O que eu penso sobre Fátima (2)

Anselmo Borges – 

Foto: Chegada de Peregrinos

“Fátima precisa de ser evangelizada. Evangelho quer dizer notícia boa e felicitante, mas, frequentemente, como bem viu Nietzsche, o que se anunciou foi um Disangelho: uma notícia desgraçada e que arrastou consigo imensa infelicidade.

No Evangelho segundo São Marcos, Jesus inicia a sua vida pública, proclamando: “Metanoiete”, cuja tradução normalmente é: “Fazei penitência”, mas realmente o que lá está é: mudai de mentalidade, de modo de pensar; portanto, mudai de vida, de mentalidade, de atitude, e acreditai no Evangelho.

1 – Um problema maior deste tempo são a pressa, a imediatidade, a fragmentação.

  • Alguém pára para pensar, para verdadeiramente se informar, reflectir?
  • Alguém lê livros?
  • Sim, livros?

Porque um livro, quando é bom,

  • dá que pensar,
  • e tem princípio e meio e fim
  • e aberturas para lá dele
  • e é preciso dialogar com ele
  • e os seus pressupostos e os seus horizontes.

Mesmo num jornal, lê-se a notícia toda ou só o título? Afinal, um dos grandes perigos de hoje é que

  • se vive de flashes,
  • de impressões,
  • na vertigem de um tsunami de informações e opiniões dispersas, intoxicantes.

No passado dia 14 de Abril, o jornal Expresso titulava na primeira página:

“É evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima” (Anselmo Borges). E remetia para uma entrevista na página 22. É claro que quem só leu este título ficou enganado. É verdade que eu disse aquilo. Mas quem foi ler a entrevista?

Quem leu encontrou o que é fundamental: a necessária distinção entre “aparição” e “visão”:

“Posso ser um bom católico e não acreditar em Fátima porque não é dogma. Não me repugna, contudo, que as crianças, os chamados três pastorinhos, tenham tido uma experiência religiosa, mas à maneira de crianças e dentro dos esquemas religiosos da altura. É preciso também distinguir aparições de visões. É evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima. Uma aparição é algo objectivo. Uma experiência religiosa interior é outra realidade, é uma visão, o que não significa necessariamente um delírio, mas é subjectivo. É preciso fazer esta distinção.”

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Fátima: Chegada de Peregrinos. Foto: internet

Como já aqui expliquei, é evidente que Maria não apareceu fisicamente em Fátima, pois o crente na vida plena e eterna em Deus sabe que

  • essa vida é uma nova criação, para lá do espaço e do tempo;
  • não é segundo o modo da vida neste mundo.

Mesmo a ressurreição de Jesus

  • não é a reanimação do cadáver, é evidente,
  • e, por isso, está para lá das manifestações físico-empíricas.

Eu acredito na vida eterna e que Jesus está vivo em Deus. Como é? Ninguém sabe. As grandes experiências, as que decidem da vida e da morte e do sentido da existência e da história, são interiores. É neste dinamismo que estão as experiências da fé religiosa, mesmo se – a experiência nunca é pura, nua – se dão no quadro de

  • esquemas,
  • figuras e imagens interpretativos,
  • segundo as situações,
  • os tempos
  • e os contextos.

O referente – pólo objectivo – é sempre o mesmo:

  • o Mistério,
  • o Sagrado,
  • Deus,
  • Presença transcendente-imanente,

que o crente – pólo subjectivo – experiencia como Fundamento e Fonte de salvação.

Percebe-se então que há experiências religiosas melhores e outras menos boas. E lá está na entrevista:

“E por isso digo que é necessário evangelizar Fátima, ou seja, trazer uma notícia boa. Porque mesmo para aquelas crianças aquela não foi uma notícia boa: que mãe mostraria o inferno a uma criança?”

2 – Qual é o núcleo da mensagem de Fátima?

Em primeiro lugar, a oração. É uma grande mensagem? É. Para crentes e não crentes. Quem não precisa de rezar? Não necessariamente dizendo orações, embora os cristãos tenham a oração essencial que Jesus ensinou: o pai-nosso”, onde está o núcleo da vida:

  • a ligação à Transcendência, que é Amor;
  • que o Reino de Deus venha: o Reino da verdade, da justiça, da dignidade livre e da liberdade na dignidade para todos e que lutemos por isso; a gratidão face ao milagre exaltante da Vida;
  • o pão para todos;
  • o milagre do perdão;
  • a atenção ao essencial da vida, para se não cair na tentação da desgraça, do mal que fazemos a nós próprios e aos outros.

A oração implica parar para escutar o silêncio e o que só no silêncio se pode ouvir:

  • a voz da consciência e da dignidade,
  • meditar, descer ao mais fundo de si,
  • lá onde se encontra a ligação com a Fonte,
  • donde tudo vem e onde tudo se religa
  • e se faz a experiência do transtempo,
  • para se poder viver no tempo sem se afundar na dispersão e no vazio.

A outra mensagem: “Fazei sacrifício e penitência.” E aquelas crianças até a pouca comida que tinham davam às ovelhas pela conversão dos pecadores.

Fátima precisa de ser evangelizada. Evangelho quer dizer notícia boa e felicitante, mas, frequentemente, como bem viu Nietzsche, o que se anunciou foi um Disangelho: uma notícia desgraçada e que arrastou consigo imensa infelicidade.

No Evangelho segundo São Marcos, Jesus inicia a sua vida pública, proclamando: “Metanoiete”, cuja tradução normalmente é: “Fazei penitência”, mas realmente o que lá está é:

  • mudai de mentalidade, de modo de pensar;
  • portanto, mudai de vida, de mentalidade, de atitude,
  • e acreditai no Evangelho.

Jesus anunciava: “Ide aprender o que isto quer dizer: Deus não quer sacrifícios, mas justiça e misericórdia.” O que Jesus declarava era uma boa-nova:

  • Deus é Amor,
  • Fonte de vida,
  • Liberdade criadora,
  • que quer a vossa felicidade.

“Não tenhais medo”, é outra palavra constante de Jesus. Mas, realmente, o que se pregou muitas vezes foi um deus

  • da tristeza,
  • do medo,
  • do terror,

chegando-se ao limite de pregar que Deus precisou da morte do próprio Filho para se reconciliar com a humanidade.

Foi deste deus que Nietzsche proclamou a morte, porque perante um deus assim só se pode desejar que morra.

É completamente diferente o que está no Evangelho.

Jesus não foi morto para aplacar a ira de Deus, Ele entregou-se à morte e morte de cruz para dar testemunho da Verdade e do Amor: o único interesse de Deus é que os homens e as mulheres, todos, sejam plenamente realizados e felizes.

Esse é o sentido do sacrifício: não o sacrifício pelo sacrifício, mas o sacrifício que traz vida. O sacrifício pelo sacrifício não vale nada, mas, por outro lado, sem sacrifício, nada de grande, de verdadeiramente valioso, se realiza.

“Mudai de mentalidade”: batei-vos

  • pela vida,
  • pela justiça,
  • pela paz,
  • pela felicidade,
  • pelos direitos
  • e pela dignidade divina de cada homem e de cada mulher, de todos.

Sacrificai-vos por isso. É o que Deus quer e o que vale a pena. Para sempre.

 

Anselmo Borges ri

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia

Fonte: http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/anselmo-borges/interior/o-que-eu-penso-sobre-fatima-2-7207217.html

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