A confusão dos “dubia” suscita outros “dubia” …

 

Luis Badilla – Francesco Gagliano – © copyright – 27/12/2016

Tradução: Orlando Almeida

Na Foto: Cardeais Brandmuller, Burke. Cafarra e Meuisner

–  O conhecido caso da carta que quatro cardeais enviaram ao Papa, onde são solicitadas respostas às suas cinco perguntas sobre algumas passagens da Exortação Amoris laetitia consideradas pouco claras e fora da doutrina, já se tornou uma bela confusão.

 

Os elementos claros e incontroversos são poucos, mas importantes:

(1) A carta agora de domínio público, ainda que enviada de forma privada, endereçada ao Papa;

(2) A entrega do texto da carta aos jornalistas amigos dos quatro cardeais, que obviamente a publicaram e amplificaram com a devida solércia;

(3) A violação da correspondência privada do Papa (uma carta, não sendo aberta ou pública, não deveria ser entregue a nenhum jornalista. A sua publicação, por vontade dos signatários, de certa forma equivale a tê-la subtraído da mesa de Francisco);

(4) O cardeal Leo R. Burke, em várias entrevistas, continuou a repetir: faremos, se não chegarem as respostas pedidas, uma “correção formal” pública do magistério pontifício. Recentemente ele declarou que isso poderia acontecer após as festas de Natal;

(5) Dos outros três signatários, dois –  Carlo Caffarra, italiano, e Joachim Meisner, alemão – nunca fizeram qualquer declaração acerca do caso;

(6) O quarto, o alemão Walter Brandmüller, fez algumas declarações ao portal Vatican Insider, que o seu coordenador, Andrea Tornielli, resumiu em um seu artigo;

(7) Dois outros cardeais expressaram algum apoio à carta dos quatro cardeais, mas com diferentes matizes: o cardeal alemão Paul Cordes foi claro e inequívoco, mas a opinião do italiano Renato Raffaele Martino foi menos clara e mais articulada.

*******

Estas são as únicas passagens ou elementos claros. Fora deste exíguo espaço a situação parece confusa, opaca e de alguma maneira misteriosa. Aqui vai uma lista parcial dos “dubia” sobre a carta e sobre o que aconteceu após a sua divulgação:

(1) A entrega da cópia da carta aos jornalistas para que a publicassem foi uma iniciativa só de alguns signatários, um ou dois, ou todos os quatro?

(2) O Cardeal Burke, nas suas várias entrevistas após a publicação da carta, falou a título pessoal ou em nome do “grupo”? Houve ou não um acordo nesse sentido com os outros cardeais?

(3) A “correção formal” (do ensinamento do Papa) anunciada e quase ameaçada em várias ocasiões pelo cardeal Burke tem um suporte ou algum estudo canônico por trás, uma vez que não demonstra ser um instituto existente? E se assim fosse, quais seriam os seus fundamentos?

(4) A “correção formal”, anunciado para depois do Natal, é um projeto só do Cardeal Burke, de todos os quatro cardeais, ou de alguns?

(5) O que o cardeal Walter Brandmüller declarou ao Vatican Insider são apenas considerações cautelosas suas ou mensagens para o cardeal Burke? Eles falaram entre eles ou preferem comunicar as suas mensagens através da imprensa?

(6) Quando o cardeal Walter Brandmüller diz ao Vatican Insider que uma eventual “correção fraterna” do Papa deveria ocorrer ‘in camera caritatis’ pretende claramente dizer que não deveria realizar-se em público por meio de atos ou escritos postos em circulação. E porque então a carta foi entregue aos jornalistas amigos para que a divulgassem? E essa correção ‘in camera caritatis’seria assinada por quem? Por alguns cardeais ou por todos os signatários? E como se explica a contradição entre a publicar uma carta privada dirigida ao Papa e, depois, não obtendo a resposta solicitada, corrigir o ensinamento papal em privado (o que dirão os signatários aos que leram as 5 perguntas?, ou já se prevê também entregar aos jornalistas amigos o texto da correção ‘in camera caritatis’?).

(7) O cardeal Brandmüller disse ao Vatican Insider: “Devo, ao contrário, supor que o cardeal Burke esteja convencido de que, em primeira instância, uma correção fraterna deva acontecer ‘in camera caritatis’. O que significa “supor que …”? O cardeal Brandmüller tem conhecimento ou não da eventual convicção do Cardeal Burke de proceder de forma  privada ou pública em sua correção? Ou está fazendo uma sugestão?

(8) Se o cardeal Brandmüller declara sobre o cardeal Burke: “Devo dizer que o cardeal expressou – com plena autonomia – a sua opinião, que certamente poderia ser compartilhada também por outros cardeais”… o que isto significa? Que antes o cardeal Burke não tenha falado sempre em nome do grupo? E se assim fosse por que os outros três, ou pelo menos Brandmüller, não esclareceram o equívoco?

(9) Por último, o cardeal Brandmüller conclui: “Nós cardeais aguardamos a resposta aos “dubia”, uma vez que uma falta de resposta poderia ser vista por amplos setores da Igreja como uma rejeição da adesão clara e articulada à doutrina definida”.

“Nós cardeais…” …nós quem?, eles os quatro ou todo o Colégio de Cardeais, ou a metade ou um terço … quantos?

E depois porque “uma falta de resposta” do Papa à carta comportaria que “amplos setores da Igreja” a deveriam considerar “uma rejeição da adesão clara e articulada à doutrina definida”?

Onde está a lógica e a consistência de tal afirmação? Ou quer-se dizer que a não-resposta do Papa já é “uma rejeição da adesão clara e articulada à doutrina definida”  ?

Luis Badilla – Francesco Gagliano

 

Fonte: http://ilsismografo.blogspot.com.br/2016/12/italia-il-pasticcio-dei-dubia-suscita.html#more

 

3 comments to A confusão dos “dubia” suscita outros “dubia” …

  • Abílio Louro de Carvalho

    Será que Suas Eminências sofrem de amnésia em relação ao juramento que fizeram:
    “Eu (nome e apelido), Cardeal da Santa Igreja Romana, prometo e juro ser fiel, desde agora e para sempre, enquanto viva, a Cristo e ao seu Evangelho, sendo constantemente obediente à Santa Igreja Apostólica Romana, ao bem-aventurado Pedro na pessoa do Sumo Pontífice e dos seus sucessores canonicamente eleitos; manter sempre com palavras e obras a comunhão com a Igreja Católica; não revelar a ninguém o que se me confie em segredo, nem divulgar aquilo que poderá acarretar dano ou desonra à Santa Igreja; desempenhar com grande diligência e fidelidade as tarefas para as quais estou chamado no meu serviço à Igreja, segundo as normas do Direito. Que assim me ajude Deus omnipotente.”?
    Terão feito o seu juramento inconscientemente?
    Ora, como o cardinalato não é de direito divino, Suas Santidades que acabem com ele ou que destituam os não cumpridores ou estes que tenham a coragem de se demitir. São conhecidos casos de cardeais que renunciaram ao cardinalato ativo e foram para as Missões…
    As discrepâncias a que têm direito deveriam ser sempre “in camera caritatis”, mas a sério. Até consta do juramento! e não faz sentido deixar de obedecer ao Papa para obedecer a um cardeal. Que eu saiba o Magistério pontifício é do Papa ou de alguém que fala como “vox Pontificis”.

  • Irene Cacais

    Eu só me pergunto: Onde estão os restantes 200 cardeais? Estão dormindo? Então está na hora de os católicos do mundo se levantarem e mandarem calar estes 4.

  • Vanderlei Alves Pereira Junior

    Prezados leitores,
    São Paulo não usurpou as funções de São Pedro quando o enfrentou publicamente, pois mais importante que diversas formalidades e o juramento, e o amor a Deus, a verdade e a salvação das almas, e é isso que está em jogo aqui. As favas com os juramentos que se sobreponham ao dever maior de obedecer a Deus e a doutrina. Obediência cega, neste caso, é contrária a caridade que sempre respeita a verdade, ou senão, caso houvesse um papa herético, teríamos que obedecê-lo “apenas” pela função que ocupa, o que é um absurdo. Ademais, a carta só produziu dúvidas, pois as perguntas não foram respondidas, estranhamente. Isso seria semelhante a perguntar ao professor alguma dúvida legítima sobre algum escrito dele, e o mesmo se negar a responder… Não faz sentido. Por último, quem não vê que há uma confusão generalizada no seio da Igreja, sobre várias questões, ou não é muito alienado, ou possui indisfarçável má-fé. A carta apenas trouxe a luz, de modo mais claro, a tremenda falta de unidade que debilita nossa Fé.

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>