Trans-humanismo e pós-humanismo (2)

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Padre Anselmo Borges -25/03/2017

Foto: paródia da Criação de Michelangelo

Pergunta Jean Staune, em Les Clés du Futur (As Chaves do Futuro – NdR):“E se se pudesse conceber um dia uma máquina que dispusesse de todas as potencialidades de um ser humano, em termos de criatividade, de emotividade, mas também, e sobretudo, que seja consciente da sua própria existência e que, como todos os seres humanos, desejasse melhorar a sua situação?”

 1.  Parece claro que com as técnicas NBIC (nanotecnologias, biotecnologias, inteligência artificial, ciências cognitivas) nos encontramos no limiar de uma realidade completamente nova. Pergunta essencial:

  • tudo o que é tecnicamente possível é moralmente bom?
  • O que é que verdadeiramente queremos fazer?

Os problemas – filosóficos, éticos, políticos – estão aí, imensos, desafiadores, urgentes. E não se pode ficar indiferente, pois é a nossa própria humanidade enquanto tal que está em jogo.

Béatrice Jousset-Couturier, em Le transhumanisme. Faut-il avoir peur de l”avenir, com prefácio de Luc Ferry, lembra o debate entre Jürgen Habermas e Peter Sloterdijk, declarando este:

“A domesticação do ser humano constitui o grande impensado em relação ao qual o humanismo desviou os olhos desde a Antiguidade até aos nossos dias.”

E, contra a tese da descontinuidade metafísica entre “o que é” e “o que é fabricado”, afirma uma continuidade, sendo neste contexto, pensando no pós–humanismo, que os coreanos do Sul elaboram uma carta ética dos robôs. Caminhamos, sem problemas, para hibridações de várias espécies?

Com o acesso das novas técnicas a uma elite ou minoria, não surge o risco “totalitário” do controlo dos indivíduos? Aí está uma das razões para que Jürgen Habermas defenda a proibição de intervir no genoma humano. Não se deve ser sensível às ameaças de eugenismo? O que é facto é que os chineses desenvolvem o China Brain Project“programa de selecção totalmente eugénico destinado a criar uma população mais inteligente”.

Nos Estados Unidos, é permitido seleccionar o sexo da prole; porque não querer filhos também mais inteligentes? Caminharemos para filhos à la carte e para o fim da ética? Enquanto Habermas se opõe a toda a forma de “eugenismo liberal”, Sloterdijk tende a reduzir a história humana a uma sucessão de transformações nos modos de produção técnica.

  • Mas que pensar da possibilidade de transformar o homem numa nova espécie?
  • Para onde vão as nossas liberdades?
  • E, com a criação de vírus sujeitos a transformações incontroláveis, a nossa segurança?
  • B. Jousset-Couturier pergunta: quem dirigiria a ordem mundial?
  • O homem, a máquina, um híbrido?
  • Quem tem o primado: a ética ou as tecnologias? V
  • iver-se-á mais tempo (excelente!), mas com que sentido?

Já é possível a modificação mnésica, por exemplo, apagando lembranças, o que suscita a questão da falsificação da história e da identidade.

Por isso, a Comissão Consultiva Nacional de Ética (CCNE) francesa debruçou-se pela primeira vez sobre o “problema trans-humanista” e concluiu (12.12.2013): “É indispensável uma vigilância ética, pois ignoramos, a médio e a longo prazo, tanto ao nível individual como social, os efeitos do desenvolvimento das nanotecnologias”.

 No contexto do desenvolvimento acelerado da inteligência artificial e no quadro de uma nova revolução industrial comandada por robôs, o Parlamento Europeu propõe legislação no sentido de precaver problemas causados por essa revolução em curso.

 

2 O que aí fica tem também na sua base a possibilidade de máquinas com

  • emoção,
  • inteligência,
  • autoconsciência,

no pressuposto de o homem ser automatizável no seu conjunto.

Pergunta Jean Staune, em Les Clés du Futur (As Chases do Futuro – NdR):

“E se se pudesse conceber um dia uma máquina que dispusesse de todas as potencialidades de um ser humano, em termos de criatividade, de emotividade, mas também, e sobretudo, que seja consciente da sua própria existência e que, como todos os seres humanos, desejasse melhorar a sua situação?”

Esta possibilidade arranca do pressuposto de que é o cérebro que produz a consciência. Assim, mediante o estudo aprofundado dos mecanismos do cérebro, “chegaremos à compreensão do funcionamento da consciência e poderemos fabricar uma máquina susceptível de alcançar o mesmo nível de consciência e, portanto, de evolução que a espécie humana tem”.

Mais: a partir daí, surgem consequências que nos deixam perplexos e atemorizados. De facto,

  • se a máquina pode imitar o homem em todos os domínios,
  • também pode construir e programar máquinas,

que trabalharão vinte quatro horas sobre vinte e quatro horas e sete dias na semana, sem interrupção, para produzir uma versão melhorada de si mesmas, até produzirem uma superinteligência, algo que nos ultrapassará sempre e em todas as ordens de grandeza, chegando o momento de uma “singularidade”, isto é, tudo quanto existiu ao nível cultural até então ficará obsoleto.

“A superinteligência será a última invenção da espécie humana e marcará o fim desta sobre a Terra. A existência de uma inteligência milhares de vezes superior à nossa só pode levar à nossa desclassificação e mesmo ao nosso desaparecimento.”

A espécie humana vai desaparecer na forma em que a conhecemos? Não há problema, pelo contrário, pois, segundo Raymond Kurzweil, que em 2005 escreveu uma obra famosa com o título The Singularity Is Near e que dirige uma universidade com esse nome, tornar-nos-emos nós próprios máquinas, em fusão com elas, para um novo estádio da evolução.

Já não se trata de simples “trans-humanismo”, melhorando o homem, enxertando-lhe componentes electrónicas:

“O fim último é ser capaz de descarregar uma consciência humana num material informático. A humanidade acederá assim à imortalidade.” (B. Jousset-Couturier informa que, quando interrogado em que é que se veria reincarnado, o Dalai Lama não exclui a possibilidade de ser num computador.)

 

Questões imensas que obrigam a pensar. Mesmo se estamos ainda, em múltiplos domínios, apenas no plano da ciência-ficção.

 

Anselmo Borges4

Anselmo Borges

Fonte: http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/anselmo-borges/interior/trans-humanismo-e-pos-humanismo-2-5746029.html

 

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