O chefe dos Cavaleiros de Malta diz que foi Burke que pediu que o Grão-Chanceler se demitisse

Austen Ivereigh –15/02/2017Knights of Malta chief says it was Burke who asked official to resign

Tradução: Orlando Almeida

Foto: Ludwig Hoffman Rumerstein, chefe interino da Ordem de Malta. (Crédito: Der Standard.)

Numa entrevista a um jornal austríaco, o chefe interino da Ordem de Malta disse que estava presente na reunião em que o Grão Chanceler foi convidado a demitir-se – e que foi o cardeal norte-americano Raymond Burke, e não o Grão-Mestre, que fez o pedido.

 

O capelão dos Cavaleiros de Malta, o arqui-crítico do papa cardeal norte-americano Raymond Burke, e não o seu Grão-Mestre, foi quem pediu ao Grão-Chanceler da Ordem que se demitisse, de acordo com chefe em exercício dos Cavaleiros.

Ludwing Hoffmann von Rumerstein, que é austríaco, estava presente numa reunião em 6 de dezembro na qual o Grão-Chanceler, Albrecht Von Boeselager, foi convidado a se demitir. A sua recusa e eventual saída por motivos de desobediência levou a uma controvérsia durante semanas com o Vaticano, que exigiu que ele fosse reintegrado.

O Grão-Mestre da Ordem, Frei ‘Matthew Festing, finalmente renunciou em 24 de janeiro. O Conselho Soberano reempossou Boeselager e nomeou Hoffmann von Rumerstein lugar-tenente dos Cavaleiros ad interim.

O pretexto para a demissão de Boeselager foi que o reformador alemão tinha sido anos antes responsável pelo braço humanitário da ordem, a Malteser International, que por um tempo teria financiado organizações que usavam preservativos em projetos de prevenção da Aids entre os mais pobres.

 A questão tinha sido longamente investigada e Boeselager inocentado, mas a Burke fora entregue ou fora por encomendado um relatório de um instituto tradicionalista de Nova York que forneceu novas provas.

Relatos de jornalistas que tiveram como fonte o cardeal descrevem Festing pedindo que o alemão renunciasse, enquanto Burke sentado estava silenciosamente presente. Burke também negou em outra ocasião o relato de Boeselager de que o cardeal invocara a autoridade do papa para a demissão.

 Mas em uma entrevista a um jornal austríaco, Hoffman-Rumerstein apresenta um quadro muito diferente.

“A conversa ocorreu na forma de uma conversa normal” – disse ele ao jornal austríaco Der Standard. “Boeselager disse não ao apelo do Cardeal Burke para que se demitisse. E eu segui o cardeal até o carro”.

Perguntado sobre a reação do cardeal, Hoffman-Rumerstein disse: “Ele balançou a cabeça. Ele estava descontente, poder-se-ia dizer. Ele esperava que Boeselager renunciasse”.

Mais adiante, na entrevista, Rumerstein confirma que na reunião de 6 de dezembro “houve realmente uma conversa entre o Cardeal Burke e Boeselager”.

Fontes de dentro da ordem insistiram longamente que o cardeal estava por trás da demissão, mas até agora ninguém afirmou oficialmente que Burke realmente fez o pedido.

A revelação também levará a novas perguntas sobre declarações feitas pela ordem em dezembro, em resposta a cartas do secretário de Estado pedindo que Boeselager fosse reintegrado.

As declarações, que insistiam em que a Ordem de Malta era soberana e não tinha necessidade de prestar contas de si mesma ao papa, diz-se que foram feitas por instigação de Burke.

Mas se o relato de Hoffmann-Rumerstein é exato, foi Burke, e não o papa, que pode ter violado a soberania dos Cavaleiros: a decisão de demitir um membro do Conselho Soberano só pode ser feita pelo Capítulo Geral da Ordem, não pelo capelão do papa, ou patronus, que representa a Santa Sé.

Hoffmann-Rumerstein diz ao Der Standard que os membros do Conselho Soberano foram eleitos pelo Capítulo Geral e só podem ser removidos com o consentimento dele – o que sugeriria que as ações de Burke eram ilegais de acordo com a própria constituição da Ordem, como Boeselager alegou na época.

“Os membros do Capítulo Geral elegeram-nos. Há dúvidas sobre se o Cardeal Patrono [Burke] poderia algum dia dizer ‘Você tem que renunciar’. Teria que se voltar ao Capítulo Geral”.

Hoffmann-Rumerstein descreveu como “non sense” a ideia de que ao pedir a reintegração de Boeselager e enviar um legado papal para supervisionar mudanças na Ordem, o Vaticano violou de alguma forma a soberania da Ordem.

“Nós somos uma ordem religiosa leiga. Através dos membros professos, somos reconhecidos como uma ordem completa, como há muitas outras ordens na Igreja. E, claro, estamos totalmente sujeitos ao Vaticano em questões morais e religiosas… Estamos subordinados à Igreja Católica”.

Sobre o pretexto usado para demitir Boeselager, o uso de preservativos em projetos financiados por Malteser, o lugar-tenente diz que isso “não é surpreendente numa organização desta complexidade e tamanho” e que “o governo [da Ordem] foi sempre informado e as consequências corretas foram tiradas”.

Hoffmann-Rumerstein também negou as acusações feitas em duas reportagens sobre a reunião do Conselho Soberano em 20 de janeiro em que a ordem ratificou a renúncia de Festing feita ao Papa Francisco alguns dias antes.

Ele diz que nunca ouviu Festing descrever o papa Francisco como seu inimigo, como relatado por Christopher Lamb do [semanário] The Tablet. Ele também contestou um relato de Edward Pentin do National Catholic Register de que havia um “punhado” de votos contra a aceitação da renúncia de Festing.

Perguntado se a votação foi unânime, o lugar-tenente disse: “não foi nem um nem outro”, acrescentando que “há também pessoas que não querem uma unanimidade e, portanto, fazem um sinal de que não é unânime”.

Hoffmann-Rumerstein disse que o delegado do papa, o arcebispo Angelo Becciu, foi nomeado “para ajudar com a mudança de nossa Ordem religiosa, especialmente na adaptação aos tempos modernos”.

Entre as mudanças haverá uma emenda à constituição abolindo a exigência de que o Grão-Mestre seja de linhagem nobre que remonte até pelo menos 150 anos atrás. “Isso terá que mudar”, disse Hoffmann-Rumerstein.

Ele também disse que o número de pessoas elegíveis para o cargo de Grão-Mestre – atualmente apenas 12 – é muito pequeno, e que é necessário introduzir um limite de idade para o Grão-Mestre.

“Esta foi também uma dica que recebi do Vaticano: Aqui vocês devem mudar alguma coisa”, disse ele, acrescentando que a questão havia sido discutida em 1997, mas nenhum limite de idade havia sido estabelecido.

“Hoje, depois de vinte anos, é absolutamente necessário”, disse, acrescentando que, na sua opinião, os Grão-Mestres devem renunciar aos 80 anos.

Ele disse que as mudanças serão feitas nos próximos dois anos, quando o próximo capítulo geral elegerá o novo Grão-Mestre.

 

 

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Austen Ivereigh

https://cruxnow.com/analysis/2017/02/15/knights-malta-chief-says-burke-asked-official-resign/

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