As Feridas abertas do Sudão do Sul

UMA HISTÓRIA CONTADA AO LONGO  DE CINCO ANOS

Fabio Bucciarelli 

Tradução: Orlando Almeida

A última vez que estive no Sudão do Sul foi em 2014. Desde então passaram-se três anos, um tempo relativamente curto, mas  suficiente para mudar os equilíbrios e as ilusões de um novo Estado.

Desde então, não parei de acompanhar as intrincadas dinâmicas política nacional do país, de lembraras esperanças encontrados e fé do povo num futuro democrático.

Eu pensava como estariam as pessoas que eu havia conhecido e o que teria acontecido com os milhares de migrantes acampados em Mingkaman, nas margens do grande Nilo Branco.

 

Durante este tempo, as fotografias tiradas tornaram-se a minha memória histórica. Vi-as e revi-as para lembrar a dor vivida por um povo; para não esquecer a cor vermelha de sangue da terra e as feridas de uma guerra mantida ignorada. Eu estava de certa maneira convencido de que revivendo o passado, poderia entender cada vez mais um pouco do que estava acontecendo.

Para não quebrar este fio imaginário que me ligava aoa País, procurei manter a comunicação com as pessoas conhecidas, mas não era suficiente. Nos últimos meses as notícias que vinham do Sudão do Sul mostravam de forma clara a ruptura definitiva de uma esperança de renascimento.

Por várias vezes quis retornar ao Sudão mas por questões logísticas ou pessoais não consegui, até abril de  2017 quando, com o apoio logístico do CCM (Comité de  Colaboração Médica) viajei por cerca de três semanas no País para documentar a situação humanitária e continuar o projeto iniciado em 2012 sobre a identidade do novo Estado Africano.

O MAPA

O Sudão do Sul tem entre 12 e 13 milhões de habitantes que vivem principalmente nas áreas rurais. Há mais de 60 grupos étnicos: os principais são os Dinka (cerca de um milhão), os Shilluk, os Nuer, os Acholi e os Lotuhu

A HISTÓRIA

Em 2005, após 22 anos de guerra, terminou o segundo conflito sudanês, uma das mais longas guerras civis da África, entre o norte e o sul do País, que convulsionou a região, causando quase 2 milhões de vítimas e deixando várias zonas de sombra [em litígio] entre os dois Estados, especialmente ao longo das novas fronteiras ricas em jazidas de petróleo.

Após cinco anos de estabilização e de tratados, em 9 de julho de 2011, com um referendo votado por uma esmagadora maioria, o Sudão do Sul ganhou a sua independência de Cartum e, tendo Juba como capital, começou o longo caminho para a criação de uma nova identidade nacional.

O 54º País africano e o 193º membro da Organização das Nações Unidas, no primeiro ano após a sua independência, viveu dias de esperança baseada na ideia do crescimento econômico e social. Lembro como em 2012, o desenvolvimento e a confiança numa forma de governo democrático, contribuíram para formar o espírito nacional de união entre as diferentes etnias do País. Uma expectativa que se desvaneceu em poucos meses, deixando população diante de um novo conflito interno.

Com as feridas de décadas de guerra ainda não curadas, em 2013 as disputas políticas pelo controle do Sudão do Sul entre o Presidente Salva Kiir da etnia Dinka, e o seu vice Machar, de etnia Nuer, arrastaram o País para uma sangrenta guerra fratricida: a luta política tornou-se rapidamente um conflito étnico e tribal. Os rebeldes liderados por Machar começaram a organizar-se, a recrutar e a criar uma revolução no norte do País, com o fim de marchar sobre Juba para derrubar o governo e propor uma nova liderança.

A guerra civil, primeiro disseminada nos estados do norte e do leste, alastrou-se rapidamente por todo o Sudão do Sul deixando o País à beira do abismo. Segundo as agências humanitárias internacionais, a espiral de violência desencadeada causou graves violações e abusos dos direitos humanos, forçando mais de 3,5 milhões de pessoas a abandonar as suas casas.

O Sudão do Sul acordou de décadas de guerra para sentir o vento de liberdade trazido pela independência, para logo recair no mais violento dos conflitos, o civil.

VIAGEM A UM PAÍS INACCESSÍVEL

Depois de várias tentativas de solicitação das autorizações necessárias, eu quase tinha perdido as esperanças de conseguir voltar ao Sudão do Sul. Só lá pelos meados de abril, após dois meses extenuantes de espera, é que recebi uma chamada: “O teu visto está pronto, será enviado dentro de alguns dias”.

Em comparação com as últimas viagens, a segurança mudou e as emboscadas, devido aos confrontos generalizados nas diversas regiões, aumentaram complicando os deslocamentos pelas estradas do interior.  Desde o início do ano, foram muitos ataques sofridos e muitas as vítimas registradas pelas organizações humanitárias que trabalham em campo.

Então o modo mais seguro para deslocamentos no País continua a ser por via aérea, em aviões fretados ou em pequenos helicópteros. A ONU e o Programa Alimentar Mundial (PAM) fizeram um consórcio para o transporte aéreo interno do Sudão do Sul tornando-se os verdadeiros líderes do mercado.

O aeroporto internacional de Juba é um canteiro de obras ao lado do velho galpão agora em desuso. Por enquanto foi instalada uma tenda grande, verdadeira estufa que aumenta ainda mais os quarenta graus da temperatura externa, onde para não afundar na lama deixada pela última chuva, é preciso saltar de uma prancha de madeira para outra para chegar à saída.

À primeira vista, a cidade não parece ter mudado, os pequenos edifícios de alvenaria continuam a alternar-se com as cabanas, mais numerosas, construídas sobre chão batido entre as ruas transitáveis apenas com um carro 4×4. O que mudou é o número de soldados amontoados em caminhonetes militares com fuzil automático no braço: de dia veem-se ziguezagueando pelas ruas e quando o sol vai embora, lotando os cafés da cidade.

Espalhados por toda a parte pelo Presidente para controlar capilarmente a cidade, em Juba encontram-se soldados de todo o tipo: soldados do SPLA (Sudan People’s Liberation Army – Exército de Libertação do Povo do Sudão), reconhecíveis pelas suas armas e pelos uniformes militares verdes ou camuflados: às vezes com a cabeça coberta, sabem que são os que gozam de maior poder e respeito. Depois há a polícia de uniforme azul, a rodoviária de branco, os serviços secretos e a polícia civil.

Em Juba sentimos que somos observados continuamente: estamos na casa deles.

Não tendo as licenças necessárias para trabalhar junto com os militares e por causa de uma restrição sem precedentes à mídia, decidi deixar a capital para ir até às aldeias mais remotas do País, para encontrar a identidade esquecida, para falar com as pessoas e viver os seus costumes. Para documentar as condições humanitárias e sanitárias, consequências de uma guerra que se tornou crônica.

Durante os últimos meses, no Ocidente falou-se de epidemias e carestias que atingiram vários países africanos, entre os quais o Sudão do Sul e a Etiópia. Mas com a maioria dos olhares focalizados no Oriente Médio e na guerra contra o ISIS, a realidade do Sudão continua a ficar fora dos interesses da mídia internacional.

O CAMPO DE MINGKAMAN

AS IMAGENS SEGUINTES PODERIAM FERIR A SENSIBILIDADE DO LEITOR

 

Voltar para Mingkaman, é como voltar no tempo: as memórias misturam-se com a realidade e dão vida a uma nova visão. Uma rua longa com algumas cabanas aos lados, depois uma bifurcação; de um lado vai-se para as margens do grande Nilo Branco, do outro para o mercado, o coração pulsante do País africano. Cubículos apertados uns com os outros, as mesmas mercadorias à venda com preços  já fora do alcance da maioria da população. A dificuldade de encontrar a comida e a falta de dinheiro para comprá-la estão entre as causas da desnutrição e da fome que se alastra.

Em 2014, depois de ter atravessado o Nilo para escapar dos confrontos de Bor entre os rebeldes e o exército regular, os deslocados internos (IDP- Internal Displaced People) aglomeravam-se na planície de Mingkaman; agora, os que ficaram confundem-se com a comunidade local, cada vez mais pobre. Muitos abandonaram as tendas para viver em cabanas improvisadas à margem do rio. Paradoxalmente, hoje esses parecem ser os mais afortunados, incluídos nos programas de distribuição de alimentos administrados pelo Programa Mundial de Alimentos.

Durante os últimos meses, a área de Mingkaman foi elevada de território de “emergência”, para a fase sucessiva, a do “desenvolvimento”. Isto deveria representar uma melhoria na corrida humanitária da região, mas na prática os efeitos de uma guerra inacabada, a epidemia de cólera e a falta de alimentos, tornam a área altamente instável.

Os fundos internacionais para as missões nos Estados dos Lagos diminuíram, e, como consequência, muitas ONGs estão deixando a região, por não terem dinheiro suficiente para continuar os projetos em andamento.

A distribuiçãLa distribuzione di cibo
IDP nel tendone allestito da World Food Program dove viene distribuito il cibo secondo la nuova metodologia ’Cash&Voucher’, 29 Aprile 2017. La popolazione riceve degli scontrini che scambierà conrazioni di cibo al mercato del paese

 

 

Cash & Voucher program – Os IDP com os cartões pessoais recarregados, recebem o ticket que trocarão depois no mercado por comida, 29/04/2017. A nova operação Cash & Voucher, substituiu a distribuição direta de almimentos 

O transporte de doentes de cólera – Parentes trasportam num cobertor uma mulher vinda das zonas rurais, doente de cólera. 26/04/2017 

 

O CÓLERA-MORBO

Toca o celular de Rovena, gerente de projeto do CCM (Comitê de Colaboração Médica) no Estado dos Lagos, os seus olhos brilham e a sua voz torna-se mais agitada. “Pegamos a ambulância e vamos. Em uma hora e meia estamos lá”. Desliga, olha para mim e faz sinal de ir.

Estava falando com um seu colega de Awerial, que lhe comunicou a ocorrência de dois novos casos de cólera. Dado o alto risco de contágio e a falta de centros para o tratamento da doença, a maioria dos doentes é trazida para o hospital temporário especializado em Mingkaman.

Portanto tínhamos de, com a única ambulância disponível num raio de dezenas de quilômetros, percorrer as estradas vermelhas, pegar os doentes, colocá-los no carro e trazê-los para o hospital.

Infelizmente as estradas de terra não permitem andar rápido, e nem mesmo manter uma velocidade constante de 40 km/h; a terra, que dentro de poucos dias ficará intransitável devido às chuvas, agora está cheia de buracos. Para percorrer 60 km levam-se cerca de duas horas. Para ir e voltar com os pacientes, pelo menos três horas.

Até àquela hora, eu não sabia como era um corpo atacado por cólera. A televisão e os jornais raramente falam de epidemias em Países esquecidos, especialmente nos africanos; por isso, na minha imaginação, eu associava a doença às iconografias vistas nos livros de história da Itália de 1800.

 

A espera

Parentes e amigos de uma mulher doente de cólera esperam à sombra de uma árvore perto de Dor. A mulher foi carregada nos ombros por vários quilômetros até chegar ao aglomerado de barracos mais próximo para pedir ajuda, 26 de abril de 2017.

 

O cólera

Uma mulher com a doença do cólera é ajudada a entrar na ambulância que a transportará para o hospital especializado de Mingkaman para ser tratada, 26 de abril de 2017. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o ministério da Saúde do Sudão do Sul, desde o início da epidemia em junho de 2016, foram relatados 7.200 casos de cólera e 229 mortes. Muitas pessoas afetadas pela doença nas áreas mais remotas do País não foram classificadas.

 

Cólera e desnutrição

Uma criança que sofre de cólera e desnutrição na grande tenda do hospital temporário mantido pelo CCM perto da remota aldeia de Dor, 28 de abril de 2017.

O cólera esvazia a alma. O corpo, como abandonado, deixa um esqueleto coberto de pele. A força desaparece e não se consegue ficar em pé. Uma vez diagnosticado um caso de cólera, o doente deve ser hidratado imediatamente antes que os órgãos internos percam as suas funções vitais. A morte é uma questão de tempo, de algumas horas.

 

A MORTE DE MAKELELE

Chamava-se Makelele.

No Sudãodo Sul é difícil saber a idade das pessoas. Aqui o tempo é líquido, muitos não sabem quando nasceram. Os dias sucedem-se e o estilo de vida das comunidades remotas faz perder qualquer referência temporal do corpo, colocando-o diariamente à prova. As crianças depressa se tornam homens e os homens procuram sobreviver.

Makelele poderia ter de 35 a 50 anos, uma expectativa da vida não garantida para uma parte da população. Makelele era cristão, mas tinha duas mulheres. Apesar da fé cristã, as origens tribais e cultura ancestral prevalecem, com algumas poucas exceções.

Embora a ambulância tenha de fato percorrido rapidamente aquela maldita estrada, poucos minutos depois de chegar ao hospital, Makelele não sobreviveu.

Os médicos tentaram imediatamente hidratar o seu corpo, mas o processo de desidratação já estava muito adiantado. É loucura pensar que tudo está tão ligado ao destino, que, se a chamada tivesse sido feita antes, ou se as estradas estivessem mais transitáveis, talvez Makelele não tivesse morrido. Para uma pessoa nascida no Ocidente ou num país desenvolvido, a vida e a morte são duas condições da existência afastadas uma da outra. Temos isso como certo, não lutamos todos os dias para sobreviver, mas para viver melhor.

Mas a realidade do Sudão do Sul é diferente, aqui não há muita distância entre a vida e a morte.

 

 

Makelele

Makelele, doente terminal de cólera, na ambulância que o leva para o hospital especializado de Mingkaman, 26 de abril de 2017.

O momento da morte

Parentes choram a morte de Makelele no hospital de Mingkaman, 26 de abril de 2017.

 

 

 

Vítima do cólera

Uma das duas esposas de Makelele chora a sua morte no hospital especializado de Mingkaman, 26 de abril de 2017.

 

AS VIDAS DOS OUTROS

A condição das pessoas que vivem numa realidade de conflito contínuo define o desenvolvimento da coletividade e do indivíduo. As consequências da guerra, para um Estado com 50% da população vivendo em grande pobreza, são devastadoras. Os serviços sanitários e hospitalares, mantidos em grande parte em colaboração com as organizações não governamentais, não conseguem chegar a muitas zonas remotas, deixando uma parcela significativa da população sem atendimento primário. Devido à falta de infraestrutura e de estradas, deslocar-se por terra torna-se muito difícil. Com a epidemia de cólera, a fome e a malária endêmica – que a estação das chuvas vai piorar ainda mais – a condição humanitária está entrando em colapso.

Procurando restituir a dignidade que a guerra procura apagar, comecei a estudar com uma abordagem mais antropológica a identidade ligada à cultura secular do País.

Viajei pelas áreas remotas para documentar as tribos nômades, a sua vida na floresta ou ao longo das margens do grande Nilo Bianco, os eventos culturais e sociais e as funções religiosas dos diferentes credos cristãos.

O rio marca o ritmo do dia das pessoas que vivem nas suas margens: os habitantes lavam-se nas suas águas, urinam, lavam as suas roupas e as suas motocicletas, dessedentam as vacas e fazem batismos religiosos. Devido à grande crise hídrica também bebem a sua água, um método seguro para a transmissão do cólera.

 

 Vida quotidiana – Vida quotidiana ao longo das margens do Nilo Branco, Mingkaman, 30 de abril de 2017

 

Baptismo no rio Nilo – Pastores Cristãos Adventistas do Sétimo Dia batizam os fiéis no grande rio Nilo, 01 de maio de 2017.

 

Cattle Keeper (Vaqueiro) – Athel Gong (24), posando para um retrato no curral do gado perto de Dor, Estado dos Lagos, 02 de maio de 2017.

 

A escola – Estudantes durante o ‘first term exam’ na escola Den Nial Memorial High School, em Tonj, 5 de maio de 2017. De acordo com o Director Bith Chol Den (ex- guerrilheiro do SPLA), a escola foi fundada após a guerra contra o Sudão (do Norte) em 2005 para dar uma oportunidade de educação às crianças-soldados. Hoje a escola é frequentada seja por jovens da comunidade local seja por jovens ex-guerrilheiros.

 

A oração – Uma mulher reza durante um serviço religioso  de uma igreja Anglicana numa cabana em Mingkaman, 30 de abril de 2017.

 

Cattle Camp – O Cattle Camp perto de Mingkaman, 2 de maio de 2017. A sociedade sudanesa é predominantemente constituída por criadores de gado, em particular de bovinos e ovinos. As vacas são o centro da economia do País, meio de troca e de compra.

 

A CARESTIA

Deixando a província dos Lagos, volto de helicóptero para Juba, partindo no dia seguinte para Tonj, que não fica longe de Wau, a segunda maior cidade do país.

Nos últimos meses, Wau foi palco de confrontos entre os rebeldes escondidos na floresta vizinha e os guerrilheiros do SPLA. Cerca de três meses atrás, com a ajuda de uma parte da população contrária ao governo, os rebeldes entraram na cidade para controlar o importante entrocamento de estradas que levam à parte setentrional do País.

De acordo com os moradores locais entrevistados, os combates chegaram até ao centro da cidade: houve combates rua por rua e, não sem graves perdas e represálias étnicas até por parte do exército regular, os rebeldes foram derrotados e expulsos para longe da cidade.

Nômades e capazes de viver na floresta, os rebeldes estão se organizando para lançar um novo ataque. Por isso agora a estrada de Wau a Tonj está sob risco de emboscadas e para chegar à pequena aldeia, é preciso contornar a zona. Isto dobra o tempo que leva para chegar lá.

A própria floresta entre Wau e Tonj parece um grande círculo infernal. Lívida e despida de muitas das suas árvores, a paisagem parece grotesca e surreal. A pobreza extrema levou os habitantes da zona a cortar e queimar a maioria da vegetação para obter a madeira necessária para a construção das suas cabanas ou para fazer um pouco de carvão que vendem no mercado de Wau em troca de arroz. O desmatamento também está se tornando um problema crescente no Sudão do Sul.

Depois de horas ao volante, chego a Tonj, onde encontro Francesca, a única estrangeira branca da zona, ela também uma gerente de projeto da CCM.

O hospital Civil de Tonj, como muitos outros no País, está longe da ideia que temos de uma unidade de saúde. É antes de tudo um lugar de encontro, como a praça da aldeia. Homens, mulheres, militares e policiais encontram-se no pátio do hospital para falar e contar uns aos outros as últimas notícias. Para o jornalista torna-se também um ponto de referência para obter informações recentes sobre o conflito e sobre a evolução da situação humanitária na área.

É um dos centros de saúde mantidos pelo Ministério local em colaboração com a ONG, e tem uma ala dedicada à desnutrição infantil. Só os pacientes considerados graves são hospitalizados, enquanto os outros, após a visita da manhã, voltam para as suas cabanas.

Há poucos leitos e todos estão ocupados. O ambiente é pobre, alguns lençóis amarrotados e copos de plástico colorido. O quarto tem mosquiteiros azuis pendurados sobre as camas de campanha, mas permanece escuro mesmo durante o dia.

Uma mulher desperta a minha atenção. Parece uma ‘madonna’ com os olhos meio fechados e tendo no braço o seu bebê, esquelético, vestindo apenas uma blusinha amarrotada. Magríssima, com rugas profundas nas pernas, Adut tem olhos enormes, absortos, que observam tudo o que acontece ao seu redor. Extremamente vivos, parecem os de um homem consciente da pobreza e do desespero à sua volta. Parecem olhos que já viveram esta realidade. No outro lado do quarto a enfermeira conta-me a história de Apet: órfã de pai e abandonada pela mãe quando ainda recém-nascida, agora vive com um de seus dois irmãos mais velhos, que passa o tempo assistindo-a de dia e de noite no setor de desnutrição infantil do hospital de Tonj.

 

 

Adut Dut – Adut Dut sentado no colo da mãe, no setor especializado de desnutrição infantil do hospital Civil de Tonj, 05 de maio de 2017.

 

Apet – Apet perdeu o pai e a mãe fugiu deixando-a com os seus dois irmãos mais velhos. Agora Apet sofre de desnutrição e está internada na ala de tratamento intensivo de Tonj, assistida pelo seu irmão mais velho.

 

O hospital de Tonj – O corpo de uma mulher que morreu devido a diarreia e desnutrição estendido no leito do hospital Civil de Tonj, 6 de maio de 2017.

 

O túmulo diante da casa – O túmulo de uma mulher enterrada na frente da sua cabana perto de Tonj, 07 de maio de 2017.

 

 

Fabio Bucciarelli é um fotojornalista italiano e autor especializado na documentação de conflitos e direitos humanos.

O seu último trabalho de longa duração sobre a crise dos migrantes, “The Dream”,  foi publicado num livro editado por FotoEvidence (EUA 2016).

 

 TEXTO E FOTOS DE FABIO BUCCIARELLI – WebDoc REALIZADO POR DAVIDE LESSI

http://www.lastampa.it/2017/06/19/medialab/webdocauto/le-ferite-aperte-del-sud-sudan-0wq1YkYuXxxgSDd9Zl6OnJ/pagina.html

 

 

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