Spadaro e Figueroa: nos EUA há o risco de um ‘ecumenismo do ódio’

“Com base nos valores do fundamentalismo, está se desenvolvendo uma estranha forma de surpreendente ecumenismo entre fundamentalistas evangélicos e integralistas católicos, compartilhando o mesmo desejo de exercer uma influência religiosa sobre a dimensão política”. Num artigo*com dupla autoria, o diretor de ‘La Civilta Cattolica’, o jesuíta Antonio Spadaro, e o diretor da edição argentina de ‘L’Osservatore Romano’, o protestante Marcelo Figueroa, focalizam o risco, registrado principalmente nos Estados Unidos de Donald Trump, de um ‘ ecumenismo do ódio’ incompatível com a visão do Papa Francisco.

O fundamentalismo cristão tem origem numa corrente de pensamento do início do século passado e tem algumas características específicas. Ele demoniza os inimigos e adota uma visão de maniqueísmo político – escrevem os dois autores num artigo que aparecerá no próximo  número da revista quinzenal dos jesuítas, salientando por exemplo que “o Presidente Trump dirige a sua luta contra uma entidade coletiva genericamente ampla, a dos  ‘maus’ (bad) ou também dos ‘muito maus’ (very bad)”e sublinhando que a visão teopolítica do fundamentalismo cristão promovida entre outros pelo pastor Rousas John Rushdoony (1916-2001) alimenta o pensamento de personalidades como Steve Bannon, atual estrategista-chefe da Casa Branca.

O fundamentalismo cristão defende, além disso, uma a ‘teologia da prosperidade’; e “uma figura importante que inspirou presidentes como Richard Nixon, Ronald Reagan e Donald Trump, é o pastor Norman Vincent Peale (1898-1993), que oficiou o primeiro casamento do atual presidente e o funeral dos seus pais”. E, por fim, este pensamento teológico e político promove uma forma particular de proclamação da defesa da liberdade religiosa: “A erosão da liberdade religiosa é claramente uma grave ameaça dentro de um secularismo avassalador. Mas é necessário evitar que a sua defesa ocorra no ritmo dos fundamentalistas da “religião em liberdade”, percebida como um potencial desafio direto à laicidade do Estado“.

A partir destas premissas, precisamente, está surgindo uma “forma estranha de surpreendente ecumenismo entre fundamentalistas evangélicos e integralistas católicos” – escrevem Spadaro e Figueroa. “Alguns que se dizem católicos expressam-se às vezes de formas até recentemente desconhecidas na sua tradição e muito mais próximas ao estilo dos evangélicos. Em termos de atração de massa eleitoral, estes eleitores são definidos como ‘value voters1. O universo de convergência ecumênica entre setores que, paradoxalmente, são concorrentes em termos de filiação religiosa, está bem definido. Esta união por  objetivos comuns acontece ao nível de temas como o aborto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo,  o ensino religioso nas escolas e outras questões consideradas genericamente morais ou ligadas a valores. Tanto os evangélicos quanto os  católicos integralistas condenam o ecumenismo tradicional, e no entanto promovem um ecumenismo do conflito que os une no sonho nostálgico de um Estado com traços teocráticos. O cenário mais perigoso deste estranho ecumenismo pode ser atribuído à sua visão xenófoba e islamofóbica, que evoca muros e deportações purificadoras“.

 “A palavra ‘ecumenismo’ – enfatiza o artigo, intitulado ‘Fondamentalismo evangelicale e integralismo cattolico’ – traduz-se assim num paradoxo, num ‘ecumenismo de ódio’. A intolerância é marca celestial de purismo, o reducionismo é metodologia exegética, e o ultra-literalismo é a sua chave hermenêutica“. Fica clara – continuam Spadaro e Figueroa – “a enorme diferença entre estes conceitos e o ecumenismo encorajado pelo Papa Francisco com diversos referenciais cristãos e de outras denominações religiosas, que se move na linha de inclusão, da paz, do encontro e das pontes. Este fenômeno de ecumenismos opostos, com percepções contrapostas da fé e visões do mundo em que as religiões desempenham papéis irreconciliáveis, é talvez o aspeto mais desconhecido e ao mesmo tempo mais dramático da difusão do fundamentalismo integralista. É neste nível que se compreende o significado histórico do empenho do Pontífice contra os ‘muros’ e contra todas as formas de ‘guerra de religião’”.

E, mais em geral, se realidades como o website ‘Church militant’ incentivam o presidente Trump a ser o novo ‘Constantino’, “hoje mais do que nunca é preciso despojar o poder dos seus pomposos trajes confessionais, das suas couraças, das suas armaduras enferrujadas. O esquema teopolítico fundamentalista quer instaurar o reino de uma divindade aqui e agora. E obviamente a divindade é a projeção ideal do poder constituído. Esta visão gera a ideologia da conquista. Ao contrário o esquema teopolítico autenticamente cristão é escatológico, ou seja, olha para o futuro e pretende direcionar a história atual para o Reino de Deus, reino de justiça e de paz. Esta visão gera o processo de integração que se desenvolve com uma diplomacia que não coroa ninguém como “homem da Providência.” E é também por isso que a diplomacia da Santa Sé deseja estabelecer relações diretas, fluidas, com as superpotências, mas sem entrar em redes de alianças e de influências pré-constituídas. Neste contexto, o Papa não quer ser contra ou a favor porque sabe que na raiz dos conflitos há sempre uma luta de poder. Por isso, não se pode imaginar um ‘alinhamento’ por razões morais ou, pior ainda, espirituais“.

O Papa Francisco – é esta a conclusão do artigo – “está desenvolvendo uma contra-narrativa sistemática em relação à narrativa do medo. É preciso portanto lutar contra a manipulação desta época de ansiedade e de insegurança. E é também por isto que, corajosamente, Francisco não dá legitimidade teológico-política alguma a terroristas, evitando qualquer redução do Islã ao terrorismo islâmico. Nem a dá sequer aos que postulam e querem uma ‘guerra santa’ ou que constroem  cercas de arame farpado. De fato, para o cristão, o único arame farpado é o da coroa de espinhos que Cristo tem na sua cabeça“.

http://www.lastampa.it/2017/07/13/vaticaninsider/ita/vaticano/spadaro-e-figueroa-in-usa-il-rischio-di-un-ecumenismo-dellodio-Z5uBXgJndNJ3sbaXTAYZZO/pagina.html

1Value voter’ –  Quem participa de eleições e toma decisões com base em questões como a religião, o aborto, a pena de morte e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. [Fonte: Wikidictionary].

Artigo com dupla autoria do diretor de Civiltà Cattolica e do diretor protestante da edição argentina de L’Osservatore Romano: o fundamentalismo, Trump,  Papa Francisco

*Confira ao artigo original:

FONDAMENTALISMO EVANGELICALE E INTEGRALISMO CATTOLICO

Un sorprendente ecumenismo

Antonio Spadaro – Marcelo Figueroa

http://www.laciviltacattolica.it/articolo/fondamentalismo-evangelicale-e-integralismo-cattolico/

 

 

 

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