onze sacerdotes jovens às instâncias do Vaticano para que fosse preservado o seu “munus regendi” (no fundo, o seu poder) evidencia

  • não só as enormes carências teológicas e espirituais e a falta de entranhas pastorais dos que, às vezes, são propostos (apenas por sua juventude) como exemplo (mau) a ser seguido,
  • mas acima de tudo, a improcedência de aplicar o código de direito canônico à margem da sua adequada referência interpretativa: o Vaticano II e o “bem espiritual dos fiéis”.

Obviamente, para que isso seja viável é imprescindível encontrar bispos que entendam o seu ministério – como o foi durante muito tempo (e também no caso de A. Rouet) – em termos de relação matrimonial com a diocese que presidem, e não como trampolim para alcançar outros objetivos, nem sempre confessáveis.

Muitas vezes, o “carreirismo“, denunciado pelo Papa Francisco, impede-os de

  • tratar com a lucidez e paixão necessárias os problemas
  • e acompanhar, como merecem, os leigos, as leigas, os sacerdotes, os religiosos e religiosas que, já há bastante tempo, perceberam a esterilidade de aplicar o código de direito canônico em situações altamente secularizadas.

É inadiável promover bispos com entranhas pastorais e, por isso, dispostos a pagar o preço que implica ser mais fiéis ao Vaticano II e às exigências pastorais do que às próprias aspirações pessoais ou à legislação canônica, cada dia mais obsoleta. Só com eles têm um futuro mais esperançoso a Igreja e as comunidades cristãs, simplesmente porque a sua liderança é determinante.

E também sacerdotes que experimentem (com suas respectivas comunidades, por fracas e envelhecidas  que possam ser) o caminho inédito iniciado em Poitiers, mesmo ao preço de ter de ouvir a acusação de “ir por conta própria” ou não seguir  devidamente as orientações diocesanas.

Essas pessoas (mais carismáticas do que institucionais) quase sempre têm salvado a comunidade cristã da insignificância e da própria dissolução, apesar de manterem frequentemente umas relações complicadas com o institucional. Não é demais recordar que, curiosa e surpreendentemente, o carisma,

  • além de inspirar esperança ao pequeno e fraco,
  • acabou sendo quase sempre – por sua raiz evangélica – a tábua de salvação do institucional e até das pessoas que criticaram o seu “espontaneismo”, criatividade, indisciplina e uma suposta (sem qualquer fundamento) “desafeição”.

 

Jesús Martínez Gordo

Fonte: http://www.periodistadigital.com/religion/opinion/2017/08/02/religion-iglesia-opinion-jesus-martinez-gordo-es-posible-otra-renovacion-pastoral-ii-resultados-espectaculares-en-poitiers-francia.shtml#.WYHMj7ADTSo.facebook

 

 

 

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