Mas será que o card. Müller leu “Amoris Laetitia”?

Andrea Grillo – 01-02-2017 no blog: Come se non

Tradução: Orlando Almeida

Transformar um elemento positivo numa estrutura especulativa é sempre muito perigoso. E ainda mais o é quando se pretende fazê-lo ignorando o texto de uma Exortação Apostólica;

fazer passar por “opiniões de alguns padres sinodais” as palavras explícitas de uma Exortação Apostólica pode agradar aos leitores de “Il Timone”, mas não é um serviço à verdade. Sobre este ponto, o ministério de um Prefeito de Congregação deveria evitar criar confusão e registrar a evolução de uma disciplina, ajudando a entendê-la, em vez de fingir ignorá-la.

Em uma entrevista à revista “Timone”, o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé responde a uma pergunta com estas palavras:

Pergunta – “A exortação de S. João Paulo II, “Familiaris Consortio”, prevê que os casais de divorciados recasados, ​​que não podem separar-se, devem comprometer-se a viver em continência para ter acesso aos sacramentos. Esse compromisso ainda é válido?

 

Resposta do Card. Muller (foto) – Certamente, não pode ser contornado porque não é só uma lei positiva de João Paulo II, mas expressou o que é elemento constitutivo da teologia moral cristã e da teologia dos sacramentos.

A confusão sobre este ponto refere-se também à falta de aceitação da encíclica “Veritatis Splendor” com a doutrina clara do “intrinsece malum” […] (intrinsecamente mau – NdR)

Para nós, o matrimônio é uma expressão da participação da unidade entre Cristo esposo e a Igreja sua esposa. Esta não é, como alguns disseram durante o Sínodo, uma mera analogia vaga. Não!

Esta é a substância do sacramento, e nenhum poder no céu e na terra, nem um anjo, nem o Papa, nem um concílio, ou uma lei dos bispos, tem o poder de mudá-lo”.

 

 

Aqui não só se expressam algumas convicções que

  • não são de modo algum “magistério adquirido”,
  • mas sim interpretações forçadas recentes da doutrina comum,
  • mas também são citados apenas os trabalhos do Sínodo e ignora-se o texto de AL.

Não são de fato “alguns Padres sinodais” que expuseram teorias extravagantes sobre a relação entre Igreja e matrimônio, mas é próprio texto da AL nos n.os 72-73 que fala respectivamente de “sinal imperfeito” e de “analogia imperfeita” para definir a relação entre o sacramento do matrimônio e as núpcias de Cristo com a sua Igreja.

E o faz ‘apertis verbis’ e desse modo permite que se considere, doutrinariamente e pastoralmente, não só o “bem máximo” do casamento, mas também o bem “possível.”

 

 

Leiamos os dois textos, que o Prefeito parece não conhecer. Sublinho em negrito as expressões mais significativas:

72. O sacramento do matrimônio não é uma convenção social, um rito vazio ou o mero sinal externo dum compromisso.

O sacramento é um dom para a santificação e a salvação dos esposos, porque ‘a sua pertença recíproca é a representação real,   através do sinal sacramental, da mesma relação de Cristo com a Igreja. Os esposos são, portanto, para a Igreja a             lembrança permanente daquilo que aconteceu na cruz; são um para o outro, e para os filhos, testemunhas da salvação, da qual o           sacramento os faz participar’.

O matrimônio é uma vocação, sendo uma resposta à chamada específica para viver o amor conjugal como sinal imperfeito do    amor entre Cristo e a Igreja. Por isso, a decisão de se casar e formar uma família deve ser fruto dum discernimento vocacional.

  1. ‘O dom recíproco constitutivo do matrimônio sacramental está enraizado na graça do baptismo, que estabelece a aliança fundamental de cada pessoa com Cristo na Igreja. Na mútua recepção e com a graça de Cristo, os noivos prometem-se entrega total, fidelidade e abertura à vida, e também reconhecem como elementos constitutivos do matrimónio os dons que Deus lhes oferece, tomando a sério o seu mútuo compromisso, em nome de Deus e perante a Igreja. Ora, na fé, é possível assumir os bens do matrimônio como compromissos que se podem cumprir melhor com a ajuda da graça do sacramento. (…)

Portanto, o olhar da Igreja volta-se para os esposos como o coração da família inteira, que, por sua vez, levanta o seu olhar para Jesus’. O sacramento não é uma ‘coisa’ nem uma ‘força’, mas o próprio Cristo, na realidade, ‘vem ao encontro dos esposos cristãos com o sacramento do matrimônio. Fica com eles, dá-lhes a coragem de O seguirem, tomando sobre si a sua cruz, de se levantarem depois das quedas, de se perdoarem mutuamente, de levarem o fardo uns dos outros’. O matrimônio cristão é um sinal que não só indica quanto Cristo amou a sua Igreja na Aliança selada na Cruz, mas torna presente esse amor na comunhão dos esposos.

Quando se unem numa só carne, representam o desposório do Filho de Deus com a natureza humana. Por isso, ‘nas alegrias do seu amor e da sua vida familiar, Ele dá-lhes, já neste mundo, um antegozo do festim das núpcias do Cordeiro’. Embora ‘a analogia entre o casal marido-esposa e Cristo-Igreja’ seja uma ‘analogia imperfeita’, convida a invocar o Senhor para que derrame o seu amor nas limitações das relações conjugais”.

 

Podemos observar que:

- ninguém fala de “relacionamento vago”, mas de “analogia imperfeita.” Isso não exclui de modo algum uma relação de “representação real” e de “eficácia” entre sacramento e vida eclesial, mas distingue cuidadosa e precisamente essa representação da “reapresentação eucarística”. Mas exatamente esta “identidade” é que seria uma interpretação forçada da tradição, para a qual parece inclinar-se a interpretação maximalista apresentada pelos 4 cardeais e que o Prefeito Mueller parece compartilhar;

- a “lei da continência” para as famílias em segundas núpcias é uma solução provisória e parcial, que hoje ainda é possível, mas não mais necessária. Neste ponto, parece-me, a idealização do sacramento coincide com uma desfiguração da antropologia. E é curioso que a sua formulação tenha sido “inventada” pela ‘Familiaris Consortio’ ao passo que o Prefeito a apresenta como uma “verdade constitutiva da teologia moral e da teologia dos sacramentos”.

Transformar um elemento positivo numa estrutura especulativa é sempre muito perigoso. E ainda mais o é quando se pretende fazê-lo ignorando o texto de uma Exortação Apostólica;

- fazer passar por “opiniões de alguns padres sinodais” as palavras explícitas de uma Exortação Apostólica pode agradar aos leitores de “Il Timone”, mas não é um serviço à verdade. Sobre este ponto, o ministério de um Prefeito de Congregação deveria evitar criar confusão e registrar a evolução de uma disciplina, ajudando a entendê-la, em vez de fingir ignorá-la.

 Faço-me, por fim, algumas perguntas:

  • por que o Prefeito não lê com a devida atenção os documentos do papa?
  • E porque endossa superficialmente as teses de cardeais que não querem aplicar AL,
  • enquanto critica abertamente os bispos que resolveram fazer um caminho sério de recepção do documento?

Também nisto Mueller parece ignorar que é a própria AL (n.os 2-3) que pede o que o Prefeito censura: de fato um processo de recepção sinodal não é uma violação do centralismo eclesial, mas o remédio para a sua patologia.

 

 Andrea Grillo

Andrea Grillo

 Fontes: http://www.cittadellaeditrice.com/munera/ma-il-card-mueller-ha-letto-amoris-laetitia/

2 comments to Mas será que o card. Müller leu “Amoris Laetitia”?

  • Irene Cacais

    “A exortação de S. João Paulo II, “Familiaris Consortio”, prevê que os casais de divorciados recasados, ​​que não podem separar-se, devem comprometer-se a viver em continência para ter acesso aos sacramentos. Esse compromisso ainda é válido?”

    Eu pergunto: O casamento é só relações sexuais?? O casamento não é compromisso, amor, companheirismo, compartilhar a vida?

    Então se uma pessoa tinha este compromisso com tudo que implica com outra pessoa e o relacionamento por alguma razão acabou, esta pessoa pode ter este compromisso com tudo que implica com outra pessoa – desde que não tenho relações sexuais??

    Se neste novo compromisso, na segunda união, começa a faltar amor, companheirismo, respeito, a pessoa pode comungar, desde que não tenha relações sexuais?

    Isto não é resumir o casamento somente a relações sexuais??
    Eu me pergunto: de onde vem esta obsessão da nossa hierarquia com o sexo?

  • Vanderlei Alves Pereira Junior

    Prezados Leitores,
    vejamos que situação curiosa, de repente uma exortação apostólica tem valor superior as Sagradas Escrituras, pois o nosso Senhor diz que, aquele que deixar sua esposa e se casar com outra, comete adultério, e São Paulo assevera que nenhum adúltero herdará o reino dos Céus. Pois bem, agora esse senhor Grillo, autor do artigo, reclama que o cardeal da interpreta mal e não quer aplicar as palavras do Papa. Intrigante análise, será ele realmente católico? Fica a pergunta… Respondendo a uma indagação da senhora acima, a hierarquia não tem obsessão por sexo, não é isso não senhora. O fato é que, aquilo que diferencia o matrimônio, de outras formas de relação, é exatamente isso, pois as senhora, se tem filhos, tem amor, compaixão, companheirismo, ternura, etc, para com seus filhos, mas de certo que não faz sexo com eles, de modo que, essa postura disciplinar é uma forma da igreja tentar salvaguardar a retidão da verdade doutrinária, com a misericórdia para com aqueles que se encontram numa situação delicada, de forma alguma se pode pensar em obsessão. Por fim, assim como o batismo é uma vez para sempre, se for válido, também é o casamento, só que até a morte, de modo que não dá para descasar, ou seja, ele não acaba pela vontade humana, assim como o batismo, só Deus poderia fazê-lo, e Ele não o quis.

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