Maquinações episcopais

Paus na roda do Papa Bergoglio.  As resistências entre os bispos às reformas de Francisco

Jesús Martínez Gordo, 3 de junho de 2017 Foto: Periodista digital

Tradução: Orlando Almeida

“Para alguns bispos é difícil aceitar o convite de Francisco para trocar o ‘chip’”

O anseio deles é que este papado acabe o quanto antes, esperando que apareça, como uma chuva em maio [como por milagre], um possível Pio XIII ou João Paulo III, um Bento XVII ou uma soma dos três

 

Nomeados, a grande maioria deles, para chefiar uma Igreja

  • mais hierárquica e piramidal do que corresponsável e participativa;
  • mais moralizante e dona da verdade do que dialogante e propositiva;
  • mais na sacristia do que nas periferias do mundo;
  • mais controladora dos desobedientes do que atenta aos gritos dos párias e dos crucificados do nosso tempo
  • e mais partidária das chamadas “verdades inegociáveis” ou da lei moral natural que da misericórdia evangélica,

deparam-se com o papa Francisco que os convida a trocar o ‘chip’ e a dar a devida atenção àquele que têm ignorado ou até combatido.

E, realmente, muitos deles, desorientados, não sabem o que fazer. Mas outros, sim:

  • é preciso esperar, dizem eles, até que passe esta “tempestade franciscana”
  • e cuidar que ela não deixe marca alguma no tecido eclesial, teológico e pastoral tão laboriosamente construído durante os pontificados anteriores.
  • Isso, e, sempre que possível, colocar discretamente paus na roda do Papa Bergoglio.

 

Acontece que a lista de obstáculos que estão colocando começa a ser considerável, vinculada ao perfil, marcadamente pré-conciliar, que apresentam desde que foram escolhidos pelo lobby de turno:

  • incapacidade de liderar, com audácia e entusiasmo, uma Igreja conciliar e de presidir suas respectivas dioceses juntando e somando  vontades e infundindo um pouco de esperança;
  • temeridade surpreendente de promover modelos desgastados de como ser padre  ou de trazê-los de fora sem a devida inculturação e fazendo vista grossa diante das suas inquestionáveis, mas superáveis, deficiências;
  • impulso agônico de reorganizações pastorais em defesa de modelos de padre, de paróquia e de  liturgia já  na UTI e necessitados de uma revisão tão radical e de consequências tão determinantes como a que foi incentivada  pelo Concílio de Trento;
  • paralização de projetos e iniciativas que promovam a ministerialidade e a liderança de leigos de comunidades sem adequado serviço sacerdotal, dando por inevitável a sua extinção;
  • silêncio atemorizado perante a urgência de pensar e antecipar-se a uma revisão da aconfessionalidade do Estado mais  em termos de independência mútua e de colaboração do que de nostalgia de um passado que, felizmente, não retornará e dialogar, a partir de tal revisão, com os ‘tiques’ fundamentalistas de qualquer laicismo que seja exclusivo e beligerante;
  • desinteresse em estar presente na sociedade civil e denunciar, sem restrições e coletivamente, os flagelos da corrupção, o drama do desemprego, a existência de enormes bolsões de pobreza, as máfias da migração, a xenofobia ou, simplesmente, associar-se ao que há de próximo ao Evangelho, por exemplo, em muitas iniciativas que se estão promovendo para a pacificação e reconciliação em qualquer lugar do mundo e, mais concretamente, no País Basco.

Alguns deles também estão tendo dificuldades para receber de forma criativa a Exortação pós-sinodal Amoris Laetitia (2016) e para assumir publicamente, em sintonia com os ensinamentos transmitidos nela, que os divorciados casados civilmente podem ser integrados plenamente nas comunidades cristãs.

Resistências entre os bispos às reformas de Francisco

Também estão tendo dificuldades para acolher com respeito e delicadeza os homossexuais ou para reconhecer que nos casais de fato há muitos elementos de santidade e de verdade. E, enquanto continuam tomando decisões no velho estilo e bloqueando e silenciando as outras, anseiam para que este papado acabe o quanto antes, esperando que apareça como uma chuva em maio [com por milagre], um possível Pio XIII ou um João Paulo III, um Bento XVII ou a soma dos três e que, além de repor as coisas no seu lugar, seja jovem.

No entanto, eles não estão tão seguros assim. Francisco parece não se cansar de emitir sinais que, se é verdade que os deixaram perplexos nos primeiros meses, não é menos verdade que os irritam sobremaneira desde há algum tempo. Concretamente, promoveu a cardeais – algo totalmente excepcional – quatro bispos espanhóis nos quatro anos e pouco do seu pontificado.

O último deles, ao que parece em resposta (embora não apenas) a uma espécie de “motim” dos prelados, teleguiados na sombra por um cardeal emérito [Rouco Varela, ndt] que usou toda a sua influência para colocar na vice-presidência da Conferência Episcopal Espanhola outro elemento do “antigo regime” que deveria ter sido, no seu entender (e no dos seus companheiros eleitores), o cardeal de Madrid e não o de Valência.

In: http://www.periodistadigital.com/imagenes/2017/06/03/resistencias-al-papa-francisco.jpg

 

Com as novas nomeações de cardeais fica evidente que o Papa Bergoglio está preocupado, e muito, com a possibilidade de que o seu sucessor seja alguém com o perfil desejado pelas maquinações desses bispos espanhóis e pelos de outros lugares. E, ao mesmo tempo, que a Igreja espanhola possa ser governada

  • por prelados que não sejam tão refratários à renovação
  • ou que, pelo menos, se desmarquem, sem medo e claramente, daqueles que não desistem de colocar paus na roda de Francisco.

Os mais versados nessas questões entendem que tais decisões papais obedecem a esta estratégia, embora nem sempre concordem com as pessoas escolhidas.

Foto: In: periodistadigital.com/imagenes/2017/05/16/resistencias-en-la-curia-a-la-politica-de-tolerancia-cero-con-los-abusos.jpg

Mas, parafraseando o diálogo que Jesus teve com o jovem rico, parece estar faltando a este bispo de Roma, “vindo do fim do mundo”, adotar duas decisões que teriam a virtude de fazer com que o seu pontificado fosse realmente memorável e, neste sentido, quase “perfeito”:

mudar, de uma vez por todas, os procedimentos para escolher e nomear os bispos e também para fazer parte do colégio dos cardeais.

  • No primeiro caso, permitindo que as dioceses pudessem apresentar listas tríplices de candidatos entre os quais ele escolheria um. Ou vice-versa.
  • E, no segundo, aceitando que o colégio cardinalício fosse formado pelos presidentes de todas as conferências episcopais do mundo, deixando em aberto a possibilidade de que alguns outros pudessem ser designados pessoalmente  pelo sucessor de Pedro.

Se assim fora, provavelmente surgiriam outros problemas, mas nos poupariam destes ‘amotinamentos’ e maquinações de palácio que assolam a Igreja, incluindo a espanhola. E, claro, a basca.

 

Gordo

Jesús Matinez Gordo

Sacerdote e teólogo, da diocese de Vitória, no País Basco.

Fonte: http://www.atrio.org/2017/06/maquinaciones-episcopales/

http://www.periodistadigital.com/religion/opinion/2017/06/03/religion-iglesia-opinion-jesus-martinez-gordo-maquinaciones-episcopales-palos-en-la-rueda-del-papa-bergoglio.shtml

 

 

 

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