Tudo é política

 

Milly Lacombe- 03/01/2017

Não há nada relacionado à forma como vivemos que deixe de envolver política: da roupa que usamos, passando pela forma como escolhemos cuidar de nossos corpos, pelas coisas que comemos, os livros que lemos e os filmes que assistimos.

Então, se é preciso um esforço grande para não politizar os acontecimentos mais banais e corriqueiros – como, por exemplo, usar ou não filtro solar – é preciso um esforço infinitamente maior para não politizar tragédias como a chacina de uma família inteira por motivos que envolvem preconceito e intolerância.

 

Estou vendo gente esperneando por todos os lados na tentativa de isolar o assassino de Campinas como um psicopata e nada além disso. Infelizmente essa leitura escapista é incompleta, rasa e movida por desespero porque, é natural, ninguém quer se associar a uma barbaridade dessas, nem que seja por um segundo.

Mas é importante contextualizar as coisas, todas elas.

Nem seria preciso que o assassino tivesse deixado uma carta altamente política a respeito do ato de loucura que cometeu, descrevendo bolsonaricamente todos os seus preconceitos. Ainda que faltasse um comunicado não demoraria para que chegássemos à penosa conclusão de que o gesto insano estava todo amparado, do começo ao fim, por ideologia e discriminação.

Isso não quer dizer que todo pensamento de direita conduza a chacinas, esse é um argumento também superficial e que impede reflexão.

Claro que há malucos alinhados com o pensamento de esquerda também, basta lembrar de dois dos maiores genocidas da história: Mao e Stalin. Mas a evolução do Capitalismo, que nos inseriu nesse mundo desigual e injusto, fez com que a linha que separa direita e esquerda fosse marcada de modo a concentrar do lado direito todo o tipo de preconceito:

  • de gênero,
  • de classe,
  • de sexualidade,
  • de espiritualidade,
  • etc.

Há oito meses

  • testemunhamos a mutilação do estado democrático de direito no Brasil
  • e mergulhamos em um período de esquartejamento de todo o tipo de direito social da classe trabalhadora.

E embora tivéssemos calculado as consequências mais diretas de abrirmos mão da democracia ainda não estamos equipados para enxergar as indiretamente relacionadas.

Incapazes de entender as cada dia mais pesadas dificuldades da vida pelo que elas são – pura e simples luta de classes patrocinada por um governo autocrático que tira direitos do povo e os transforma em benefícios para o alto empresariado – a classe média, que se enxerga elite mas na verdade está alinhada com as necessidades da classe trabalhadora – vai se aprofundar em nervosismo, incompreensão, desespero e seguir espanando.

A consequência é que haja pessoas que se isolem ainda mais em seus castelos despedaçados e cedam a seus instintos mais animais já que, como sugere a TV, a culpa pelo fracasso da minha vida é

  • daquela vadia,
  • daquele mulato,
  • daquele imigrante,
  • daquela bicha;

A culpa é sempre do diferente, mas nunca, jamais, do sistema econômico porque o sistema econômico, segue sugerindo a TV,

  • é o melhor de todos
  • dado que a alternativa seria, como dizer… os horrores do comunismo.

Por agora vamos deixar de lado a crítica à narrativa infantilizada que prega que a única alternativa ao capitalismo seria o comunismo. Isso fica para outro texto.

Sem compreender de forma real por que não há mais dinheiro para comprar as coisas que até pouco eram compradas, sem conseguir mais pagar a escola dos filhos, ou fazer as viagens que até ontem eram feitas, e alimentada pelo noticiário tendencioso e simplista que repete dia após dia ser tudo culpa da corrupção do PT, os fracos se entregarão ao convívio íntimo de seus monstros mais grotescos.

Infelizmente a tendência é a violência piorar muito, talvez caminhar para níveis que até agora não tínhamos conhecido por aqui.

A carta do assassino de Campinas é um manifesto político. Ela faz o grande favor de revelar publicamente como o crime estava amparado em ideologia.

Foi feminicídio. Foi intolerância. Foi preconceito.

Foi uma chacina alinhada às mais baixas crenças que sustentam a atual ideologia de direita no Brasil e no mundo.

Nem todo o homem e a mulher associados com o pensamento de direita são monstros, é evidente. Mas hoje em dia parece que todos os monstros estão associados com a direita.

Boa sorte aos que seguirão tentando gritar que o horror de Campinas não foi político. Foi político sim. Da primeira à última bala.

 

milly-lacombe

Milly Lacombe

https://blogdamilly.com/2017/01/03/tudo-e-politica/

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