É possível outra renovação pastoral (I)

A experiência de Poitiers (França)

Jesús Martínez Gordo, 01/09/ 2017 – Foto: Igreja de novos caminhos, Igreja em saída 

“O funcionamento sinodal e corresponsável está no código genético da Igreja”.  Há centenas de milhares de comunidades cristãs que, no mundo todo, estão organizados de outra maneira, muito diferente da que atualmente vigora na Europa. Todos somos Igreja

Tradução: Orlando Almeida

 A experiência de renovação eclesial promovida por  monsenhor A. Rouet (1994-2011) em Poitiers foi formalmente desautorizada  em 2012 pelo setor da cúria vaticana mais partidário  da defesa de um modelo de Igreja
  • marcadamente clericalista do que sinodal e corresponsável
  • e, ao mesmo tempo, mais atento ao código de direito canônico do que aos critérios teológicos proclamados pelo Concílio Vaticano II
  • ou às urgências (de evangelização e reorganização) que brotam de uma sociedade cada vez mais secularizada.

No entanto, para além das dúvidas que razoavelmente se levantam  ​​sobre a citada desqualificação no atual papado,  a de Poitiers é uma experiência de renovação que, com as adaptações e correções que se julguem oportunas, continua sendo referencial. Com efeito, assim o é nas  outras renovações que também estão sendo levadas a  cabo realizados na França e em muitas igrejas locais da Europa.

  1. Alguns dados

Os dados históricos são incontestáveis ​​e, ao mesmo tempo, muito comuns com os de outras igrejas locais da Europa: a diocese de Poitiers contava, em meados do século XX, com cerca de 800 sacerdotes e as suas previsões para o final do século XX e início do século XXI eram de pouco mais de 200.

Não há nada de excepcional no fato de que – em sintonia com o ‘modus operandi’ da grande maioria das dioceses francesas – tenha enfrentado o seu futuro e, particularmente, os problemas decorrentes do envelhecimento e diminuição do clero de forma sinodal e corresponsável.

O resultado disso foi a celebração, entre 1988 e 1993, do primeiro sínodo diocesano e a decisão concorde de agrupar as 604 paróquias, então existentes, em 77 unidades pastorais (“relais”) com um conselho encarregado de elaborar um projeto pastoral.

Em janeiro de 1994, Albert Rouet, até então bispo auxiliar de Paris, é nomeado bispo titular de Poitiers em substituição (por jubilação) de monsenhor Joseph Rozier. Terminada a celebração litúrgica de entrada na diocese, entregam-lhe as Atas do Sínodo recém-concluído.

O novo bispo entende  que, antes de proceder à sua aplicação, precisa  conhecer “in situ” o estado real da diocese. Esta preocupação leva-o a fazer uma visita pastoral. No decorrer da mesma percebe que a remodelação que se pretende efetivar, por estar mais preocupada com a estrita aplicação do Código de Direito Canônico do que com a solução das urgências pastorais, corre um grande  risco de favorecer uma reorganização clericalista uma vez que a sua referência  primeira e  última é o número (atual e previsível) de sacerdotes. Como consequência disso – constata  –  vai se acabar condenando à própria sorte as paróquias pequenas e aceita-se  uma imperdoável  hemorragia de pessoas e comunidades.

 

  1. As chaves da renovação

Estas constatações levam-no a propor uma renovação eclesial corresponsável baseada não tanto nas previsões  de padres ou nas limitadas possibilidades pastorais abertas a partir de uma interpretação possibilista do direito canônico, mas na missão, na sinodalidade, na pertença  responsável e corresponsável  das comunidades locais, na promoção de equipes pastorais de base e no fortalecimento  de um novo modelo de sacerdote no qual  a dimensão cultual e litúrgica tenha  sua importância, mas não como centro articulador em torno do qual as outras giram.

 

2.1.- Uma diocese em estado de missão

Na diocese de Poitiers – anota o novo bispo –

apesar de ser uma região marcadamente rural, também irrompeu a secularização. Faz tempo que  desapareceu o cristianismo sociológico, extinguindo-se a tradicional correspondência entre o número de habitantes e o número de católicos. A comunidade cristã já não é identificável com toda a população.

Portanto, é preciso assumir algo que já começa a ser  bastante comum em muitas dioceses das grandes cidades: a Igreja caminha  para ser uma minoria em uma sociedade cada vez mais pagã ou, em qualquer caso, não cristã. Isto significa que nos encontramos numa situação de missão e que os serviços até agora prestados pelas paróquias atuais  já não garantem uma fé madura nem  mesmo a sua própria sobrevivência nem a da comunidade cristã.

Mas, sendo importante perceber e assumir esta nova situação, é muito mais momentoso repensar como é possível ser cristão e como se podem potencializar  comunidades evangelizadoras  num mundo cada vez mais secularizado. Esta é a primeira das tarefas de toda a renovação eclesial.

2.2.- Uma diocese sinodal

O funcionamento sinodal e corresponsável está no código genético da Igreja de todos os tempos. Consequentemente, deve ser o elemento principal de todas as estruturas eclesiais e de todos os projetos de renovação e de reorganização pastoral. E também, obviamente, do projeto que se pretenda  desenvolver na diocese de Poitiers.

Daí o papel das paróquias e de todos os batizados em projetar seu próprio futuro é um critério não-negociáveis, estacionamento em qualquer lógica ou procedimento que dilui ou a água para baixo. Portanto sinodalidade é o caminho para resolver todos os problemas que temos pela frente e fazer renovação eclesial credível.

2.3.- Comunidades locais e pertença corresponsável

Se, como é habitual em muitos lugares, se confunde a Igreja com uma organização contingente (paróquia), então a diocese de Poitiers também acabará topando mais cedo ou mais tarde com os subterfúgios a que frequentemente se recorre para manter o modelo de  Igreja clerical do passado e as estruturas que a favoreceram , com a ajuda, é claro, de um código de direito canônico interpretado “ad casum”: encontrar pessoas que substituam ou “colaborem” com os sacerdotes; ser menos exigentes com os critérios que se devem exigir para a ordenação sacerdotal  (podendo ser suficiente a piedade); remodelações e unidades pastorais  na medida das possibilidades do modelo latino de ministério sacerdotal … A catástrofe previsível (seja a médio ou a longo prazo) é mais do que evidente.

Se, pelo contrário, se compreende que o desaparecimento de uma estrutura (embora seja tão importante como a paróquia) não é a morte da Igreja, mas uma oportunidade para a criatividade apostólica e missionária, ou seja, para a renovação eclesial, então é bem possível que irrompam, em meio às indubitáveis limitações, a esperança e a confiança diante de um futuro que convida –  como nos tempos das primeiras comunidades – à  esperança.

A situação atual é de tal calibre – aponta em seguida monsenhor A. Rouet – que leva não só a renunciar às receitas pastorais de sempre (ainda que avalizadas pelo direito canônico), mas, sobretudo, a centrar o olhar em como se organizavam as primeiras comunidades para fazer, à luz desse modo de proceder, uma leitura implicativa que pode (e deve) ser igualmente iluminada pela experiência de outras igrejas contemporâneas (particularmente da África, Ásia ou América Latina). Tanto umas como outras foram (são) comunidades com clara autoconsciência de serem corresponsáveis, missionárias e criativas, apesar de contarem para isso com pouquíssimos sacerdotes. São centenas de milhares de comunidades cristãs que, no mundo todo, se organizam de outra maneira, muito diferente da que prevalece atualmente na Europa.

Dos países de missão chegam modelos de funcionamento e organização muito diferentes do europeu. Existem, por exemplo, dioceses com centenas de milhares de habitantes e com menos de 30 sacerdotes e até com menos de 20. E o que é mais surpreendente: esses sacerdotes estão aparentemente menos estressados que os da França e muito mais animados do que os daqui. E ao mesmo tempo há milhares de cristãos que, em comunhão com o sacerdote, animam comunidades vivas, comprometidas, nada complexadas nem entregues a choradeiras e lamentações de desespero e por cuja cabeça não passa a ideia de dizer que Cristo os abandonou à sua sorte por não poderem contar com a presença permanente de um sacerdote.

À luz destas experiências e critérios, e tendo presentes as linhas fundamentais do Sínodo diocesano, o novo bispo propõe impulsionar as chamadas, desde então, “comunidades locais“. Entendem-se como tais os grupos de cristãos que se reúnem para viver o Evangelho, que vão (e querem ir) além dos encontros dominicais – ou ocasionais para a celebração de funerais, casamentos e outros eventos sacramentais. E que, além disso, participam desses encontros de maneira livre e responsável.

Portanto, o que define essas “comunidades locais” não é a referência a um território administrativo, mas a pertença livre e responsável a essas comunidades; a atenção e o cuidado aos três pilares fundamentais de toda a comunidade cristã (o anúncio da fé ou evangelização, a oração no Espírito de Cristo ou liturgia e o serviço da caridade e da justiça) e a existência de uma equipe pastoral de base que, além de renovar-se periodicamente, exerce o seu ministério ou serviço em comunhão com as outras comunidades locais da diocese.

2.4.- A promoção de “equipes pastorais de base”

Este coletivo humano não só é identificável como Igreja ou comunidade cristã porque anuncia a fé, reza no Espírito de Cristo e serve ao ser humano (especialmente aos mais sofredores), mas precisamente porque esses serviços são realizados em equipe, por um tempo determinado, em comunhão com a Igreja universal (com delegação do sucessor dos apóstolos que preside a igreja local) e acompanhados por um padre.

Portanto, se é incontestável – lembra A. Rouet – que a “equipe pastoral de base” não é a comunidade local, mas seu grupo de animação, também é verdade que, sem ela, não há comunidade local e que ela deve ser formada por três “ministérios reconhecidos”

(em consonância com os três pilares fundamentais da Igreja e de cada comunidade) e por dois “delegados” (um da economia e da vida material e outro da coordenação da equipe pastoral de base), todos eles necessários para o seu bom funcionamento.

 

a.- Os ministérios laicais “instituídos”

Os três ministérios laicais “instituídos” são os relativos ao anúncio da fé ou evangelização, à oração no Espírito de Cristo e à caridade e justiça.

O anúncio da fé. Aquele a quem é confiado o anúncio da fé sabe que a sua responsabilidade vai muito além de transmitir o catecismo às crianças. Cabe-lhe a evangelização dos jovens e dos adultos, o trabalho com os movimentos e, em geral, tudo o que está relacionado com o catecumenato e a formação. Assim entendido, trata-se de um compromisso que excede as possibilidades de uma única pessoa.

Por isso a sua primeira tarefa consiste em convidar outros para serem responsáveis junto com ele no ministério para o qual ele foi indicado e enviado. Num momento posterior, será preciso repartir as tarefas segundo a sua natureza (crianças, adolescentes, adultos) e de acordo com as possibilidades das pessoas disponíveis (meia-hora, uma hora, duas horas ou o que quer que seja por semana).

A liturgia e a oração. A este ministério compete o cuidado do local e dos meios necessários para a celebração da fé, mas, sobretudo, a animação da oração dominical.

Tal como acontece com o ministério dedicado ao anúncio da fé, uma de suas primeiras tarefas também consiste em reunir e animar uma equipe de pessoas que ajudem no serviço que lhes foi confiado.

Nas comunidades locais de Poitiers, ao contrário do que acontece em outras dioceses, celebra-se o dia do Senhor todos os domingos do ano, haja ou não ou não a presença de um padre. São comunidades em que se evitam as Assembleias Dominicais na Ausência de um Padre (as ADAP), pois não se reúnem “na ausência” de um padre, mas para encontrar-se com Cristo. Os fatos mostram – anota A. Rouet – que os encontros dominicais dos membros da comunidade local, com ou sem padre, estão tendo boa acolhida. Prova disso é que, nos últimos anos, está aumentando o número de comunidades que reúnem aos domingos.

Além destas tarefas principais, há outras derivadas em que a criatividade deste ministério é de grande importância. Não são tarefas menores, por exemplo, manter aberta a igreja para que se possa rezar ou animar uma (ou várias) jornadas de oração em algum dos seis mosteiros da diocese, associados a uma iniciativa deste estilo.

A caridade e a justiça. Finalmente, o ministério da caridade e da justiça busca aliviar a miséria e o sofrimento. Cñaritas* é uma dos rostos institucionais, importantes e mais visíveis, do serviço eclesial aos que sofrem e aos necessitados. Mas não é a única mediação nem esgota as possibilidades de visibilizar este pilar eclesial. Ao lado do voluntariado e dos profissionais desta instituição é importante a promoção dos ministérios laicais da caridade e da justiça que sejam a voz das comunidades locais no mundo mais próximo dos pobres, dos que clamam por justiça, dos que sofrem, dos doentes, dos idosos, dos que vivem sozinhos e de todas aquelas pessoas que estão fora dos programas institucionais de reinserção.  E, ao mesmo tempo, é igualmente decisivo que os ministérios laicais da caridade e da justiça sejam a voz destas pessoas e situações no seio das comunidades locais.

Não se deve descartar a possibilidade de que estes ministérios laicais não só acompanhem os doentes, mas que até mesmo possam presidir (quando se julgue conveniente) a oração da comunidade nos funerais. Normalmente, costuma ser um serviço que é bastante bem aceito quando existia anteriormente uma relação com as famílias afetadas. E não o é tanto quando não houve convivência com a pessoa falecida ou com a sua família.


b. – Os delegados de economia e de coordenação pastoral

Mas, para o seu bom funcionamento, a comunidade local também deve garantir o serviço, por um lado, da economia e da vida material e, por outro, o serviço da coordenação da equipe pastoral de base.

Os que assumem estes serviços são conhecidos como o “delegado (da comunidade) para os assuntos econômicos e materiais” (no primeiro caso) e como o “delegado de pastoral” (no segundo).

São duas pessoas que a comunidade local elege e nomeia (sem necessidade de uma indicação por parte do bispo) e que fazem parte da equipe pastoral de base.

 

 

Jesús Martínez Gordo

Fonte:  http://www.periodistadigital.com/religion/opinion/2017/08/01/religion-iglesia-opinion-jesus-martinez-gordo-es-posible-otra-renovacion-pastoral-i-la-experiencia-de-poitiers-francia.shtml

 

(Continuará numa 2ª. Parte)

 

*Cñaritas – encontrei esta grafia em várias buscas no Google. Parece ser uma forma antiga da palavra “charitas”.

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