“O que está acontecendo no Brasil é uma profunda crise ética”

Não podemos desesperar-nos nem ser pessimistas, diz o Bispo de Balsas

A Palavra de Deus oferece-nos elementos para acreditar numa saída para a crise moral, ética e até mesmo ambiental e ecológica

A Igreja Católica tornou-se no Brasil um dos principais contrapontos às políticas do governo Temer. Constantemente, são muitos os bispos brasileiros, inclusive o próprio Presidente do episcopado, que se mostram claramente contrários às medidas que vão contra os direitos adquiridos durante trinta anos de vida democrática.

Junto com os bispos, as Pastorais Sociais participam desta atitude crítica. Uma desses pastorais é a Comissão Pastoral da Terra, cujo presidente, Dom Enemésio Lázzaris, nos ajuda nesta entrevista a aprofundar a realidade vivida pelo Brasil, mergulhado numa profunda crise ética e de valores, o que faz com que a população não encontre referências válidas.

O bispo de Balsas, no Maranhão, também faz uma reflexão sobre os últimos massacres de camponeses perpetrados nos últimos meses, sobre a situação da Amazônia e sobre o papel da REPAM, Rede Eclesial Pan- Amazônica, na defesa dos povos da região.

Em suas manifestações recentes, os bispos do Brasil mostram-se contrários às políticas do governo brasileiro. O que está acontecendo no Brasil?

O que está acontecendo no Brasil é uma profunda crise ética, uma crise de valores, o que faz com que a sociedade em geral não encontre as referências necessárias para achar um rumo, uma saída. A questão da corrupção, a preocupação consigo mesmos, a malversação do dinheiro público, que se dá em todos os níveis, a ponto de se poder dizer que é endêmica e generalizada, obriga-nos a entender e enfrentar esta realidade.

Não podemos comportar-nos de maneira simplista, pensar que é uma situação igual a outras que já aconteceram, porque esta é uma situação muito especial que requer a nossa atenção, na qual precisamos ir a fundo, conhecer.

Acho que nós, como líderes religiosos, como pastores, como bispos, como cristãos, como Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, precisamos ajudar as pessoas a descobrir uma saída desta situação, tanto economicamente como politicamente. Não podemos desesperar-nos nem ser pessimistas, porque a Palavra de Deus nos oferece elementos para acreditar numa saída e pata apontar caminhos para a superação desta crise moral, ética e até mesmo ambiental e ecológica, pois o meio ambiente está comprometido neste momento.

Nos últimos meses, ocorreram dois massacres de camponeses que tiveram bastante repercussão na opinião pública. Como Presidente da Comissão Pastoral da Terra, que acompanha estas realidades, que reação lhe desperta como cristão e como bispo?

Em 35 dias foram assassinadas 25 pessoas. Os massacres de Colniza, no Mato Grosso, e de Pau-d’arco, no Pará, levam-nos a pensar mais uma vez na questão agrária, da terra mal repartida. Há uma ânsia de acumular terra, há um incentivo do governo para que o agronegócio e os latifúndios aumentem cada vez mais, para que cada vez menos pessoas tenham mais terra.

O aumento dos conflitos e da violência ocorre sempre em tempos de incerteza. Quando Lula começou seu governo em 2003, e desde o ano passado com a atual instabilidade política e econômica, quem está na base organiza-se e reage da maneira que pode, pois o centro das atenções está em Brasília e o povo está condenado à sua própria sorte.

Diante disso os grandes projetos do agronegócio vão se armando, inclusive com milícias armadas, para poder atacar os que estão defendendo um pedaço de terra. É uma questão realmente dolorosa, lamentável. Se o sistema judiciário e o Estado não ficarem mais próximos e se deixarem que a impunidade continue, estes ataques, estes massacres vão continuar acontecendo.

Como é a relação da Comissão Pastoral da Terra com os movimentos sociais?

A Comissão Pastoral da Terra sempre teve um bom relacionamento com o Movimento dos Sem Terra, há entidades e parceiros com os quais temos uma colaboração mais direta e efetiva. Por exemplo, com a Via Campesina, a CPT tem uma ligação muito forte. Temos feito algumas ações conjuntas como demonstrações, o lançamento do Relatório dos conflitos no campo, no ano passado. Embora cada um tenha a sua missão, a sua própria linha, a sua atividade típica, o relacionamento é bom.

A Comissão Pastoral da Terra sente-se perseguida pelo poder político e econômico?

Até agora, nos oito anos em que estou no CPT, eu nunca tive nenhum problema com relação a perseguições ou ameaças. Mas há companheiros e companheiras em vários Estados, Pará, Maranhão, Rondônia, ativistas de direitos humanos, especialmente defensores dos Direitos Humanos dos pequenos proprietários de terra, da gente do campo, que são ameaçados de morte e que, graças a um projeto financiado pela Misereor, estão recebendo proteção.

O Papa Francisco fala sobre os “três T”, terra, teto e trabalho. Se a terra fosse mais repartida, isso contribuiria para uma melhor preservação da Casa Comum?

Sem dúvida, a terra mais repartida e não vista como uma mercadoria faria com que houvesse menos conflitos no campo brasileiro e uma produção mais ecológica, mais abundante, e uma agricultura familiar mais desenvolvida.

A impressão que se tem é que o Estado estimula muito o agronegócio, os grandes projetos, a produção em larga escala, e que pretende acabar com a agricultura familiar e com a distribuição justa da terra. [A nossa] é uma luta para que esta terra seja realmente de todos e não fique cada vez mais concentrada nas mãos de poucos.

Um problema que se está agravando especialmente na região amazônica e que nos leva a pensar qual será o futuro do Planeta se um dos seus pulmões está sendo cada vez mais devastado. O ser humano não pode viver sem pulmões, nenhum animal vive sem pulmões. Sem o pulmão verde da Amazônia, o ser humano está acelerando o seu próprio fim. Se não cuidarmos da Casa Comum, da Terra, da Natureza, para preservar o que temos, estaremos antecipando o fim da vida no Planeta.

São necessárias medidas muito rígidas para deter o desmatamento, os incêndios provocados. É preciso ter consciência de que, se não se para com isso, todos os tipos de vida que existem na Terra vão acabar.

A Igreja Católica criou a Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM) para trabalhar na conscientização sobre os cuidados com a Casa Comum e com a vida na Amazônia.

Como é que a REPAM pode ajudar nesse sentido e até que ponto ela é considerada importante dentro da própria Igreja Católica?

A REPAM foi criada conjuntamente por todos os países que compõem a Amazônia Continental, a Amazônia legal, em setembro de 2014, a partir de um pedido do Papa Francisco, pouco antes da Laudato Sí, mas poderíamos dizer que é um fruto desta encíclica sobre o cuidado com a Casa Comum.

Já estão sendo realizadas coisas muito interessantes. Em todos os nove Estados que fazem parte da Amazônia brasileira foram organizados seminários sobre a Laudato Sí, sobre o cuidado com a Casa Comum e já estão sendo organizados os pós-seminários.

A REPAM surge como uma entidade que engloba todas as Pastorais Sociais, todos os grupos e movimentos da Amazônia Legal, da Amazônia Continental, não apenas para defender o meio ambiente, a natureza, a floresta, a água… pois a REPAM quer ser principalmente uma força dos povos, para garantir a vida dos povos  que vivem na região, os povos originais, indígenas, as comunidades de descendentes  de escravos, os ribeirinhos, os coletores …

A REPAM quer dar continuidade ao que a Comissão Pastoral da Terra e o Conselho Indigenista Missionário já estão fazendo, querendo somar uma nova força para poder articular-se e fazer mais pelo clima, pelo território, pelas pessoas.

Enemésio Lazzaris: “Como bispos, precisamos ajudar as pessoas a encontrar um caminho para sair desta crise”

Dom Enemésio Lazzaris, bispo de Balsas, Brasil                       Agência Brasil

Luis Miguel Modino (correspondente no Brasil)- 9 de julho, 2017, 19:34

http://www.periodistadigital.com/religion/america/2017/07/09/religion-iglesia-brasil-monsenor-enemesio-lazzaris-como-obispos-es-necesario-ayudar-a-la-gente-a-encontrar-una-salida-para-esta-crisis.shtml

 

 

 

 

 

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>