Entrevista de João Tavares a Mariana Azevedo

Tema: Padres que abandonaram o sacerdócio –   para o jornal O BERRO – PUC-PE

Mariana Azevedo –  To: tavaresj@elo.com.br –  17-09-2014  

Matéria – Padres que abandonaram o sacerdócio

Bom dia, meu nome é Mariana Azevedo. Sou estudante de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco, e estou realizando uma matéria especial para o jornal O Berro sobre padres que abandonaram o sacerdócio.Se o senhor puder me ajudar, ficarei agradecida. Segue abaixo algumas perguntas que servem de guia para a matéria. Fico no aguardo da resposta.                          Att., Mariana Azevedo.

 

Padres que abandonaram o sacerdócio

1.      O que o levou a desistir da vida religiosa?

R/ Não desisti da vida religiosa, pois continuo católico praticante. Você, com certeza, queria perguntar por que eu deixei o exercício do ministério sacerdotal. O motivo principal foi um lento e progressivo desentendimento com a congregação religiosa a que eu pertencia. Fui descobrindo que, por ideias e sensibilidade, visão de vida comunitária e da dignidade da pessoa humana, etc., não dava mais para continuar ali, sob pena de me deixar destruir como sujeito, como ser humano. 

Nas dioceses e nas Congregações religiosas há muitos valores, mas há também o perigo da massificação e da rejeição das pessoas que têm visão de relações humanas, de mundo e de Igreja próprias. Não culpo nem a mim nem a ninguém, mas, realmente, foi isso o que aconteceu. A Filosofia existencialista, a minha formação como um todo e o Concílio Vaticano II, me deram essa noção da importância da pessoa humana, que é única e irrepetível, sempre sujeito e fim, nunca meio.

2.      O senhor demorou a tomar a decisão de deixar de ser padre?

R/ Não deixei de ser padre, pois, segundo a Teologia católica, não há ex-padres, mas sim padres que deixaram o exercício do ministério. Você já viu gado ferrado, com uma marca indelével na pele? Assim acontece com os sacramentos do Batismo, do Crisma e da Ordem: marcam a alma do cristão com marca indelével que, em Teologia, se chama: imprimir caráter.

Mas voltando à sua pergunta: demorei anos a decidir deixar o ministério. Eu amava muito o meu sacerdócio. Preparei-me durante 15 anos para isso: foi um longo aprendizado, dos 11 aos 26 anos. Quando vi que na minha Congregação não dava mais, me incardinei numa diocese. Mas, educado para viver em comunidade, onde há um mútuo apoio entre colegas, estranhei a frieza e a solidão da vida sacerdotal dos padres diocesanos. Definitivamente, não fui feito para viver sozinho, isolado.

E, como tinha a certeza de que Deus me criou para ser feliz, aos 36 anos, pela primeira vez, me veio a ideia da possibilidade do casamento. E, assim, preservar minha escala essencial de valores, em ordem decrescente: homem, cristão, padre, religioso (membro de uma Congregação). Se em crise eu entrasse, tinha a claríssima ideia dessa escala de valores.

E como conheci vários/as religiosos/as e padres  já muito desfalcados em sua humanidade para preservarem sua condição de religiosos/as e/ou de padres, resolvi que não ia cair nessa inversão de valores. A demora desse processo, desde o dia em que admiti a possibilidade de casar ,até ao casamento, foi de cerca de dois anos e meio. Mas a crise já vinha de uns dois anos antes. Como vê, foi uma longa e dolorosa caminhada.

3.      Como foi contar a notícia aos amigos e familiares?

R/ Com a família, dei tempo ao tempo e só falei quando, de fato, resolvi casar. Mas percebi que eles já tinham notado que alguma coisa estava acontecendo. Sei que sofreram um pouco, mas me explicitaram que, se era para meu bem, aceitavam a nova situação. Com amor e realismo. Já com os amigos, foram uma grande ajuda no meu processo de reopção de vida.

4.      O que mudou na sua vida quando você saiu da vida religiosa?

R/ Como tinha um diploma de Filosofia e gostava de ensinar (foi o que sempre fiz no ministério) procurei trabalho na Escola Técnica Federal e na Universidade Federal. Já professor e com certa segurança financeira, casei. Com o salário meu e dela, também professora, compramos uma casa e tivemos duas filhas. Tive de aprender a ser professor, marido, pai, a enfrentar o mundo leigo, fora da cobertura da Igreja e da Congregação. As saudades do trabalho de padre eram muitas, mas tive de aprender a superar.

5.      Como o senhor encara a religião hoje?

R/ Como sempre encarei: algo que dá sentido á minha vida. E que precisa ser vivida com autenticidade, mas sem carolice, fundamentalismo ou sentimentalismo. É um aspecto importante da vida, uma espécie de farol. Um modo de interpretar e encarar o mundo e a vida. Luz, sal e fermento da vida social, econômica e política. E não estou falando só da religião católica, mas de todas as religiões.

Mas sei bem que, infelizmente, em nome da religião, inclusiva da católica, se cometeram enormes barbaridades durante muitos séculos. E se cometem hoje, sobretudo numa interpretação radical, fundamentalista do Islamismo e do Judaísmo. Vejo também graves perigos na interpretação fundamentalista da bíblia, sobretudo em parte dos políticos norte-americanos, com Bush, etc.

Prefiro um ateu honesto a um religioso radical e fundamentalista. E vejo com preocupação o pentecostalismo sentimental e alienado, hoje crescente na Igreja católica, com padres cantores, uma miríade de novas congregações conservadoras, que nada têm a ver com o Concílio Vaticano II, etc.

6.   Como o senhor encara a Igreja hoje?

R/ Depois de um longo, frio e escuro inverno, nos “reinados” de João Paulo II e Bento XVI, voltou a primavera, a vida e a esperança, com o papa Francisco. Fiz minha Teologia durante o Concílio Vaticano II, de uma Igreja serviço, aberta ao díálogo com o mundo, a Ciência, as outras Religiões e a todas as pessoas de boa vontade.

Infelizmente, vejo hoje no Brasil um episcopado e um clero muito inferior, em qualidade, ao dos anos 80. Muito mais superficiais, muito menos profetas. Muito mais igreja número, massa, ôba-ôba, aparência, sentimentalismo, do que vontade séria de serviço, de comunhão verdadeira com os mais abandonados e necessitados. Sei que há boas e honrosas exceções, mas estou falando da média. Acabo de chegar da Europa. E fiquei triste com a idade avançada dos padres (média de mais de 65 anos) e com uma religiosidade ainda forte, mas sempre mais parada, sem vivacidade, sem profetismo.

7.   Alguma vez o senhor se arrependeu da sua decisão?

R/ Não. Saudades do ministério, de trabalho sacerdotal com o Povo, sim; vontade de voltar atrás, não. Assumi outras responsabilidades e orientei a minha vida para outros rumos. Também válidos: para mim, para a família e para a sociedade. Sem abandonar nunca minha eterna e forte luta por uma mundo, um Brasil e uma Igreja melhores. Pois a vida não tem sentido a não ser para ser convivida e doada.

8.  O que mudou na sua rotina depois que o senhor abandonou o sacerdócio?

R/ Já respondi nas perguntas n° 4 e n° 1 e 2. Tive de me adaptar a uma rotina totalmente diferente, sobretudo o conviver em família e no mundo do trabalho, preocupado em construir um patrimônio para sustentar a família e em usar o dinheiro para chegar ao fim do mês. Mas sem desistir de meus ideais humanos e cristãos. Demos, minha esposa e eu, conta do recado. E, juntos, decidimos ser membros ativos da Igreja, cada um a seu modo. 

Mergulhei fundo no MFPC, Movimento das Famílias dos Padres Casados, sobretudo na parte de comunicação. Dirijo hoje o nosso Site: www.padrescasados.org , onde posto, diariamente, pelo menos dois artigos atuais e substanciosos, escolhidos em várias e boas fontes brasileiras e estrangeiras, sobre Gente, Brasil, Mundo, Igreja, Valores humanos.

9. O que mudou na sua relação com as pessoas?

R/ Tive de aprender a ser um entre muitos, sem privilégios.

10. Como foi o processo, se houve, de “reintegração” à sociedade?

R/ Precisei me esforçar para aprender a ver a vida de outros pontos de vista. Sem abdicar de meus valores específicos, mas buscando novos equilíbrios na nova situação de vida. A formação no seminário foi muito boa, mas não nos formava para estas eventualidades. Tive de usar o bom senso, que aprendi sobretudo na família e no contato com os leigos.

11. O senhor sofreu algum tipo de choque cultural ou social?

R/ Não. Eu conhecia bastante bem o lugar em que fui viver quando casei, e aprendi rápido a por os pés no chão da nova realidade existencial.

12. Em média, quais os principais motivos pelos quais um padre abandona o sacerdócio?

R/ No livro PADRES CASADOS – Depoimento e Pesquisa, de Jorge Ponciano e outros, Editora Vozes,  1990, p. 51-52, tem as respostas a essa sua pergunta. Resumidamente e por ordem decrescente, os motivos mais importantes para deeixar o ministério são:

  • Celibato, 42%
  • Estrutura eclesiástica obsoleta,  13%
  • Crise existencial, 9%
  • Segregação clerical, 9%
  • Fé católica, 5%
  • Divergências pastorais, 4%
  • Incompatibilidade com o bispo, 4%
  • Isolamento, 4%

Isto era válido em 1990. Hoje, não lhe saberia dizer. Mas a situação mudou bastante e os padres de hoje têm uma “formação” bastante diferente da daquele tempo. Em geral, parece-me mais fraca em todos os sentidos: intelectual, pastoral, espiritual, humana e cristã. Mas há algumas exceções.

S. Luís, MA, 18 de setembro de 2014

João Tavares

 

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