A BÍBLIA EM PRAÇA PÚBLICA

A imagem pode conter: 1 pessoaFrei Bento Domingues, O.P. – 09/04/2017

“Pensar que o estudo da Bíblia e as suas traduções só merecem confiança, se forem obra de clérigos e de editoras católicas submetidos ao Imprimatur episcopal, é supor que a Bíblia é propriedade privada de empresas confessionais.

Que os responsáveis das comunidades católicas zelem pela formação bíblica dos seus membros e pelas expressões da fé cristã é o mínimo que se lhes pode pedir. Infelizmente, nem sempre cumprem esta missão.”

1. Como escreveu, em 2016, o Prof. José Augusto Ramos, o universo cultural, editorial, científico e académico português foi recentemente presenteado com o aparecimento do primeiro volume de uma tradução da Bíblia grega, conceito que nos tem  sido estranho, desde há muitos séculos[i]. Este ano, nos finais de Março, Frederico Lourenço inundou todas as livrarias com o segundo volume da tradução da Bíblia grega, o Novo Testamento completo, escrito há quase 2000, cujo original é irrecuperável. Esta tradução está baseada no texto fixado por Nestle-Aland[ii].

Para F. Lourenço, a leitura comparativa dos evangelhos canónicos e dos restos que nos chegaram dos apócrifos não deixa qualquer dúvida quanto à imprescindibilidade de Marcos, Mateus, Lucas e João, talvez os livros mais extraordinários da História da Humanidade.

Um padre, espantado com este fenómeno, perguntou-me: mas esse tradutor é padre?

Quando lhe respondi que

  • não era padre nem ex-padre,
  • não era católico nem protestante
  • e que neste trabalho prescinde, metodologicamente, de pressupostos religiosos,

mostrou-se desconfiado. Aí há gato!

Francisco Lourenço: um leigo não-cristão traduz a bíblia grega para português

In: http://cdn.cmjornal.pt/images/2016-09/img_818x455$2016_09_23_11_57_27_565593.jpg

 

O que há, de facto, é talento, competência e muito trabalho. Convidei esse clérigo apreensivo a ler o currículo do tradutor que vem nas capas de ambos os volumes e acrescentei o meu pressentimento: com esta aparição, Frederico Lourenço e os responsáveis da Quetzal Editores vão alterar o clima cultural da Bíblia, no nosso país. Não esperam canonizações, mas merecem avaliações críticas competentes[iii].

Pensar que o estudo da Bíblia e as suas traduções só merecem confiança, se forem obra de clérigos e de editoras católicas submetidos ao Imprimatur episcopal, é supor que a Bíblia é propriedade privada de empresas confessionais. Que os responsáveis das comunidades católicas zelem pela formação bíblica dos seus membros e pelas expressões da fé cristã é o mínimo que se lhes pode pedir. Infelizmente, nem sempre cumprem esta missão.

Ninguém tem o monopólio da Bíblia e só há vantagens em que seja reconhecida e trabalhada como o Livro dos livros, a expressão das raízes judeo-cristãs da civilização ocidental. Há muito a fazer para se tornar parte activa da cultura portuguesa, nas suas diversas expressões. Criticam-se, e com razão, as correntes sociais, políticas e culturais que desejam fechar as religiões nas respectivas sacristias. Mas seria lamentável que as sacristias amuassem ao ver essa literatura religiosa estudada e debatida com toda a liberdade, no espaço público.

 

Bíbllia FL

Herculano Alves reuniu, numa obra muito útil, os Documentos da Igreja sobre a Bíblia, desde o ano 160 a 2010[iv].

No começo deste ano, foi lançado pela Biblioteca Dominicana o testemunho incontornável de Marie-Joseph Lagrange, O.P., sobre os tormentos que sofreu do Vaticano e das invejas eclesiásticas organizadas para impedir as inovadoras investigações e publicações científicas da Escola Bíblica de Jerusalém, nos finais do século XIX e nos primeiros 30 anos do século XX[v].

Quem comparar a miséria cultural dessa situação com o documento da Comissão Pontifícia Bíblica, de 15 de Abril de 1993[vi], pode ter a impressão de que não pertencem à mesma Igreja.

Não reconhecer a importância de colocar a Bíblia no espaço público, segundo as exigências culturais do nosso tempo, só pode alimentar a suspeita de que a razão crítica é inimiga da religião, das suas linguagens e das suas práticas.

 

2. O projecto de Frederico Lourenço, assumido pela Quetzal, não se limita a uma nova tradução do Novo Testamento, do qual já existem várias, de diversos estilos, mas à tradução de toda a Bíblia Grega, judaica e cristã. A Bíblia judaica e a Bíblia hebraica não se identificam, como se a grega não fosse, também, judaica. A Grega, designada como Septuaginta (LXX), é a primeira tradução da Bíblia[vii] e o seu nome designa a tradução da Torah hebraica para o grego, realizada em Alexandria durante o reinado de Ptolomeu II (285-246 a.C).

Segundo a lenda, setenta sábios de Jerusalém, conhecedores do hebraico e do grego, partiram para Alexandria, cidade com grande população judaica, mas onde se falava sobretudo o grego. Cada um tinha o seu quarto particular e a obrigação de traduzir as Escrituras. Começaram todos ao mesmo tempo e terminaram todos ao fim de setenta dias. Ao conferi-las, verificaram que todos tinham traduzido da mesma maneira. Para lenda e milagre não está mal.

A dita versão constituiu um acontecimento cultural sem precedentes e a iniciativa literária mais importante para os anais da civilização. Pela primeira vez, a sabedoria de Israel passava de uma língua semita para outra indo-europeia e, por aí, ao mundo ocidental.

 

 3. Quando, séculos mais tarde, a LXX foi adoptada pelas primeiras comunidades cristãs, como a Bíblia oficial, acompanhou a expansão do cristianismo, tanto no Oriente como no Ocidente.

A partir do séc. V d. C., a LXX foi destronada, no Ocidente, pela tradução de S. Jerónimo para latim, denominada a Vulgata. Esta versão dominou a cultura ocidental durante a Idade Média. Foi declarada como autêntica, isto é, fiável em matéria de fé e costumes, pelo Concílio de Trento (1546). Na Igreja Ortodoxa, a Bíblia grega manteve-se como Bíblia oficial ou canónica até aos nossos dias.

Outro foi o rumo das traduções da Bíblia na Reforma. Espero que, entre nós, o nome de Lutero tenha deixado de ser considerado um insulto.

 

NOTAS: 

[i] Cadmo 25 (2016) 101-113. Cf. também de José Augusto Ramos, Traduções Portuguesas da Bíblia Transversalidades Linguístico-Culturais em Tarefas de Hoje, GAUDIUM SCIENDI, Nº 3, JANEIRO 2012, pp 124-146

[ii] Entre 1898 e 2012 atingiu 28 edições.

[iii]  Cf. José Augusto Ramos (Cadmo 25 (2016) 101-113); Isaías Hipólito (Brotéria 184 (2017) 205-225.

[iv] Documentos da Igreja sobre a Bíblia (160-2010), Difusora Bíblica, 2011.

[v] Marie-Joseph Lagrange, O.P., Recordações Pessoais. O Padre Lagrange ao serviço da Bíblia, Biblioteca Dominicana, Coimbra, Tenacitas, 2017.

[vi] A Interpretação da Bíblia na Igreja, S. G. E., Rei dos Livros, 1994.

[vii] Cf. Natalio Fernández Marcos, Septuaginta. La Biblia griega de judíos y cristianos,Sígueme, Salamanca 2008.

 

Frei_bento_domingues

 

Frei Bento Domingues O. P.

Fonte: https://www.publico.pt/2017/04/09/sociedade/noticia/a-biblia-em-praca-publica-1768145

 

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