Pádua. O bispo Cláudio Cipolla sobre o padre investigado: “Peço perdão”

 A carta às comunidades cristãs da diocese: a fé de muitos de nós está sendo posta à prova,  peço orações intensas. “Mas não esqueçamos que a nossa Igreja brilha por histórias e  pessoas santas”.

Avvenire –  Redação – 19/01/2017

Tradução: Orlando Almeida

Uma carta cheia de dor e sofrimento, dirigida às comunidades cristãs de Pádua, “provadas, confusas e escandalizadas por acontecimentos relacionados com a nossa Igreja“. Escreve-a o bispo de Pádua, monsenhor Claudio Cipolla, que nestes dias se encontrava em visita às missões diocesanas no Equador e no Brasil.

O caso é o do pároco da igreja de São Lázaro, na periferia leste da cidade, padre Andrea Contin, que está sendo investigado por maus-tratos e favorecimento da prostituição, em que estariam envolvidas várias mulheres.

 

Eis o texto da carta de monsenhor Cipolla

 “Sinto a necessidade de estar presente neste momento de sofrimento da nossa Diocese, sofrimento para mim, para os padres, para os diáconos, para as pessoas consagradas, mas também para todas as nossas comunidades. Imagino como devem estar provadas, confusas, escandalizadas por acontecimentos relacionados com a nossa Igreja. Não é a primeira vez que é posta à prova a fé de muitos de nós.

Lembro até a mim mesmo que cada cristão, cada crente, continua sendo um homem que a cada dia, exatamente por causa da sua fragilidade de criatura, tem de renovar a sua aliança com o Senhor e a sua comunhão com Ele e com a comunidade.

O mal existe mesmo nas igrejas assim como em cada um dos crentes. Espero que estas experiências não façam julgar inútil o nosso compromisso com o bem, com a pureza, com a honestidade e com todas as outras virtudes humanas que nós, cristãos, julgamos necessárias para mostrar a nossa fé. Não mudemos o caminho indicado pelo Evangelho e continuemos juntos a lutar pelo bem, apesar de tudo!

Ou antes, sinto que é ainda mais urgente e necessário crescer na Fé precisamente por causa destas “graves situações”, ouço ainda mais forte o apelo a construir a minha vida sobre Jesus e sobre o seu Evangelho, como sobre uma rocha, a única segura, e sei que devo agarrar-me sempre mais tenazmente a Ele, mesmo quando os meus companheiros, aqueles com quem contava, traem o compromisso que assumimos juntos.

Atravessámos outras situações graves e a cada vez sabemos que devemos retornar à origem da nossa fé para encontrar força. Também sabemos que Deus sempre será sempre fiel. Encontro-me agora na situação de ter que buscar força espiritual não só para mim mesmo mas também para os meus irmãos no sacerdócio e no diaconato e sei que com eles somos chamados a apoiar-vos, queridos irmãos e irmãs, a vocês que justamente esperais do nosso serviço apoio e ajuda.

Não podemos fazer outra coisa senão ajoelharmo-nos juntos e pedir a ajuda e a misericórdia do Senhor. Cada vez mais. Sabendo que ninguém atingiu a meta e que vive em constante perigo de passar de santificador para tentador, de servo do bem para servo do mal.

Vim até vocês para pedir uma oração mais intensa pela nossa Igreja, pelos seus padres e diáconos, pelas nossas famílias, e também por mim: que o Senhor nos ajude e nos dê a sua paz.

Fizeram-me bem nestas últimas semanas as orações, a proximidade e a solidariedade de tantos irmãos e irmãs, especialmente de tantos amigos padres e bispos. Enquanto os nossos jornais se gloriam de ter alcançado repercussão na TV internacional, eu me envergonho – e não apenas como homem da Igreja – porque ganhámos apenas a comiseração de muitos, e a ironia e zombaria de muitos outros. Nem todos estão entendendo que é uma ferida dolorosa para a nossa Igreja e para a nossa sociedade de Pádua.

Estes fatos lançam uma sombra tenebrosa principalmente sobre a nossa Igreja: talvez seja por isso que eu me sinto envergonhado e gostaria de pedir eu mesmo perdão por aqueles que, amigos nossos, atentaram contra a credibilidade da nossa pregação. Neste campo, mesmo que não haja relevância do ponto de vista penal, canonicamente, isto é, de acordo com as regras que demos a nós mesmos como Igreja, somos obrigados a tomar medidas disciplinares porque não podemos aceitar mal-entendidos.

Mas não devemos esquecer que a nossa Igreja brilha porque tem histórias e pessoas santas, seja no passado seja no presente. Não merece ser reduzida apenas a todos os erros e pecados cometidos na sua história recente, como se se tratasse de uma história de malfeitos, nem é justo apresentá-la assim aos nossos jovens, aos nossos hóspedes, às nossas famílias.

Cheguei aqui há pouco tempo, mas diante da minha Igreja ‘patavina’ sei que devo tirar o calçado… porque é terra santa! Este mal, que faz tanto barulho, não me impede de lembrar e ver os tantos padres e diáconos que sacrificaram a vida na coerência, com humildade e fidelidade, o bem que tantos homens e mulheres estão vivendo com discrição e longe dos holofotes, em Pádua, na Itália, no estrangeiro… a nossa terra é santa!

Nela vive o Senhor! Peço respeito, neste momento de dor, pelo bem que fez, pelo amor demonstrado para com os doentes, os idosos, os deficientes, os pobres… pelas obras de justiça, de caridade, de cultura e de educação às quais se dedicou totalmente, como agora.

Nós também, a Igreja de Pádua, queremos honestidade e coerência, sobretudo internamente. Para isso educamos e é isso que acreditamos e buscamos com todas as nossas forças, desde sempre. Seja abençoado portanto quem nos ajuda a tirar o mal, mesmo quando ele se infiltra tão prepotentemente entre nós”.

 

https://www.avvenire.it/attualita/pagine/vescovo-di-padova-cipolla-sul-caso-di-don-andrea-contin

 

VEJA MAIS

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Pádua. O padre Contin prestes a ser suspenso a divinis. O Papa telefona ao bispo Cipolla

Quinta-feira, fevereiro 2, 2017

Tradução: Orlando Almeida

O Bispo de Pádua explica as medidas tomadas pela Cúria contra o ex-pároco de São Lázaro envolvido numa investigação judicial por violência.

Conferência de imprensa de Mons. Cláudio Cipolla

Muitas manifestações de proximidade, cartas e mensagens numa situação objetivamente difícil: o bispo de Pádua, monsenhor Claudio Cipolla, inicia a sua conferência de imprensa com aquilo que para ele teve um significado especial. O telefonema do Papa Francisco, no sábado, 28 de janeiro às 19:30. “Encorajou-me – disse o bispo aos repórteres – a ser forte para suportar este momento difícil e doloroso da nossa Igreja de Pádua ».

O caso que abalou Pádua

O “momento doloroso” é a história de Andrea Contin, o ex-pároco de S. Lázaro que acabou envolvido numa investigação judicial por maus-tratos e favorecimento da prostituição depois que uma mulher o acusou de tê-la forçado a participar de encontros sexuais de grupo. O bispo Cipolla, que voltou antecipadamente de uma viagem ás missões diocesanas na América Latina, reconstruiu o ocorrido no que se refere à Igreja.

As primeiras denúncias sobre o comportamento do ex-pároco chegaram no início do ano passado, mas de forma anônima. As primeiras comunicações escritas e autografadas, solicitadas pela própria Cúria, vieram uma em maio e outra em outubro; daí partiu a investigação, com as declarações das pessoas que se consideravam vítimas de crime e que foram aconselhadas a procurar a magistratura.

A carta de monsenhor Cipolla à comunidade

“Se, no que diz respeito à investigação sobre os crimes atribuídos ao padre Andrea Contin, a competência passou ao poder judicial – disse Mons. Claudio Cipolla –infelizmente amadurecemos a certeza das suas graves responsabilidades morais. Trata-se de comportamentos inaceitáveis para um padre, para um cristão, e até para um homem”.

Condutas imorais que, segundo as palavras do bispo, somente nestes dias foram admitidas diante do próprio bispo, do Vigário Geral e do Tribunal Eclesiástico.

 

O texto da declaração de monsenhor Cipolla

Uma vez que a figura do padre Andrea foi “de tal modo comprometida que não pode ser apresentada, mesmo havendo um arrependimento sincero”, a nenhuma comunidade, foi aberto um processo de suspensão a divinis “enquanto se aguarda o aprofundamento dos termos que podem levar à demissão do estado clerical.

Mas monsenhor Cipolla não se esquece de que é um pastor, e por isso garante que procurará assim mesmo “acompanhar o padre Andrea no seu caminho e não lhe deixarei faltar a minha proximidade”.

O outro sacerdote envolvido nesta feia história é o padre Roberto Cavazzana, que não está atualmente sob investigação, mas que teve um comportamento “não aceitável para um padre”. Por outro lado ainda não apareceram outros padres envolvidos.

E agora o que diz respeito às investigações e à vigilância por parte da Igreja: o bispo anunciou que o tribunal eclesiástico diocesano terá um reforço de pessoal para as investigações preliminares, na eventualidade de surgirem outros casos.

Será constituída em breve uma comissão independente para ouvir e recolher observações, denúncias contra padres, religiosos, agentes pastorais. Haverá uma linha telefónica exclusiva para denúncias e um endereço de e-mail. Mas, no caso de alguém suspeitar da existência de crimes, o bispo aconselha que recorra ao judiciário.

No fim, um apelo a lembrar todo o bem praticado pela  Igreja de Pádua, com os seus 700 padres: “A nossa fragilidade –  disse o bispo – não tira nada à beleza do Evangelho e à sua capacidade de servir para a felicidade das pessoas.”

A carta de um preso ao bispo

“Pensam que descobriram o Mal … Que pena, que tristeza”. São palavras de uma carta que um preso escreveu ao bispo de Pádua, Claudio Cipolla, sobre o modo como a imprensa e a televisão trataram a história triste do padre Andrea Contin. Esta tarde o bispo Cipolla leu-a durante a celebração eucarística com religiosos e religiosas da diocese,  comentando: “É quase um presente, a reflexão que um preso me enviou para me apoiar”.

 

Eis o texto da carta:

“Faz-me sentir mal nestes dias aquele inútil e diabólico (em sentido etimológico) circo de artigos e reportagens de televisão sobre a história do pároco de São Lázaro. Constroem roteiros perversos, poluem o pensamento e o coração daqueles que lêem e ouvem, provocam e julgam. Pensam que descobriram o Mal e que podem atribuir-se uma bela medalha de ‘bons’. Que pena, que tristeza …

“O Mal, nós o conhecemos de verdade, nós o conhecemos bem. Não julgamos porque sabemos que o julgamento não vence o Mal, antes, no máximo, constrói para ele um belo refúgio onde ele pode multiplicar-se longe de olhos indiscretos. Aprendemos que o mal é desarmado pela brandura, é banal e insípido. O enfrentamento e as palavras responsáveis, honestas, põem às claras toda a sua inconsistência.

“Perdoa-me se escrevo assim, não sei bem porque me deu vontade de fazê-lo, mas acho que seria o que te diria se neste momento estivesses aqui na minha frente. Na verdade, talvez mais diretamente, eu te diria: ‘Padre, não te perturbes e não deixes que te desanimem esses escrevinhadores, artistas da confusão; desarma-os com a  mansidão, ajuda-os a entender como toda essa sua vaidade jornalística é inútil para os fins da verdade’”.

“Mansidão e enfrentamento – concluiu o bispo –  palavras responsáveis e honestas”.

https://www.avvenire.it/attualita/pagine/don-contin-vescovo-padova-sospensione-telefonata-papa-francesco

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Pádua, o caso do padre Andrea Contin e o mistério do mal

Alguns pensamentos sobre a vida dupla de um padre, a curiosidade mórbida da mídia, a necessidade do evangelho, a misericórdia.

 

Andrea Tornielli – 04/02/2017

Tradução: Orlando Almeida

“Diante desta situação, não sinto rancor, mas desgosto e dor. Gostaria de ficar em silêncio como um pai diante de um filho que caiu em alguma desgraça”.

São as palavras usadas pelo Bispo de Pádua, Claudio Cipolla, durante a conferência de imprensa sobre o caso do padre Andrea Contin. Como é sabido, o sacerdote, pároco estimado pelos fiéis, foi acusado – e admitiu – ter organizado orgias e ter abusado da fragilidade de algumas mulheres, que se estavam separando dos maridos, para ter relações sexuais com elas.

Nestas semanas, transcrições dos depoimentos, entrevistas, histórias às vezes temperadas com toques de perversa fantasia, foram o pão midiático de cada dia de jornais, televisão, ‘talk shows’.

É um reflexo condicionado, previsível e óbvio: se pregas bem, mas ages mal (muito mal neste caso), quando o teu mal é descoberto, não somente se vira contra ti, mas torna-se um contra-testemunho do Evangelho com consequências incalculáveis. Um tsunami incontrolável.

Dir-se-á: é um resultado do qual não se pode fugir. Os relatos de detalhes picantes sobre as perversões do padre, sobre a sua coleção de objetos sexuais, sobre as gravações em vídeo das orgias, sobre o envolvimento de outro padre conhecido do público por ter sido apresentado pela mídia nacional como o “diretor espiritual de Belen Rodriguez”, talvez fossem inevitáveis. Porque era isso que o público esperava.

Para evitar quaisquer mal-entendidos, deve-se dizer que estamos diante de fatos gravíssimos, ainda que tenham ocorrido entre adultos mais ou menos consencientes. Não se tratou de um momento de fraqueza, de solidão, de uma ou mais quedas vividas como tais por um padre incapaz de resistir à tentação.

Este é um caso clássico daquilo que o papa Francisco qualifica como pecado que se transforma em corrupção. O pecador é aquele que reconhece o seu pecado, pede perdão e permite que a graça de Deus o ajude a reerguer-se.

O corrupto transforma o seu pecado num sistema, vive uma vida dupla e considera-se justificado. A diferença não está na gravidade ou na frequência dos pecados, nem no fato de que esses pecados possam se tornar crimes.

A diferença está no coração, na atitude da pessoa. O pecador é um mendigo, humilde e humilhado depois do seu pecado. O corrupto é arrogante, justifica-se a si mesmo, cria à sua volta uma couraça e faz do seu pecado um hábito, justificando-o.

Como se torna possível que um padre faça o que fez o padre Contin e celebre diariamente a missa, desenvolvendo até uma atividade pastoral bem aceita, é uma questão que não encontra resposta senão refletindo sobre o abismo do mistério do mal.

Portanto agiu bem o bispo ao não usar uma palavra sequer que pudesse soar como justificadora, e ao não se esquivar das responsabilidades atribuindo-as aos contextos da nossa sociedade líquida que parece ter perdido todo o pudor. Agiu bem também ao anunciar a decisão de ativar instrumentos capazes de acelerar a apuração das denúncias para evitar delongas e excessos de cautela quando se trata de intervir.

Mas há algumas perguntas que continuam em aberto e que não dizem respeito nem a procedimentos canônicos, nem à surrada questão do celibato sacerdotal, sempre reiterada quando um padre alcança as honras da crônica por questões de sexo, um argumento que neste caso está totalmente fora do lugar: o clero de fato não tem a exclusividade de certas perversões e a busca compulsiva de experiências transgressivas tem muitas vezes como protagonistas indivíduos regularmente casados.

Os questionamentos que continuam em aberto tampouco dizem respeito à formação dos novos padres que, em alguns casos, hoje se mostram humanamente frágeis, com problemas ligados à sexualidade, às vezes sublimados, mas, de qualquer modo, não resolvidos.

Ao contrário, as perguntas que continuam em aberto dizem respeito às relações de amizade entre os sacerdotes. Que uma situação difícil, uma crise de identidade, possam ter desembocado numa vida dupla como a do padre Contin é uma questão que não permite ter sonos tranquilos aos fiéis da paróquia de que ele era titular e nem ao presbiterado da diocese de Pádua e aos seus pastores.

As maçãs podres existem e seria fácil demais refugiar-se nas estatísticas para dizer que, entre setecentos padres cuja grande maioria se empenha com dedicação ao serviço do povo de Deus, um caso como o do padre Andrea pode acontecer.

Ou lembrar que, em oposição a este mal e a esta perversão que são alardeados no noticiário, há uma enorme quantidade de bem que não é notícia. O papa Francisco usou tempos atrás palavras muito duras para descrever o fenômeno, falando de “coprofilia” da mídia que alimenta a “coprofagia” de certo público.

A outra, grande e inevitável pergunta é mais profunda e diz respeito ao mal, ao pecado. De quem não é cristão, ou de quem, embora batizado, está muito longe da experiência de fé, podem-se esperar, diante de casos como este, não só juízos ferinos de condenação, mas também generalizações, escárnio, deboche.

Mas quem é cristão não pode ficar alheio ao drama causado pelas perversões do padre Contin. Porque esta ferida é uma ferida na família, diz respeito dolorosamente a todos os membros da comunidade cristã.

Não se pode ficar de fora, como que colocando-se num pedestal, a julgar, como se o mistério do mal, o pecado, não tivesse relação com as nossas vidas. Se, por uma graça especial, o pecado não nos afetou nos níveis descritos nos detalhes mórbidos do noticiário destes dias, ainda assim devemos manter aberta essa ferida.

Aprendendo, a partir de casos dolorosos como estes, que cada um de nós precisa de verdadeiras relações humanas e de amizade. Que cada um de nós precisa de perdão, de misericórdia; precisa ser abraçado, amado e encorajado todos os dias. Cada um de nós precisa reconhecer-se necessitado.

E por isso, diante das notícias sobre estas imoralidades, não resta senão pedir misericórdia e perdão, rezando em primeiro lugar pelas vítimas, pelos padres envolvidos, pelas pessoas simples que ficaram escandalizadas.

 

Andrea Tornielli

http://www.lastampa.it/2017/02/04/vaticaninsider/ita/commenti/padova-il-caso-di-don-andrea-contin-e-il-mistero-del-male-YYJWhx8Ykee1XsQAXSIB1L/pagina.html

 

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