A humanidade de Deus

Francisco enraizou o seu discurso precisamente na festa do Natal, que é “a festa da humildade amante de Deus”

  Anselmo Borges – 07/01/2017Imagem relacionada

“Na Igreja há mais religião do que Evangelho.” “Jesus deu-se conta de que a religião, tal como funciona, entra em conflito com a felicidade do ser humano, e as religiões proíbem amar certas pessoas, e são exigentes com as coisas mais íntimas das pessoas, mas mostram-se tolerantes com o dinheiro. Não toleram a igualdade: as religiões dão-se mal com a igualdade e têm de estabelecer diferenças: eu posso mais do que tu, e proíbo-te que penses ou digas isso.”

Dá que pensar: Jesus

  • “manteve uma relação de intimidade constante e familiar com Deus-Pai,
  • mas manteve igualmente uma relação mortalmente conflituosa com o Templo e os Sacerdotes”.

O Deus da fé cristã é “verdadeiro Deus” e também “verdadeiro homem”. O que se passa é que parece mais fácil crer no divino do que crer no humano. Ora, “o cristão não pode crer no divino, se não crê no humano”, isto é, “não pode respeitar o divino, se não respeitar igualmente o humano”. Quem ofende, humilha, mata, o ser humano, realmente não acredita em Deus.

O problema é: “na Igreja há mais religião do que Evangelho.

“Jesus deu-se conta de que

  • a religião, tal como funciona, entra em conflito com a felicidade do ser humano,
  • e as religiões proíbem amar certas pessoas,
  • e são exigentes com as coisas mais íntimas das pessoas,
  • mas mostram-se tolerantes com o dinheiro.
  • Não toleram a igualdade: as religiões dão-se mal com a igualdade e têm de estabelecer diferenças: eu posso mais do que tu, e proíbo-te que penses ou digas isso.”

Por isso, “na Igreja, há tantas coisas que nos indignam e que não podemos aceitar.

  • Porque é que se respeita mais o templo do que a rua?
  • Porque é que se respeita mais certos homens do que certas mulheres?
  • Porque é que o direito canónico concede aos clérigos direitos e privilégios que os leigos não podem ter?”

Afinal, “a grande preocupação de Jesus não era se as pessoas pecavam mais ou menos, mas se tinham fome ou se estavam doentes”.

E Castillo observa, indignado:

  • “Sabem quando é que a Igreja condenou a escravatura? Com Gregório XVI, em meados do século XIX”.
  • Porque é que o Vaticano ainda não subscreveu os acordos internacionais para a aplicação dos direitos humanos?
  • Procurem a palavra “mulher” no Código de Direito Canónico. Não a encontrarão.”

No entanto, sublinha, nos Evangelhos encontramos a profunda humanidade de Jesus, que se manifesta nas suas três grandes preocupações:

  • a saúde,
  • a alimentação
  • e as relações humanas;

por isso, aparece

  • a curar doentes,
  • a partilhar as refeições,
  • acolhendo toda a gente, falando com todos, sem excluir ninguém.

Aí está: a fé no “divino” e no “humano” não pode valer “só enquanto se refere à “outra vida”, pois tem de valer e viver-se também em tudo quanto afecta “esta vida””.

E Castillo afirma, com razão, que Francisco coincidirá em muitas coisas com ele, ainda que não em tudo.

 

2 – Apesar de todas as críticas – o cardeal Burke está na frente, pensando até na sua “destituição”-, Francisco não desanima, pois o que é preciso é voltar ao Evangelho. Assim, depois de no Natal de 2014 ter catalogado as “doenças da Cúria”, arremeteu, no seu discurso do Natal de 2016, contra “as resistências” e exigiu uma “conversão autêntica”.

E cá está: Francisco enraizou o seu discurso precisamente na festa do Natal, que é “a festa da humildade amante de Deus”, onde “a lógica divina supera a nossa lógica humana”, sendo, pois, urgente dizer não à “lógica mundana, do poder, do mando, da lógica farisaica e determinista”.

A Boa-Nova deve ser anunciada a todos, especialmente aos pobres, humildes e descartados, com atenção aos sinais dos tempos e, consequentemente, aos homens e mulheres de hoje”, recordando que a Cúria tem como finalidade, entre outras, “colaborar no ministério do sucessor de Pedro, para apoiar o Romano Pontífice no seu trabalho ordinário, pleno e universal”. E atirou: a reforma “não tem uma finalidade estética, nem pode ser entendida como um lifting e, menos ainda, como uma cirurgia plástica para tirar as rugas”; porque “não devemos ter medo das rugas, mas das manchas”.

Elencou os vários tipos de resistência:

  • “a resistência aberta, que nasce da boa vontade e do diálogo sincero”: “uma resistência boa é necessária e merece ser escutada, aceite e animo a que se exprima, sendo sinal de que o corpo todo está vivo.”
  • Mas há “as resistências maliciosas ocultas, que nascem de corações petrificados que se alimentam das palavras vazias, do “gatopardismo espiritual” de quem diz por palavras que está disposto a mudar, mas quer que tudo continue como antes”.
  • E “as resistências maliciosas, que se dão quando o diabo inspira más intenções, muitas vezes com pele de cordeiro.

Este tipo de resistência esconde-se por detrás das palavras de justificação e, em muitas ocasiões, acusatórias, refugiando–se nas tradições, nas aparências”. E traçou os doze “critérios–guia” para a reforma da Igreja, sublinhando, concretamente:

  • a conversão pessoal;
  • a conversão pastoral;
  • o dinamismo evangelizador;
  • a escuta dos sinais dos tempos;
  • a racionalidade;
  • o aggiornamento;
  • a sinodalidade;
  • a catolicidade, implicando que “a Cúria deve assumir pessoal proveniente de todo o mundo, diáconos permanentes, leigos e leigas, com base na vida espiritual e moral e a sua competência profissional. Acesso a um maior número de leigos, especialmente onde podem ser mais competentes do que os clérigos ou consagrados. De grande importância é o valor da mulher e do leigo na vida da Igreja, com particular atenção à multiculturalidade”; uma política de formação permanente, acabando com a prática do promoveatur ut amoveatur (promoção de alguém, para removê-lo): “isto é um cancro”;
  • discernimento.

A base de tudo é a renovação:

“A reforma só será eficaz se for com pessoas renovadas e não simplesmente com novo pessoal. Não basta mudar o pessoal, embora seja preciso fazê-lo, exige-se a conversão das pessoas. Não basta a formação permanente. Exige-se uma conversão e purificação permanente. Sem a mudança de mentalidade, todos os esforços serão em vão.”

O segredo: voltar ao Evangelho, a Jesus. O que diria e faria Jesus hoje?

 

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

Anselmo Borges

Fonte: http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/anselmo-borges/interior/a-humanidade-de-deus-5588753.html

 

2 comments to A humanidade de Deus

  • Beto

    Belíssima explanação. Boff publicou dias atrás que não parou de atuar como sacerdote e está administrando normalmente os sacramentos. Que maravilha. Tem mais padres casados no Brasil que continuam atuando na prática como sacerdotes com a permissão de bispos? Quem são estes bispos engajados com a renovação tipo Papa Francisco? Quanto mais exemplos, melhor para a sociedade, quanto mais publicidade disto, mais pressão sobre os bispos lerdos.

  • giba

    Beto,
    Sim, vários ministram, normalmente ou esporadicamente os sacramentos. Com permissão explícita ou tácita dos bispos. Ou mesmo sem ela, seguindo a própria consciência que, como sabes, é o ultimo e sagrado refúgio de cada ser humano, onde só ele e Deus podem entrar. Sabes também que o poder de ordem de celebrar validamente os Sacramentos, nãos foi tirado. Só seu uso comum. Só está suspenso. E também sabes que, em alguns casos, o próprio Direito Canônico permite e ou incentiva o padre casado a usar este seu poder de ordem. Podes conferir os cânones: 290-293; 976; 986, §2º; 1335 e 1752. Como aconteceu comigo, na igreja da minha terra, quando o Pároco desmaiou e eu, tranquilamente, subi ao altar e completei a missa. O povo, que me conhece desde criança, achou normal e natural: sabem que sou padre, apesar de casado.
    Boff, um homem inteligente e livre, disse o que pensa e o que, em sua consciência, acha que deve e pode fazer:casa, celebra a missa, batiza, preside enterros, etc. Como muitos padres casados fazem, no Brasil e no mundo.
    Nos ossos Encontros nacionais e internacionais, por exemplo, mesmo na presença de colegas da ativa e até de bispos, todos concelebramos. Somos homens que têm clara consciência da sua liberdade de filhos de Deus.
    Muitos, pelo que eu sei, quando vão à missa, do seu lugar, concelebram com o Presidente da Assembleia.
    O papa Francisco sabe de nossas Associações Nacionais e internacionais e, sempre que pode, nos incentiva a não nos dispersarmos, a insistirmos em nossas reivindicações:
    – de instituir o celibato opcional na Igreja Latina
    – de, quem se dispuser, ser reintegrado no ministério pleno, já que o Povo de Deus tem direito à Eucaristia e há tantos milhões deles sem ela, inclusive no Brasil.

    João Tavares – Editor

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