Paulo tem muito a nos dizer hoje

Resumo da palestra do historiador Eduardo Hoornaert proferida durante o XVIII Encontro Nacional das Famílias dos Padres Casados, na Casa de Retiro Dom Luís Mousinho, em Brodowski, São Paulo.

Por Eduardo Hoornaert

Nos anos 40, quando o movimento de Jesus tinha apenas dez anos, os militantes cristãos de fala grega tiveram de fugir de Jerusalém após a morte de Estêvão, já que estavam ameaçados de morte por parte da linha dura do judaísmo. Eles procuraram refúgio em Antioquia da Síria, a terceira cidade do império romano, uma metrópole de intensa vida política, militar, comercial e cultural. Mas o grupo de Jerusalém, de fala aramaica, liderado por Tiago (irmão de Jesus), Pedro e João, começou a desconfiar que os ‘gregos’ de Antioquia estivessem formando núcleos, desrespeitando leis judaicas, sobretudo a circuncisão, a proibição de comer comidas ‘pagãs’ e o jejum regulamentado, sob a alegação de que esses costumes não seriam bem aceitos por pessoas de cultura grega. Efetivamente, esses ‘gregos’ adaptavam de forma natural a vida do movimento ao modo de ser de não-judeus. Estavam convencidos de seguir uma intuição do próprio Jesus, pois não poucos dentre eles tinham conhecimento do pensamento do líder galileu por ouvir falar nele ou, talvez, por ter estado com ele na Galiléia (embora a distância entre a Galiléia e Antioquia seja muito grande). Horrorizados, os líderes de Jerusalém mandaram Barnabé, um levita de Chipre, observar a situação ‘in loco’. Chegando a Antioquia, por volta de 45, Barnabé encontrou Paulo de Tarso, um fariseu recentemente convertido ao movimento de Jesus, que o convenceu de que seguir ou não seguir os ritos judeus não tinha nenhuma importância. Importante mesmo era compreender e, principalmente, ajudar a construir o projeto de Jesus. Falando assim, Paulo estava apenas confirmando uma intuição que já estava amadurecida na mente de diversos militantes em Antioquia: ‘A mensagem de Jesus é para todos os seres humanos’. Formou-se uma equipe, composta de Barnabé, Timóteo e Paulo, que empreendeu a missão da Macedônia (Tessalônica). Com o tempo, ela se perfilou como a ala progressista do movimento de Jesus (a ala grega), em contraponto ao grupo aramaico de Jerusalém. A vitória da ala grega se patenteia no fato de que todos os escritos do Novo Testamento chegaram até nós em grego, enquanto nenhum escrito aramaico ficou preservado.

Hoje estamos em condição de compreender melhor a importância da postura profética do grupo antioqueno. Trata-se do primeiro agrupamento, na história da humanidade, que pensa em termos universais, acima de clausuras de raça, sexo, cultura, opção sexual, confissão religiosa, posição social. Paulo, a pessoa mais talentosa e competente do grupo, formula a idéia básica do grupo nas seguintes palavras: ‘Não há mais judeu nem grego, homem nem mulher, senhor nem escravo: todos (todas) somos um em Jesus’. Ele começou a escrever cartas a núcleos situados em Tessalônica, Corinto, na Galácia e em Roma, e nisso foi tão bem sucedido que suas quatro cartas principais (1Ts, 1Cor, Gl e Rm), escritas na década de 50, constituem os primeiros documentos, em termos de história da literatura mundial, de teor universal.

Paulo tem muito a nos dizer hoje, 2000 anos depois de escrever suas cartas. Pois elas apontam para um horizonte além do horizonte traçado pela Organização das Nações Unidas, criada em 1948. A humanidade de hoje ainda anda não alcançou o nível que Paulo. Ele não se dirige só à igreja cristã, mas à humanidade como um todo. Seus textos constituem um ‘patrimônio da humanidade’ a ser guardado e divulgado para as próximas gerações. Se ela compreendesse o que Jesus e Paulo disseram, a humanidade entenderia que a ‘Organização das Nações Unidas’ não tem mais sentido e instalaria logo um governo efetivamente planetário.

COMENTÁRIOS SOBRE PAULO

Eduardo Hoornaert.

Depois de minha fala sobre o apóstolo Paulo, no dia 17 de janeiro, no XVIII encontro da associação dos padres casados, houve sete intervenções que relato aqui brevemente por entender que elas enriqueceram a exposição. São pontos de partida para aprofundamentos no estudo de Paulo.

1. Para Luís Guerreiro, o pensamento de Paulo se encaixa na cultura farisaica do judaísmo vivido na época. Efetivamente, costumamos ter uma visão distorcida do farisaísmo, na época um movimento leigo de renovação do judaísmo. O movimento foi lamentavelmente manipulado pelas autoridades do templo (doutores da lei e sacerdotes), mas isso não impede que seja o movimento que deu formação a Paulo e lhe fornecia a base da sua interpretação das escrituras. Mesmo depois de ser chamado pelo ungido, Paulo permanece fariseu, ele se sente em casa no universo sinagogal é dentro desse universo que ele consegue introduzir o que se pode chamar de ‘sinagoga dissidente’, ou seja, um movimento que segue as orientações de Jesus de Nazaré.

2. Maria de Lourdes Lacroix nos apontou a diversidade de leituras das cartas de Paulo. Nós não lemos Paulo da mesma maneira em que os primeiros cristãos, mergulhados na cultura greco-romana e ao mesmo tempo imbuídos de judaísmo, ouviram ou leram suas palavras. Na longa história de dois mil anos de cristianismo apareceram diversas e divergentes maneiras de se ler essas cartas. Os mais influentes leitores de Paulo são Agostinho (século V), Lutero (século XVI) e Barth (século XX). Agostinho foi particularmente influente e muitos lêem Paulo, até hoje, usando seus ‘óculos’. Agostinho tem uma visão pessimista do ser humano, ele insiste no pecado, na culpabilidade, no sofrimento, uma visão corajosamente rejeitada por Joana Amaral no decorrer de nosso encontro, em sua fala sobre o hospital da retaguarda Francisco de Assis, em Ribeirão Preto. A leitura de Lutero visa desautorizar a exploração das devoções populares pela igreja católica (as indulgências). Insistindo no famoso dito paulino ‘o justo vive da fé’ (e não das ‘obras’ praticadas para render indulgências), Lutero procurou purificar a igreja católica, que infelizmente não demonstrou capacidade de aceitar suas críticas e o rejeitou violentamente. Barth, por sua vez, procura sintonizar as cartas de Paulo e a mentalidade moderna. Nós também podemos empreender nossa leitura de Paulo, voltada para a vida no mundo de hoje. Para tanto, nada melhor que voltar à leitura direta de seus textos, sobretudo a carta aos Gálatas, a primeira aos Coríntios e Romanos. Vale a pena ler essas cartas inteiramente e não só em trechos escolhidos!

3. Armando Holocheski abriu o horizonte para o tema do universalismo além do judaísmo. Efetivamente, Paulo não é o primeiro a escrever que somos todos e todas iguais. Movimentos universalistas sempre existiram na história da humanidade, mas foram também sempre hostilizados por movimentos tradicionalistas e/ou fundamentalistas. No antigo Egito dos faraós já havia movimentos universalistas, como nos impérios babilônicos e persas. Os judeus da diáspora eram particularmente sensíveis ao tema do universalismo, enquanto os judeus da terra-mãe tinham uma mentalidade mais fechada.

4. João da Silva Barros também apontou para o universalismo além do cristianismo. Paulo escreve para todo e qualquer ser humano, não só para cristãos. Não podemos seqüestrar Paulo dentro de nossas igrejas. Ele fala para todos os viventes neste planeta. Ele fala ‘fora dos muros’. Por isso, o movimento dos padres casados tem muito a aprender com ele.

5. Mauro de Queiroz nos lembrou oportunamente a ruptura praticada na interpretação do cristianismo por Constantino, no século IV. Não é possível entender os escritos de Paulo dentro de uma mentalidade constantiniana. A mentalidade constantiniana é imperialista, conquistadora, dominadora, imbuída de desprezo pelas culturas dos povos submetidos e Paulo é o contrário de tudo isso. O cristianismo formou, ao longo dos séculos, dois impérios: o bizantino, centrado em Bizâncio (origem em 313), e o católico, centrado em Roma (origem na segunda parte do século XI, após a ruptura com Bizâncio). Paulo é anterior à formação desses dois impérios e, por conseguinte, suas cartas não cabem dentro do modo de pensar do imperialismo cristão.

6. Sofia Tavares desenvolveu o mesmo pensamento. Ela lembrou que ainda estamos dentro do império católico, nossa maneira de nos organizar em igreja ainda têm muito a ver com os modos imperialistas que reinaram por tantos séculos. É uma tarefa de cada dia reagir contra essas maneiras de se reunir em igreja e inventar uma nova maneira de ser igreja. Nessa perspectiva, a leitura das cartas de Paulo pode ser benéfica, pois provoca uma reviravolta em nossa maneira de pensar igreja.

7. Do alto de seus 86 anos, Áureo Kaniski concluiu os comentários de forma extraordinária. Com sua excepcional capacidade de dizer muito em poucas palavras (demonstrada em três livros publicados por ele, respectivamente em 2002, 2007 e 2008), ele disse que – em sua opinião – o texto mais importante da bíblia é Atos dos Apóstolos 10, 34-35, onde Pedro declara: Em verdade, eu compreendo que Deus é imparcial e que toda nação que o teme e pratica a justiça lhe é cara. Deus imparcial, nem católico nem anglicano, nem cristão nem islamita, nem judeu nem budista, que está no catimbó, no candomblé, na missa católica e no culto protestante, um Deus que abraça a humanidade toda. Não se podia resumir melhor o pensamento universalista de Paulo apóstolo.

4 comments to Paulo tem muito a nos dizer hoje

  • beatriz araujo - bh

    Amigo Hoornaert
    Cumprimentos
    No encontro fui eu que lhe falei que gostaria de ter colocado a seguinte questão na tribuna livre: se Pedro defendia as mulheres, como se justifica sua fala em todos as celebrações de casamento cristãs, na qual a mulher deve ser submissa ao marido porque o marido é a cabeça da mulher? Conseqüências muito nefastas esta fala tem acarretado. Vou citas apenas dois dos muitos exemplos que presenciei:
    1°) Uma mãe, de escolaridade superior, educadora, por ser muito católica leva à “risca” o que a Santa Madre Igreja manda. Esta mãe, certa vez, em minha presença, zangava com sua filhinha de 4 anos de idade, dizendo: respeite seu primo (da mesma idade dela) pois ele é homem!
    Que ridículo! custei a acreditar no que via e escutava…
    2°) Há pouco tempo fui a um casamento numa igreja protestante onde o pastor justificava de todas as maneiras que a mulher tinha de obedecer ao marido. Minha filha, jovem, ficou escandalizada com o pastor!
    E tantas coisas mais, tantos casamentos estragados, cujos cônjuges não puderam crescer como pessoas, por causa desta fala ridícula que continuam insistindo em ler nos casamentos… E isto todo mundo ouve, todo mundo sabe, até mesmo quem só vai à igreja para assistir casamentos…
    Gostaria que o Senhor, como um grande estudioso, dissesse alguma coisa a esse respeito. Pois não posso me conformar com este texto de Paulo colocado em destaque nos casamentos. Em meu entendimento, só posso entender esta fala como Paulo sendo um grande machista falando para um pequeno povoado também machista. Antecipadamente agradecida, Beatriz – BH

  • Junior

    Normalmente, nenhum pensamento é produzido descontextualizado. Por mais que admiremos os textos atribuídos a São Paulo, o fato é que, apesar de seu valor para a cristandade, era um homem em um ambiente religioso e social fortemente marcado pelo machismo, e isto escapa, não raras vezes, em seus escritos. A inspiração divina que cremos que levaram os vários autores bíblicos a escreverem seus textos, tem mais a ver com motivação e iluminação, não podendo ser confundida com cada frase nela contida. Assim, certamente posturas como a que você se referiu, Beatriz, e outras mais, revelam a personalidade de caráter patriarcal presente no judaísmo e da qual Paulo não se libertou. O fato de o termos como um “santo”, não significa que tudo o que ele fez, falou e escreveu, mesmo depois de sua conversão, reflitam a “vontade de Deus.” Desse modo, o melhor mesmo seria a exclusão da leitura que você mencionou das celebrações do matrimônio. Contudo, quem manda na Igreja são homens — e celibatários. Quem sabe virá o dia que todos sonhamos em que padres casados e mulheres ordenadas poderão reverter essa discriminação e preconceitos tão ativos em nossa Igreja!

  • Célia

    “uma intuição que já estava amadurecida na mente de diversos militantes em Antioquia: ”
    “Se ela compreendesse o que Jesus e Paulo disseram, a humanidade entenderia que a ‘Organização das Nações Unidas’ não tem mais sentido e instalaria logo um governo efetivamente planetário.”
    Lendo esse artigo ,imagino esse senhor Eduardo, um ativo “militante” do PT, pois as palavras que usa são de militantes revolucionarios de esquerda,
    Parece até um LULA discursando na ONU!Por isso Esse senhor também deve ser um catolico à sua propria maneira!
    A Igreja tão sonhada por este senhor ja existe,pois CATOLICA significa UNIVERSAL,
    E quem entende a missão de Paulo sob a otica da: “Estavam convencidos de seguir uma intuição do próprio Jesus, pois não poucos dentre eles tinham conhecimento do pensamento do líder galileu por ouvir falar nele “, então ser Catolico é tæo somente seguir a sua intuição,(nada de assistencia do Espirito Santo,afirmada por Cristo!)A Igreja so deveria seguir intuições!E delas o inferno esta cheio!
    Quem não entendeu que o reino de Jesus não é deste mundo ,e não se preocupa, nem um tantinho ,com a salvação da alma, fica sonhando com governos terrestres liderados por homens falhos e pecadores,com um paraiso aqui na terra, com promessas de governos que acenam com a bandeira do SOCIALISMO,como se tivesse dado certo em algum lugar do planeta!
    A Igreja que Cristo fundou sobre Pedro”:Tu és pedra e sobre…”Com a assistencia do Espirito Santo,caminha e milita sim, mas rumo ao céu!Por isso tantos Santos arrastam multidões , não pelos seus discursos intuitivos, mas pelo testemunho de obediencia e serviço à Igreja.Talves a vida destes santos seja um despedicio para os senhores onde ,ja se viu tanta obediencia assim?Até parecem as mulheres, que Paulo exorta ,para que obedeçam aos seus maridos! Uma afronta , uma discriminação sem tamanho!
    Esses Santos sem duvida foram muito discriminados,e essa vida de humilhação tinha que ter um basta!Afinal, Jesus,o unico Mestre, jamais deixou-se humilhar ,não é mesmo?Então ,vamos seguir o Mestre!!

  • Conheci Eduardo Honaert em Fortaleza, na década de 80, ainda quando era estudante de História da UECE.
    Além da alegria de encontrá-lo pela web, fiquei muito encantado com o seu texto sobre o apóstolo Paulo.
    Não tinha pensado em Paulo nesta dimensão política e sim apenas em relação á Igreja.
    Seu texto me enriqueceu mais em relação à epistola de São paulo.

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