“Dar poder às mães”, o testemunho de Hauwa Ibrahim

Na Nigéria, a advogada, Prémio Sakharov 2005, salva centenas de mulheres da lapidação e do Boko Haram e acredita que, para combater os fundamentalismos, não se precisa de armas, mas de mães

Lucca Attanasio -08/03/17 -Roma -Foto:Reuters

Compreendi que iria acabar casada com um homem muito mais velho do que eu e, sobretudo, que eu teria que dizer adeus para sempre à escola, com apenas 11 anos de idade. Por isso fugi“. Parece o começo de um desses belos romances de cunho social, que se leem para recuperar a fé na humanidade. Ao invés, é o início de uma história que, embora pareça incrível, é toda verdadeira. 

Tradução: Orlando Almeida

Quem a conta ao Vatican Insider, com o orgulho suave de quem derrubou um depois do outro o estigma e os estereótipos ligados à sua condição, tornando-se um símbolo de libertação na Nigéria e no mundo todo, é a protagonista direta, Hauwa Ibrahim.

 

Estando em Roma para participar do encontro “Libertar as mulheres da violência”, organizado pelo Gabinete de Informação do Parlamento Europeu, a advogada nigeriana e professora em Harvard, explica o significado do dia 8 de março [Dia Internacional da Mulher] e a vontade de começar uma verdadeira revolução pacífica a partir das mulheres. Ou antes, das mães.

“Alguns anos atrás, depois de ter sido chamada pelo ex-presidente da Nigéria, Goodluck Jonathan, para fazer parte da Comissão Presidencial para as buscas das 219 meninas raptadas pelo Boko Haram, (depois, foi chamada também pelo príncipe jordaniano Hassan bin Talal para trabalhar num campo de refugiados com jovens atraídos pela rede extremista islâmica, ndr) entrei em contato direto com o mundo dos terroristas – conta ela –.

Com exceção de alguns ideólogos loucos, a maioria dos homens que fazem parte do Boko Haram, assim como do Isis  é composta por jovens que apenas desejam ser valorizados e que, vendo frustradas as suas esperanças,  cedem ao horror do fundamentalismo. Ao conhecê-los percebi que um simples ‘soft-power’ [poder de persuasão], o das mães, pode muito mais do que drones, exércitos, torturas“.

 

Hauwa Ibrahim – Foto: Ritagli

O primeiro teste desta estratégia, Ibrahim colocou-o em prática quando foi autorizada a encontrar-se com as mães de alguns membros do Boko Haram, presos. Convenceu-as a irem visitar seus filhos na prisão e a restabelecer o relacionamento com eles.

“As duas mães pensavam que os filhos estavam mortos, os jovens que as mães os tinham esquecido. Quando se encontraram, abraçaram-se e começaram a chorar sem parar. Um dos dois, atirou-se ao pescoço da mãe e não queria deixá-la mais, como se tivesse tornado a ser criança novamente. Estou certa de que naquele encontro aconteceu uma profunda mudança entre todos os protagonistas”.

Convencida do poder pacífico que as mães são capazes de exercer não apenas sobre os seus próprios filhos, a advogada fundou Mother’s Without Borders: Steering Youth Away from Violent Extremism [Mães Sem Fronteiras: guiando a juventude para longe do extremismo violento] e começou a reunir mulheres de todo o mundo para empreender ações voltadas à recuperação dos jovens enredados pelo fundamentalismo e à restauração da paz e da reconciliação.

“Compreendi que o fundamentalismo é uma mistificação da espiritualidade e que a única maneira de combatê-lo é a partir de dentro, pesquisando na tradição ou fazendo referência aos princípios basilares. Entre estes, por exemplo, está a fortíssima ligação que se estabelece no Islamismo entre filhos homens e mães, uma relação quase sagrada que se baseia na frase no Corão que diz: “O Paraíso encontra-se aos pés das mães”. Uma mãe pode muito mais do que muitas outras pessoas. No fundo é o mesmo método que uso no tribunal para defender da Sharia as mulheres nigerianas”.

Desde 1999, quando a Sharia foi introduzida em 12 estados do norte da Nigéria, afetando mais de 50 milhões de habitantes, a advogada começou a tomar medidas legais para a proteção das mulheres condenadas à lapidação por adultério, conseguindo realizar a incrível façanha de se tornar a primeira mulher a desempenhar o papel de advogado de defesa num  tribunal islâmico. Representou ‘pro bono’ [de graça]  mais de 150 mulheres e salvou a vida de muitíssimas delas.

“Segundo Sharia – explica Hauwa sorrindo uma mulher, para ser condenada, 

  • deve ter cometido adultério fora de casa,
  • ter sido vista ao mesmo tempo por quatro homens – todos obrigatoriamente em seu juízo perfeito –
  • deve admitir que cometeu adultério,
  • deve ter ficado grávida
  • e deve ficar comprovado que é capaz de entender e de querer.

Não é difícil demonstrar que a satisfação de todas estas condições é quase sempre impossível. E eu faço isso no tribunal há anos, não com um código de processo civil ou penal na mão, mas com a Sharia”.

Inatacável do ponto de vista exclusivamente legal, influente graças à fama conquistada por meio de lutas e de visibilidade no mundo todo, determinada como no dia em que fugiu de casa e se apresentou na escola secundária de Gombe, a dois dias de viagem da sua aldeia natal no Nordeste da Nigéria, conseguindo ser matriculada, Hauwa Ibrahim é hoje um monumento de libertação e, depois de receber o prémio Sakharov, uma referência estável até na Europa, como explica a euro-deputada Silvia Costa, participante do painel do encontro junto com ela:

“Hauwa é um autêntico modelo de luta cultural, política, midiática para nós mulheres europeias. É a demonstração prática de que a mulher é sujeito pleno da política e não objeto. As mulheres são o principal motor da mudança e só graças a um maior envolvimento delas se poderá fazer a diferença”.

  • A ela se dirigem as jovens e mães do seu país para serem salvas da condenação à morte.
  • A ela dirigem seus olhares mulheres de todo o mundo na esperança de que seus filhos sejam salvos do terrorismo.
  • Nela encontram inspiração, na luta pelos direitos humanos e civis, muitas pessoas de todos os continentes.

Ao vê-la e ouvi-la, pensamos quanto é incrivelmente acanhado o papel das mulheres no mundo, em todos os níveis, e perguntamo-nos o que tem que acontecer para que nos decidamos a dar à mulher poder, espaço de decisão, de mediação, de resolução.

Provavelmente é a pergunta certa que deve ser feita neste dia em que os votos para o futuro, mais do que a elas, deveriam ser feitos a nós.

 

Luca Attanasio

Lucca Attanasio

http://www.lastampa.it/2017/03/08/vaticaninsider/ita/nel-mondo/potere-alle-madri-la-testimonianzadi-hauwa-ibrahim-XpqY8i9lyiBbYLDKlb4M4N/pagina.html

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