José Marins: “A maioria dos bispos não está imitando o Papa, aplaudem-no, mas nada mais do que isso”

 

 Luis Miguel Modino, 08/01/2017 

Tradução: Orlando Almeida

Na Foto: PeJosé Marins

“O Vaticano II diz que quem consagra na missa são os batizados, e que o sacerdote preside”.  “A ordenação da mulher, ou qualquer outro ministério dela, é um gesto transformador”

José Marins é um teólogo brasileiro considerado um especialista em Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Desde há quarenta anos visita vários países do mundo para animar, acompanhar e apoiar esta atividade eclesial que surgiu nos anos cinquenta no Brasil, e que de lá foi se estendendo aos países da América Latina e depois aos outros continentes.

Os seus estudos na Universidade Gregoriana de Roma permitiram-lhe entender a maneira de ser Igreja nascida do Vaticano II, que se concretizou na América Latina numa Igreja empenhada em tornar realidade a união entre fé e vida, aspecto que sempre esteve presente nas CEBs e em sua própria vida e teologia.

Nesta entrevista, o padre brasileiro, partindo da perspectiva que lhe dão os seus mais de sessenta anos de ministério sacerdotal, ajuda-nos a entender o que são as comunidades de base e sua evolução ao longo de mais de cinquenta anos e como, com a chegada do Papa Francisco, elas recobraram um reconhecimento eclesial que haviam perdido.

Ao mesmo tempo, mostra-nos os passos que devem ser dados para que aquilo que ele define como o primeiro nível da Igreja possa estar mais presente na vida do dia a dia de tantos homens e mulheres que querem continuar a descobrir os instrumentos que tornem possível construir o Reino de Deus.

EIS A ENTREVISTA

O senhor conhece as CEBs desde os primeiros momentos em que nasceram. Como as definiria?

Seria o primeiro nível da Igreja de Jesus Cristo. Concentra em seu pequeno nível a totalidade da Igreja, em comunhão com a diocese e com o conjunto da Igreja. Portanto, uma Igreja completa em pequena escala, assim como uma semente é uma árvore em tamanho menor.

 

As CEBs têm mais de cinquenta anos de caminhada. Em que mudaram neste tempo?

As CEBs começaram no Brasil na década de cinquenta, com algumas experiências pioneiras no Nordeste, Maranhão, Rio Grande do Norte, um pouco na Paraíba, depois no estado de São Paulo. Em 1962, o Concílio Vaticano II fundamentou muito melhor a visão da Igreja que anima a comunidade eclesial de base. Como ele renovou a Igreja, a fundamentou, as CEBs, evidentemente, sendo o primeiro nível da Igreja, se beneficiaram.

As CEBs foram apresentadas oficialmente em Medellín. No número 15,10 do Documento de Medellin vê-se a Igreja na sua primeira expressão, mas é toda a Igreja, não um movimento ou carisma. Nos primeiros dez, quinze anos, as comunidades de base foram uma novidade, todo mundo queria saber alguma coisa sobre a comunidade de base, queria até, ingenuamente, mudar o nome. Até então ela chamava-se grupo do Apostolado da Oração e com o tempo passou a chamar-se comunidade eclesial de base. Houve esta ingenuidade, mas também houve processos sérios de começar pequenas comunidades, sabendo que é um processo.

Como acontece na vida, ninguém nasce adulto, são pequenas comunidades que vão crescendo. Então, essa primeira etapa foi de novidade, todo mundo queria opinar sobre isso. Depois veio um momento em que se começou a perceber que a comunidade de base é exigente, que é a Igreja de Jesus, fermento, sal, luz no momento histórico em que estamos.

Aí entrou a questão do modelo, que já não é um modelo medieval, de cristandade, mas um modelo para ser Igreja agora, neste momento e nesta situação. Com isso, houve uma desconfiança para com as comunidades de base, pensaram que a sua espiritualidade não coincidia com a espiritualidade tradicional.

No estudo da Palavra havia dificuldades em entendê-la, de modo que parecia um protestantismo recauchutado, em que cada um interpreta como quer. Era também o período da Guerra Fria, por isso qualquer coisa diferente do ‘establhisment’ era comunista.

No Brasil, coincide com o período da ditadura, havendo uma contínua suspeita em relação às CEBs. Pessoas que diziam estas coisas, como Hélder Câmara, ou todos os que se comprometeram, foram muito perseguidos no Brasil, sendo um período de reação.

As comunidades de base naquela época foram muito mais de martírio, morreu muita gente, não porque negava o valor da doutrina da igreja e sim porque a aplicação da nossa fé levava a questionar a situação. Se devo amar o próximo como amo a Jesus, e o próximo é oprimido, esta opressão é contra Deus.

Os cristãos, pessoas das comunidades de base, foram perseguidos e eliminados por cristãos batizados, que não eram cristãos convertidos. Quando falei sobre isto na Ásia, as pessoas diziam que não era possível, porque eles entendem que os pagãos os persigam, mas um cristão torturar um cristão, isso não era possível. Eu respondia que isso aconteceu na América Latina.

As comunidades procuraram defender o que tinham,

  • garantir a Palavra de Deus,
  • a fidelidade na fé,
  • o apoio dos bispos e das autoridades da Igreja para salvar a vida de muitas pessoas.

Passado o período forte da repressão,

  • ficou um capitalismo muito negativo,
  • que não persegue mas desmoraliza,
  • e que coincide com o nascimento de alguns movimentos como os carismáticos,

que ganhou atenção dentro da Igreja e teve uma grande influência nas comunidades, seja pelas canções muito agradáveis, bonitas, atraentes, ou pelo estilo de oração que leva a sentir que se encontrou o que se procurava, ou pela experiência de encontrar-se com o Espírito, um pouco de tudo isso.

Houve um tempo, mas até hoje estamos sentindo as restrições, em que foi feita uma tentativa de desmantelar a comunidade de base, convertendo-a num movimento a mais,  social, da Palavra de Deus, mas um movimento, não uma pequena Igreja junto com a Igreja diocesana,  que é fermento para o mundo.

Neste momento sentimos que

  • não há oposição direta às comunidades de base,
  • praticamente não há uma campanha militante contra,
  • mas sim indiferença,

como algo que já passou, que era bonito, mas de outro tempo, e agora vamos voltar ao normal.

Por outro lado, as comunidades agora estão mais maduras, conseguiram integrar mais ou menos os elementos mais importantes, para o que ajudou muito o crescimento da fundamentação bíblica. Ficou mais clara a reflexão teológica sobre o pobre. Não é necessário optar pela Teologia da Libertação, mas esta realmente ajudou, pois tornou possível refletir sobre este caminho.

Neste momento,

  • as comunidades não têm o apoio da maioria do clero e da hierarquia.
  • Têm o apoio isolado de um ou dois bispos, alguns padres aqui ou acolá.
  • No conjunto dos seminaristas não há ninguém com preparação para acompanhar as comunidades de base.
  • O clero, em geral, não está preocupado com as comunidades de base, está mais feliz com os movimentos.
  • Os bispos também são um pouco indiferentes, não hostis, mas bastante indiferente em relação a isso.
  • Um processo de comunidade mais silencioso, mas, entretanto, as comunidades estão se desfazendo.
  • Acho que elas estão fortes e estão ganhando em qualidade, de acordo com o que as minhas visitas.

 

Ao contrário dessa indiferença do clero e dos bispos, vemos que, embora em momentos pontuais, o Papa Francisco ou o próprio Cardeal Ouellet têm destacado o papel das comunidades eclesiais de base. Não é significativo este reconhecimento?

Creio que da parte do Papa tem havido um apoio. O Papa Bergoglio teve na sua vida mais experiência da religiosidade popular do que da comunidade eclesial de base, considerada como instrumental de base da Igreja. Isso era típico do processo argentino, a religiosidade popular como a referência fundamental.

Isso inclui o padre como referência, o sacerdote e a comunidade ao redor. Mas, na verdade, nunca houve um papa que apoiasse de forma tão explícita as comunidades como o Papa Bergoglio, não tanto pelo que diz, mas pelo que faz, que coincide completamente com o que uma comunidade sonha poder realizar.

O que o cardeal canadense escreveu é uma surpresa, pois entre os cardeais não havia nenhuma afirmação desse tipo, embora ele não tenha dito que ela é a primeira instância da Igreja. Da forma como está lá poderíamos falar de um bonito movimento, pois diz que é muito boa, faz muito bem, mas ele não diz qual é a sua identidade,  que seria a Igreja em tamanho pequeno, a Igreja de Jesus aí.

Esses dois são uma exceção, pois a maioria dos bispos não está imitando o Papa, aplaudem-no, mas nada mais do que isso. Alguns inclusive são inimigos, não explícitos, mas em seu coração esperam que este Papa termine quanto antes o seu ministério, seja pedindo para se aposentar, seja morrendo.

 

Fala-se hoje de re-significação das CEBs. Do seu ponto de vista, quais são os passos que devem ser dados?

O primeiro aspecto é a Palavra de Deus. Se a comunidade se aprofunda na Palavra de Deus, não só como um estudo da doutrina mas como uma maneira de ser Igreja, é um aspecto importantíssimo.

O segundo seria uma Igreja que chega às maiorias simples, que sofrem, que ficaram à margem, que no sistema capitalista estão destinadas a desaparecer. E a comunidade é para todos, mas dá prioridade aos mais necessitados. Estes dois aspectos são muito fortes.

O terceiro é que as comunidades têm consciência de que a presença de Jesus, além da presença na eucaristia, se dá na comunidade, na Palavra, na missão. Isso está ajudando muito.

Um quarto elemento é que as comunidades começam a aprender a trabalhar com outros que não são católicos ou que não são crentes. Mas não para discutir religião, mas para ver o que podemos fazer juntos pelo Povo de Deus.

Creio que nesses quatro pontos está a força e a retomada das comunidades que não estão em decadência, nem abandonaram, mas que tenham uma visibilidade mais atraente no conjunto da Igreja Católica.

 

Em que poderia ajudar atualmente este modo de ser Igreja que as CEBs propõem na vivência do Cristianismo?

O que o Papa Francisco está dizendo é fundamental, uma Igreja em saída. Se a Igreja permanece dentro de si mesma, vai ficar fazendo a missão da sacristia, trabalha só no interior da Igreja. O Papa está nos dizendo que devemos sair, abrir-nos, entrar em contato com os outros, anunciar.

Creio que o aspeto missionário é urgentíssimo na Igreja, e a Igreja na América Latina não é missionária. Ser missionária não é enviar uma pessoa para um país estrangeiro, mas recolocar a proposta de Jesus no momento e na realidade atual.

  • Eu poria em primeiro lugar a dimensão missionária, entendida assim.
  • Em segundo lugar, como já foi dito, seria a Palavra,
  • e em terceiro uma igreja que se abre ao diálogo com todas as pessoas, porque toda a pessoa é amada por Deus.

Os católicos não têm o monopólio de Deus.

Uma Igreja que ajuda as pessoas a encontrar o caminho do Reino de Deus.

  • A meta da comunidade é o Reino de Deus,
  • o ponto de partida é a vida,
  • a mediação são pessoas, partindo das mais simples,
  • e o método é ver, julgar e agir,
  • tendo avaliar e celebrar como um processo complementar.

Avaliar não é descobrir quem é culpado, mas sim descobrir o rumo, como um avião que sai de noite, que não vê o seu objetivo, mas durante dez horas não perde o rumo. A Igreja precisa avaliar se estamos no rumo certo ou se estamos nos desviando por uma razão ou por outra. Há ventos e outros elementos, devido aos quais o avião pode desviar-se, mas ele tem que voltar ao rumo inicial.

José Marins: “La mayoría de los obispos no están imitando al Papa, lo están aplaudiendo, pero nada más que eso” :: América :: Religión Digital

Reunión de las CEBs

Reunião de CEBs no Paraguay

 

Francisco insiste na importância dos leigos, sobretudo das mulheres, no futuro da Igreja, o que é essencial na vida de CEBs. Por que razão o clero têm dificuldade em entender e aplicar isso na vida Igreja?

A mulher durante  milênios foi colocada em segundo plano; o clero, por ser masculino é machista, talvez não o reconheça, não foi educado para isso. Na América Latina, em quase todos os países, o filho homem recebe privilégios, a filha mulher não tem os privilégios que tem o homem, que pode sair à noite e muitas outras coisas.

Tudo isso é uma influência para que o clero não veja as mulheres como companheiras no trabalho. Para ajudar sim, e de fato a maioria dos que ajudam na Igreja são mulheres. Culturalmente o clero não está preparado para isso. Talvez não seja nem falta moral dele, mas cultural.

Em segundo lugar, a maioria do clero não aprendeu a trabalhar em equipe, nem com os homens, imagine-se então com as mulheres. Um presbítero que só sabe trabalhar individualmente, nunca será capaz de trabalhar nem com mulheres nem com os leigos, pois considera o leigo como inferior, quando na nossa teologia os ministros ordenados devem estar em função do Povo de Deus, e não ao contrário. Isso é pura mentira na prática, porque na prática as pessoas têm que estar a serviço do que o padre decide.

Deveria haver uma conversão em grupo por parte do clero, coisa que não está acontecendo nem creio que vá acontecer rapidamente, porque é uma coisa secular. Desde o povo hebreu é assim, o homem era tudo e a mulher não era nada, o testemunho de uma mulher não valia nada. E isso se manteve na Igreja, no sacerdócio do Antigo Testamento não nenhuma mulher, os patriarcas são homens…

Tudo isso está no subconsciente, ou talvez na consciência, do clero. É muito difícil, por isso creio que vai ser o ponto mais lento da Igreja. Não acho que a questão é se a mulher vai ser sacerdote, pois isso seria fácil, difícil é aceitar culturalmente.

 

Por que na Igreja se pensa que o clero está acima dos leigos, quando o Vaticano diz que todo o batizado participa do sacerdócio universal?

É que as teorias ficam no papel, o que conta é a vida. O seminarista, desde o seminário, já está vendo, quando vai ajudar nas paróquias, que realmente é o padre quem decide. Um padre vai pela esquerda e depois chega outro e decide que agora se vá pela direita, e quem não aceita é afastado.

O que você vê é o oposto. Posso ler muitas coisas do Vaticano II, mas o que conta é o que fazemos. Por exemplo, o Vaticano II diz que quem consagra na missa somos todos nós batizados e que o sacerdote é quem preside. Mas, de fato, ninguém pensa que está consagrando e sim que vai à missa do padre Antônio ou do padre João, e não à própria missa. A prática permaneceu muito mais forte do que a teoria, e se eles encontram essa prática vão adaptar-se a agir especificamente desse modo e não de acordo com a doutrina.

 

As CEBs surgiram na América Latina, mas o senhor disse que já foi à Ásia e a outros lugares. Pouco a pouco, esta maneira de ser Igreja está se estendendo por outras latitudes?

Deve ser muito pouco a pouco. Na Ásia, aonde fui mais do à África, é mais difícil para eles porque muitos dos países da Ásia estão saindo da Idade Média agora, quando nós já saímos há quinhentos anos. Então, tudo o que foi adquirindo pela humanidade, quase não existe no Oriente. Fora dos Estados Unidos, Canadá e Europa, onde há uma visão cultural diferente, no resto do mundo ainda estamos naquele conceito não de escravidão propriamente, mas sim de enorme diferença entre alguns tipos de pessoas e outros, entre homens e mulheres, entre quem estudou e quem não estudou, entre ricos e pobres. Isso, mesmo que não se queira, repercute na Igreja.

O cristianismo deveria dar um testemunho disso. A ordenação da mulher, ou qualquer outro ministério dela, mais do que ter mais alguém no ministério, é um gesto transformador, que é o que conta. Não se trata de aumentar o número de padres ou de ministros, mas de uma questão de perspectiva.

Luís Miguel Modino

http://www.periodistadigital.com/religion/america/2017/01/08/jose-marins-la-mayoria-de-los-obispos-no-esta-imitando-al-papa-lo-estan-aplaudiendo-pero-nada-mas-que-eso-religion-iglesia-cebs-brasil-america-mujeres-laicos.shtml

1 comment to José Marins: “A maioria dos bispos não está imitando o Papa, aplaudem-no, mas nada mais do que isso”

  • giba

    Louvo esta entrevista do meu colega Marins. Por 4 anos estudamos teologia na UNIVERSIDADE GREGORIANA,do Vaticano, em Roma.
    Juntos ingressamos no Movimento por um mundo melhor, do Pe. Lombardi.
    Abraço catarinense. prezado Marins!
    Gilberto

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