Trabalho e férias

De facto, por outro lado, o trabalho significa o esforço comum da Humanidade para transformar o mundo, pois é transformando o mundo que o Homem verdadeiramente se realiza e toma consciência de si enquanto humano, como bem viu Hegel, concretamente na sua famosa dialéctica do senhor e do escravo, no que constitui a primeira grande reflexão filosófica sobre o trabalho, na Fenomenologia do Espírito.

O escravo, pelo trabalho e transformando o mundo, não ganha apenas para o seu sustento, pois, para lá disso e sobretudo, vem a si mesmo na consciência de Homem, de tal modo que supera o senhor para quem trabalha: afinal, o senhor apenas consome o que o escravo produz.

Quando se olha à volta ou se viaja pelo mundo, por toda a parte, de um modo ou outro, o que vamos encontrando tem que ver com este esforço histórico-colectivo gigantesco de

  • transformar o mundo
  • e torná-lo humano.

Instrumentos de trabalho, aldeias, cidades, meios de transporte – dos mais simples aos mais complexos -, monumentos, fábricas, escolas, universidades, laboratórios, bibliotecas, museus…

Assim, o trabalho tem sempre esta dupla face:

  • por um lado, o esforço,
  • e, por outro, a obra.

O esforço está bem presente na própria palavra trabalho: deriva de tripalium, que era um instrumento de tortura. Na Bíblia, no Génesis, é dito por Deus ao Homem: “Comerás o pão com o suor do teu rosto.”

A outra face é a obra: o Homem, mediante o trabalho, realiza obras que o enaltecem. É construindo o mundo de múltiplos modos que a Humanidade ergue a sua História de fazer-se. A sua obra é essa.

 

2. Frequentemente, quando se fala de trabalho, é sobretudo em emprego que se pensa e no desespero que o desemprego representa. Neste sentido e tomando em conta, por um lado, a globalização e, por outro, a influência, por exemplo, da robotização e o que ela significará nestes domínios, penso que este é um dos temas que vai exigir uma governança global.

Não vou meter–me nesta problemática gigantesca do trabalho enquanto bem escasso que é preciso saber distribuir e partilhar, com todas as consequências. Também não pretendo argumentar, como já uma vez escrevi aqui,

  • com o matemático e filósofo Bertrand Russell, Prémio Nobel da Literatura, que há muito tempo escreveu que bastaria trabalhar quatro horas por dia,
  • ou com o físico de renome mundial, Hans Peter Dürr, que também disse que precisaríamos apenas de um terço do nosso tempo de trabalho para produzirmos o que é realmente importante…

O outro tempo seria para a criatividade e sua fruição na beleza, na música, na contemplação, na filosofia…

 

3. E assim entro nas férias. De facto, o Homem não se define apenas pelo trabalho. A sua relação com o mundo e com os outros é também de

  • de gáudio,
  • de gratidão,
  • de criação
  • e contemplação.

O Homem não se esgota na produção e destrói-se quando vive apenas para sobreviver. Pelo contrário, sobrevive para viver e nesse viver estão

  • o trabalho e também a festa,
  • o gratuito,
  • a alegria genuína de ser si mesmo com os outros,
  • o inútil do ponto de vista da produção

– escreveu George Steiner, que também escreveu sobre a música, inseparável do sentimento religioso e que nos torna vizinhos do transcendente: “Ela foi durante muito tempo, continua a ser hoje, a teologia não escrita dos que não têm ou recusam qualquer crença formal.”

Isto diz-se na palavra férias, quando se considera o seu étimo: a palavra latina feria, no plural feriae, tinha o sentido de “descanso, repouso, paz, dias de festa”.

A Bíblia também tem o mandamento de Deus de um dia de descanso semanal e de festa, dia santo sem trabalho, para que o Homem fizesse a experiência de que não é besta de carga, mas um ser festivo. Tem de trabalhar – e duro -, mas não é uma besta de carga.

Se se pensar bem, as férias, como aliás um dia feriado, não têm como finalidade última um intervalo no trabalho em ordem a repor as forças, para poder voltar a trabalhar e mais. As férias e um dia feriado têm a sua finalidade em si mesmos: a experiência, repito, de que o ser humano é um ser festivo.

É preciso voltar às alegrias simples:

  • a alegria do estar juntos em família e com os amigos
  • e também a alegria de estar só para saber de si no milagre da existência, contemplar uma gota de água numa folha de erva, acolher o perfume de uma rosa, que dá perfume sem porquê, como escreveu o místico Angelus Silesius.
  • Ler poesia e escutá-la.
  • Ler a grande literatura, que diz as nossas possibilidades.
  • Ouvir música, a música que é o divino no mundo e nos remete para origens imemoriais e para a transcendência, lá, para lá, onde nunca propriamente estivemos, mas é para lá que queremos ir morar para sempre…
  • Exaltar-se com o mistério de qualquer rosto humano no seu olhar, o olhar que é alguém vir e mostrar-se à janela de si mesmo.
  • Apanhar sol na praia, no campo, na montanha e ver nascer o Sol e pôr-se (ah, e se ele nunca mais voltasse?!) e contemplar o alfobre das estrelas (o que na cidade não se vê).
  • E ter tempo para ouvir o silêncio e descer ao mais fundo de si, lá onde verdadeiramente somos nós.
  • E perceber que é possível e necessário emendar tanta coisa e ir mais longe, sempre mais longe na honra e na dignidade.
  • E, se se for fora, encontrar-se na autenticidade com culturas outras e diferentes modos de também se ser humano.
  • E vir mais rico em humanidade e horizontes novos.

Boas férias!

 

 

Anselmo Borges

Fonte: http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/anselmo-borges/interior/trabalho-e-ferias-8669313.html

 

 

 

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