Desta vez, até para a extrema-direita Milo Yiannopoulos foi longe demais

O seu discurso xenófobo, racista, anti-feminista e anti-LGBT tem sido frequente alvo de polémica

21 de Fevereiro de 2017

Contrato milionário com editora cai após cancelamento de participação em conferência com Trump e Pence.

… Esta segunda-feira, a editora Simon & Schuster e a sua marca editorial Threshold Editions anunciaram que, “depois de uma ponderação cuidadosa”, decidiu cancelar publicação do livro: Dangerous (Perigoso), uma obra autobiográfica de Yiannopoulos 

Acabou-se o namoro da direita norte-americana com a estrela da alt right Milo Yiannopoulos. Desta vez, o teor das afirmações do polémico colunista britânico em relação à normalização e aceitação do abuso de menores custaram-lhe um negócio milionário com uma editora para a publicação do seu livro, e valeram críticas da ala mais conservadora da política norte-americana, que até agora tinha dado carta branca às posições discriminatórias do editor do site Breitbart News sob o pretexto da liberdade de expressão.

As declarações polémicas constam de uma gravação de um vídeo de live-streaming que circulou durante este fim-de-semana.

Nas imagens gravadas durante uma emissão do podcast Drunken Peasants, Yiannopoulos relativiza os crimes de pedofilia e expressa aprovação sobre as relações sexuais entre rapazes de 13 anos e homens mais velhos, que considera poderem ser “ experiências tremendamente positivas”. “Ajuda os rapazes a descobrir quem são e dá-lhes segurança, uma relação com um amor e um tipo de estabilidade que eles não têm com os pais”, defende Yiannopoulos. E falando sobre os escândalos de abuso de menores na Igreja Católica nos Estados Unidos, o polemista graceja e responde que foi graças a um padre que melhorou as suas técnicas de sexo oral.

“Pedofilia não é a atracção sexual em relação a alguém com 13 anos que é sexualmente maturo. Pedofilia é a atracção por crianças que ainda não atingiram a puberdade”, continua, discutindo “a noção de consentimento” como “opressiva” e afirmando que “a idade de consentimento não é uma questão de preto no branco”.

Esta segunda-feira, a editora Simon & Schuster e a sua marca editorial Threshold Editions anunciaram que, “depois de uma ponderação cuidadosa”, decidiu cancelar publicação do livro: Dangerous (Perigoso), uma obra autobiográfica de Yiannopoulos que tinha data prevista de chegada às bancas para 13 de Junho, e pela qual autor teria recebido adiantadamente 250 mil dólares (cerca de 236 mil euros) no final de 2016, escreve o Guardian. Esta terça-feira, uma pesquisa do título do livro na loja online Amazon conduzia a um endereço não disponível, deixando por isso de ser possível reservar a compra da obra.

 

PÚBLICO -

Foto: Detalhe da capa do livro Dangerous DR 

 

Antes disso já tinha sido retirado o convite para participar na Conferência da Acção Política Conservadora (Conservative Political Action Conference) que lhe tinha sido feito pelo actual líder da União Conservadora Norte-Americana, Matt Schlapp. O responsável pela organização considerou que os esclarecimentos que Yiannopoulos prestou através do Facebook sobre a sua defesa da pedofilia foram “insuficientes”.

“Devido à publicação de um vídeo ofensivo nas últimas 24 horas aprovando a pedofilia, a União Conservadora Norte-Americana decidiu rescindir o convite”, explicou Schlapp, rejeitando a presença de Yiannopoulos no evento que contará com o Presidente e o vice-presidente dos EUA, Donald Trump e Mike Pence.

“Continuamos a pensar que a CPAC é um fórum construtivo para controvérsias e desacordos entre os conservadores, mas entre nós não há discórdia sobre os males do abuso sexual de crianças”, acrescentou.

Na sua página de Facebook, Milo Yiannopoulos começa por lembrar aos leitores que é homossexual e que também foi vítima de abuso sexual quando era menor, sublinhando o seu “repúdio por adultos que abusam sexualmente de menores”. Reconhece, no entanto, que o vídeo que circula desde o fim-de-semana mostra uma mensagem diferente, e atribuí ao seu “sarcasmo britânico e tom de humor provocatório”, os mal-entendidos. Acrescenta que as pessoas “lidam de formas diferentes com o seu passado”.

Reconhece que a escolha das suas palavras “não foi a melhor”. Ainda assim, esta publicação segue uma anterior que, no ponto seis, reitera que “relações entre jovens e homens mais velhos podem ajudar um jovem gay a encontrar o apoio e entendimento que não encontram em casa”.

“Isto é perfeitamente verdade e todos os gays o sabem. Mas não estava a falar de nada ilegal nem me referia a rapazes pré-adolescentes”, escreve. “Já passei por pior. Isto não me vai derrotar”, assevera.

Esta não é a primeira vez em tempos recentes que a presença de Milo num evento é cancelada. No início do mês, a Universidade da Califórnia em Berkeley cancelou a palestra onde Yiannopoulos iria falar depois de um protesto de centenas de alunos, que degenerou em episódios de vandalismo.

 

 

Trump ameaça cortar fundos a universidade que retirou convite a orador de extrema-direita.

Nessa altura, Robert Reich, professor da universidade e secretário do Trabalho de Bill Clinton, contava à CNN que tinha estado presente nos protestos e que acreditava que as acções mais violentas tinham sido executadas por membros da extrema-direita, exteriores à universidade, que apoiam o editor do Breitbart News e que queriam espalhar o caos no campus.

Quando soube do cancelamento da presença de Yiannopoulos, Donald Trump chegou mesmo a ameaçar cortar o financiamento da universidade, alegando tratar-se de um atentado à liberdade de expressão.

Quem é o “o supervilão mais fabuloso da Internet”?

“Devoto” apoiante de Donald Trump, a quem chama de “papá”, Milo Yiannopoulos é tudo menos alguém fácil de entender. O escritor britânico de 33 anos, editor do site Breitbart News, é um nome cada vez mais conhecido pelas suas polémicas (e confusas) declarações. Homossexual assumido, judeu filho de pai grego e mãe britânica, Yiannopoulos assume-se como “ultra-conservador” e surpreende pelo seu discurso 

Apesar de expressar a sua preferência sexual por homens negros, o “privilégio” termina na cama e rapidamente encontramos comentários e acções que celebram a supremacia branca. Foi expulso definitivamente do Twitter por incentivar ataques a uma actriz afro-americana – Leslie Jones,  (Foto) da nova versão de Ghostbusters – e criou de uma bolsa de estudo reservada exclusivamente a homens caucasianos, a Privelege Grant

Yiannopoulos considera o Black Lives Matter um movimento “extremista” e é um forte crítico grupos feministas e LGBT. Afirma que “agarrar as partes privadas de uma mulher não é abuso sexual”, mas sim “uma forma de as mulheres dizerem que alguém expressou interesse sexual nelas”, citando exemplos de histórias de abusos sexuais em universidades e diz que “as mulheres deviam aceitar ser apalpadas e não fazer queixa, tentando destruir a reputação dos rapazes”.

Na sexta-feira, por exemplo, no programa da HBO Real Time With Bill Maher, Yiannopoulos disse que o feminismo era “uma doença” e que as pessoas transgénero eram “o equivalente a sociopatas”, num discurso analisado pelo Huffington Post e que rebate as afirmações de Yiannopoulos com números que provam a sua falsidade.

Autor de textos como “Pílulas contraceptivas tornam as mulheres feias e loucas” ou “Preferia que o seu filho tivesse feminismo ou cancro?”, escreveu ainda um “guia para a alt-right”, uma designação nova para um movimento velho: a extrema-direita.

Nos seus discursos e publicações – que ganham voz no Breitbart News (site até há pouco tempo era liderado pelo actual conselheiro-chefe da Casa Branca, Stephen Bannon), Yiannopoulos advoga que as mulheres que tomam a pílula

  • ameaçam a masculinidade dos homens,
  • destroem a instituição do casamento,
  • causam o divórcio

e defende o fim de métodos contraceptivos para “combater o crescimento da população muçulmana”.

Diz ainda que as mulheres “estão mais deprimidas” desde que passaram a integrar o mercado de trabalho, “mas não têm coragem de se suicidar”. Acrescenta ainda que “a luta pela igualdade de géneros é absurda” e “não, as mulheres não podem ter tudo”, sendo que o “tudo” são os mesmos direitos que os homens.

Ainda assim, acredita que tal não irá acontecer “porque o QI das mulheres é inferior” e “se a civilização caísse nas mãos das mulheres ainda viveríamos em casas de palha”.

Milo Yiannopoulos marcou uma conferência de imprensa em Nova Iorque para esta terça-feira, para as 15h.

 

Liliana Borges

Liliana Borges

Fonte: https://www.publico.pt/2017/02/21/mundo/noticia/livro-de-milo-yiannopoulos-cancelado-depois-de-comentarios-1762771

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