FÁTIMA, QUE FUTURO?

Fátima – Papa: Maria não é “uma ‘santinha’ a quem se recorre para obter favores”

Frei Bento Domingues, O.P.

Fátima acordou quase vazia após a visita do Papa – Foto: Artur Machado/global imagens.

O futuro de Fátima depende do seu empenhamento em desencadear uma verdadeira mobilização geral contra esta indiferença que nos gela o coração e agrava a miopia do olhar. A vida só pode sobreviver graças à generosidade de outra vida”.

1. Nestas crónicas, recusei-me sempre a responder à pergunta: que vem o Papa fazer a Fátima? Que vinha canonizar os “beatos” Jacinta e Francisco estava assente. Para isso não precisava desta custosa deslocação. A declaração de reconhecimento da santidade destes pastorinhos podia ser feita em Roma. Por isso, julguei que era melhor esperar para ver. O Papa veio mas, antes, tinha realizado outra peregrinação bem mais arriscada e de alcance imediato: o encontro com cristãos e muçulmanos no Egipto.

Mario Bergoglio, antes de vir a Fátima, tinha publicado uma carta apostólica que transfere as competências sobre os Santuários para o Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização. Vislumbrava nesse documento, inspirador e normativo, que viria realizar o que mais tem faltado em Fátima: tornar-se um centro propulsor de saída para o mundo e não apenas de um altar de incenso.

Como já referi, irritavam-me, entretanto, as notícias colhidas ou veiculadas pelo Santuário sobre os cuidados com a figura do Papa, a sua indumentária para celebrar, o cálice de ouro, a pala para o resguardar do sol e outras futilidades do género. Pareciam manifestar o propósito de neutralizar, na Cova da Iria, o que Bergoglio trouxe de novo à orientação da Igreja católica:

  • uma Igreja de saída para todas as periferias,
  • com gosto da alegria do Evangelho,
  • de uma evangelização nova,
  • libertadora,
  • descrucificante.

Um grande desejo pode tornar-se numa grande decepção: ver o Papa chegar a Fátima e nem ele cumprir o que propôs para os santuários, seria o enterro da sua própria Carta Pastoral.

Entretanto, foi divulgada a oração que iria fazer no dia 12 de Maio, na Capelinha das Aparições. É uma celebração transfiguradora da Salve Rainha tão antiga e que, de repente, ficou uma nova respiração do céu e da terra. As invocações gastas encontraram a linguagem poética da fé incarnada na alegria do Evangelho.

Atrevo-me a destacar:

Ó doce virgem Maria, Rainha do Rosário de Fátima! Faz-nos seguir o exemplo dos Bem-aventurados Francisco e Jacinta e de todos os que se entregam à mensagem do Evangelho.

Percorreremos, assim, todas as rotas, seremos peregrinos de todos os caminhos, derrubaremos todos os muros e venceremos todas as fronteiras, saindo em direcção a todas as periferias,  revelando, aí, a justiça e a paz de Deus. 

Seremos, na alegria do Evangelho, a Igreja vestida de branco, da alvura branqueada no sangue do Cordeiro derramado ainda em todas as guerras que destroem o mundo em que vivemos.

E assim seremos, como Tu, imagem da coluna luminosa que alumia os caminhos do mundo, a todos mostrando que Deus existe, que Deus está, que Deus habita no meio do seu povo, ontem, hoje e por toda a eternidade.

O horizonte do primeiro documento, verdadeiramente programático do Papa Francisco, (A Alegria do Evangelho), passou para a sua Salve Rainha, a oração feita missão para todas as periferias. Tinha de dizer: esta peregrinação é essencial. Como poderia Bergoglio esquecer o seu passado de transformação da religiosidade popular – puramente regional – perante um santuário que reúne multidões de muitos países?


O Santuário fotografado pelo “avião-espião” da Força Aérea: 13/05/17: – http://static.globalnoticias.pt/storage/JN/2017/big/ng8517821.jpg

 

2. O Papa veio, rezou na capela de Nossa Senhora do Ar. Repetirá, durante a sua peregrinação, que se reza em Fátima como em qualquer lugar. Seguiu para a Cova da Iria. A quem desejasse acompanhar a deslocação e a sua chegada ao santuário, os quatro canais de televisão exibiam uma verborreia contínua e irritante que não deixava espaço mental para mais nada. Não se prepararam para saber dosear o tempo da informação e do comentário com o silêncio indispensável. O silêncio imposto para a oração do Papa, na capelinha, mostrou que tudo podia ser diferente.

Um momento chave de todas as peregrinações de Fátima é o mar de luz expresso na procissão das velas. Desta vez, havia uma mensagem especial. O Papa enfrentou a sua tarefa de transformar as atitudes dos peregrinos:

“Peregrinos com Maria… Qual Maria?

  • Uma «Mestra de vida espiritual», a primeira que seguiu Cristo pelo caminho «estreito» da cruz dando-nos o exemplo,
  • ou então uma Senhora «inatingível» e, consequentemente, inimitável?
  • A «Bendita por ter acreditado[i]» sempre e em todas as circunstâncias nas palavras divinas,
  • ou então uma «Santinha» a quem se recorre para obter favores a baixo preço?
  • A Virgem Maria do Evangelho venerada pela Igreja orante,
  • ou uma esboçada por sensibilidades subjectivas que A vêem segurando o braço justiceiro de Deus pronto a castigar:
  • uma Maria melhor do que Cristo, visto como Juiz impiedoso;
  • mais misericordiosa que o Cordeiro imolado por nós?

Grande injustiça fazemos a Deus e à sua graça,

  • quando se afirma em primeiro lugar que os pecados são punidos pelo seu julgamento,
  • sem antepor – como mostra o Evangelho – que são perdoados pela sua misericórdia! (…)

«Sempre que olhamos para Maria, voltamos a acreditar na força revolucionária da ternura e do carinho. Nela vemos

  • que a humildade e a ternura não são virtudes dos fracos mas dos fortes,
  • que não precisam de maltratar os outros para se sentirem importantes (…).

Esta dinâmica

  • de justiça e de ternura,
  • de contemplação
  • e de caminho ao encontro dos outros

é aquilo que faz d’Ela um modelo eclesial para a evangelização[ii]».

Possamos, com Maria, ser sinal e sacramento da misericórdia de Deus que perdoa sempre, perdoa tudo.

 

3. Deus criou-nos como uma esperança para os outros, uma esperança real e realizável segundo o estado de vida de cada um, disse o Papa na homilia de Sábado.

Temos Mãe na Mãe de Jesus. Não veio aqui, para que A víssemos. Para isso teremos a eternidade inteira. Dos seus braços virá a esperança e a paz que necessitamos e as suplico para todos os meus irmãos no Baptismo e em humanidade, de modo especial, para os doentes e pessoas com deficiência, os presos e desempregados, os pobres e abandonados.

O futuro de Fátima depende do seu empenhamento em desencadear uma verdadeira mobilização geral contra esta indiferença que nos gela o coração e agrava a miopia do olhar. A vida só pode sobreviver graças à generosidade de outra vida. Sejamos, no mundo, sentinelas da madrugada que sabem contemplar o verdadeiro rosto de Jesus Salvador e descobrir novamente o rosto jovem e belo da Igreja, que brilha quando é missionária, acolhedora, livre, fiel, pobre de meios e rica no amor[iii].

Bem-haja, Papa Francisco!

in Público 14.05.2017

[i] cf. Lc 1, 42.45

[ii] Exort. ap. Evangelii gaudium, 288

[iii] Nota: Este texto é quase todo composto com extractos das intervenções do Papa. A selecção e organização são minhas

 

Frei_bento_domingues

Frei Bento Domingues

Fonte: https://www.publico.pt/2017/05/14/sociedade/noticia/fatima-que-futuro-1772060

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