Ordem de Malta, a carta de Francisco

Assim a Santa Sé foi envolvida no caso: o Cardeal Burke em novembro pediu ao Papa que interviesse para dar o aval à expulsão do grão-chanceler Boeselager. Mas no texto Bergoglio não pedia demissões

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Andrea Tornielli – 13/01/2017

Fotos: FranciscoMatthew Festing. Osservatore Romano e Internet. 

“É difícil prever como vai terminar a controvérsia, que além do mais não é nova na história das relações entre os Cavaleiros de Malta e o Vaticano.A clara tomada de posição do Grão-Mestre exposta na carta que opõe a recusa de qualquer colaboração com a comissão instituída pela Santa Sé, não reconhecendo a ela qualquer direito de se envolver nos assuntos da Ordem, é um sinal de como a tensão está alta.”

Continua alta a tensão entre a Santa Sé e os Cavaleiros de Malta, depois do comunicado com o qual o Grão-Mestre Fra Matthew Festing declarou publicamente que a Ordem não tem a intenção de colaborar de nenhum modo com a comissão criada pela Santa Sé para lançar luz sobre a expulsão do Grão-Chanceler Albrecht Freiherr von Boeselager, acusado ter mandado distribuir  preservativos durante uma campanha humanitária em Mianmar nos últimos anos. Boeselager defendeu-se declarando que ele não estava a par da coisa, decidida a nível local, e que interveio logo que teve conhecimento disso.

Com a carta contundente do Grão-Mestre, a Ordem reivindica a sua soberania e lembra a todos a autonomia dos seus estatutos, dizendo que o Papa não deve intrometer-se nos seus assuntos internos. Mas a tentativa de envolver o Pontífice, fazendo-o endossar a demissão de alguns Cavaleiros entre os quais Boeselager (Foto), veio da Ordem, ou melhor, do seu cardeal patrono, Raymond Leo Burke e a história começou com uma carta do próprio Francisco.

‘The Tablet’ [semanário católico da Inglaterra], na edição do último dia 5, revelava a existência de uma carta enviada a Fra Matthew Festing, no 21 de dezembro de 2016, pelo secretário de Estado, cardeal Pietro Parolin, na qual afirmava que não era desejo do Papa que a remoção de Boeselager acontecesse.

“Como eu já havia dito na minha carta anterior, de 12 de dezembro de 2016: sobre o uso e difusão de métodos e meios contrários à lei moral, Sua Santidade pediu um diálogo sobre a maneira como podem ser tratados e resolvidos eventuais problemas. Mas ele nunca disse para expulsar alguém”.

Há, portanto, duas cartas de Parolin para o Grão-Mestre, e já na primeira delas – datada de 12 de dezembro – se fazia referência ao que o Papa tinha “pedido”. Mas quando e por quê  Francisco interveio nos assuntos internos dos Cavaleiros pedindo alguma coisa?

 Burke contra Francisco? Ele quer corrigir o papa sobre a Amoris Laetitia…

Tudo começa em 10 de novembro de 2016, quando o cardeal patrono da Ordem, Raymond Leo Burke, é recebido em audiência pelo Pontífice. Falta menos de uma semana para a publicação dos famosos “dubia” sobre Amoris laetitia, apresentados um mês e meio antes, mas aparentemente não foi este o tema de discussão.

Nos dias posteriores à audiência, Francisco dirige uma carta a Burke para a cúpula dos Cavaleiros de Malta, na qual se convida a resolver a controvérsia com o diálogo, assim como a vigiar sobre o respeito da moral católica (uma referência não muito implícita ao caso da distribuição de preservativos em Myanmar, o ‘casus belli’ apontado para justificar a demissão de Boeselager) e também a estar atentos a possíveis infiltrações na Ordem de associações contrárias à Igreja.

Pelo que se pode reconstruir, o cardeal tinha pedido ao Papa o aval para proceder à expulsão de vários membros, a começar pelo Grão-Chanceler. Francisco então interveio relembrando alguns princípios, mas pedindo também que o caso fosse discutido internamente sem expurgos.

No momento da expulsão de Boeselager, foi citado como justificativa do fato o aval do Vaticano, ou antes do Papa. Francisco e a Santa Sé foram portanto envolvidos a fim de corroborar a clamorosa decisão tomada e compartilhada pelo Grão-Mestre e pelo cardeal patrono.  Foi por isso também que o Cardeal Secretário de Estado, o principal colaborador do Papa, interveio com as duas cartas sucessivas, que se somam à primeira de Francisco: para reiterar o que o Papa tinha realmente pedido e desmentir por outro lado o que lhe tinha sido atribuído.

É difícil prever como vai terminar a controvérsia, que além do mais não é nova na história das relações entre os Cavaleiros de Malta e o Vaticano. A clara tomada de posição do Grão-Mestre exposta na carta que opõe a recusa de qualquer colaboração com a comissão instituída pela Santa Sé, não reconhecendo a ela qualquer direito de se envolver nos assuntos da Ordem, é um sinal de como a tensão está alta.

Entretanto a comissão replicou à dura declaração do Grão-Mestre com igual clareza, com uma nota legal  difundida pela ‘Catholic News Service’, a agência dos bispos dos Estados Unidos, na qual se recorda que a decisão de criar o grupo não é da Secretaria de Estado mas do próprio Pontífice. Também se adverte que a Ordem de Malta, como “ordem religiosa leiga” e “pessoa jurídica reconhecida pela Santa Sé”, está sujeita à “obediência” ao Papa.

O aviso legal também lembra que a “comissão convocada e formada pelo Santo Padre é completamente legítima e autorizada pelo Supremo Pastor para lhe prestar informações acerca do procedimento, e unicamente acerca de procedimento, que levou à suspensão do Grão-Chanceler do seu cargo. Não se trata de uma intromissão nos assuntos internos da Ordem, porque a finalidade da Comissão, como deve estar evidente, é fornecer ao Santo Padre informações sobre o procedimento e nada mais”.

 

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Andrea Tornielli

Fonte: http://www.lastampa.it/2017/01/13/vaticaninsider/ita/vaticano/ordine-di-malta-la-lettera-di-francesco-7JH9reW6JqV20SLwpDsh9O/pagina.html

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