A Inauguração do Reino Novo: o modo de acontecer e de agir

Abílio Louro de Carvalho – 25/12/2016

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“O Menino interpela-nos desde a manjedoura, mas também desde “as crianças que, hoje, não são reclinadas num berço nem acariciadas pelo carinho duma mãe e dum pai, mas jazem nas miseráveis manjedouras de dignidade”, ou seja “no abrigo subterrâneo para escapar aos bombardeamentos, na calçada duma grande cidade, no fundo dum barco sobrecarregado de migrantes”.

Interpela-nos

  • nas crianças impedidas de nascer,
  • nas que “choram porque ninguém lhes sacia a fome”,
  • nas que “na mão não têm brinquedos, mas armas”.”

 

Na catequese semanal do passado dia 21 de dezembro, na sala Paulo VI e no quadro das audiências gerais, Francisco considerou o Natal, que se avizinhava, como o momento em que Deus demonstra a sua fidelidade e inaugura um Reino Novo de tal modo que induz “uma nova esperança à humanidade”. E sustenta a sua declaração nas passagens do profeta Isaías, que agora se cumprem: “uma Virgem conceberá e dará à luz um filho, ao qual será dado o nome de Emanuel” (Is 7,14); e “um renovo sairá do tronco de Jessé, um rebento brotará das suas raízes (Is 11,1). E para o Bispo de Roma a esperança ora entrada no mundo desemboca na “vida eterna”.

Na verdade, a esperança que apresentamos ultrapassa o que está no poder do homem. Por causa dela, esperamos o que “vai além das nossas forças e do nosso olhar”. Mas o Natal de Cristo, inaugurando a redenção, mostra-nos “uma esperança confiável, visível e compreensível, porque fundada em Deus”. Deus entra visivelmente no mundo e visivelmente “caminha ao nosso lado em Jesus”.

Ora, “caminhar com Ele rumo à plenitude da vida dá-nos a força de viver o presente de maneira nova, embora difícil”. Se, para o cristão, a esperança dá “a certeza de estar a caminho com Cristo rumo ao Pai que nos aguarda”, torna-se firme que “a esperança nunca está parada, a esperança está sempre a caminho e leva-nos a caminhar”. E a esperança, que o Menino nos comunica constitui “uma meta, um destino bom para o presente, a salvação à humanidade, a bem-aventurança a quantos confiam em Deus misericordioso”.

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O Papa sublinha que Jesus nasceu em Belém, lugar modesto onde há um milénio nascera “David, o pequeno pastor escolhido por Deus como rei de Israel”. Não sendo uma capital, Belém “é preferida pela providência divina, que gosta de agir através dos pequeninos e dos humildes”.

E, em Belém, contemplamos Maria a dar à luz o menino Emanuel e a envolvê-lo em panos para o expor na manjedoura.

  • Ela tornou-se “Mãe da esperança”, pois, com o seu ‘sim’ “abriu a Deus a porta do nosso mundo”.
  • Ela, que “por nove meses foi a arca da nova e eterna Aliança, na gruta contempla o Menino e nele vê o amor de Deus, que vem para salvar o seu povo e a humanidade inteira”.
  • Com Maria está José, que também “acreditou nas palavras do anjo e, olhando para Jesus na manjedoura, medita que aquele Menino vem do Espírito Santo e que o próprio Deus lhe ordenou que o chamassem assim, Jesus”. Este nome compagina a esperança para cada homem, porque Jesus “salvará a humanidade da morte e do pecado”.

E, no presépio, o Papa vê os pastores como representantes dos humildes e dos pobres “que esperavam o Messias, a consolação de Israel (Lc 2,25) e a libertação de Jerusalém (Lc 2,38)”, vendo naquele Menino “o cumprimento das promessas” e aguardando que “a salvação de Deus finalmente chegue para cada um deles”. Confiar “nas próprias seguranças” implica não esperar “a salvação de Deus”, pois, “a única segurança que nos salva é a esperança em Deus”. Assim, “os pequeninos, os pastores, confiam em Deus, esperam n’Ele e alegram-se quando reconhecem naquele Menino o sinal indicado pelos anjos (cf Lc 2,12).

E é “o coro de anjos que anuncia o desígnio que o Menino realiza: “Glória a Deus no mais alto dos céus e na terra paz aos homens, que Ele ama” (Lc 2,14). A esperança louva e glorifica a Deus, “que inaugurou” o Reino Novo, o “Reino de amor, de justiça e de paz”.

Nestes termos, o Natal é “verdadeiramente uma festa, se recebermos Jesus, semente de esperança que Deus coloca nos sulcos da nossa história pessoal e comunitária”. E “cada ‘sim’ a Jesus que vem é um rebento de esperança”, que salva. Por isso, o Papa apela à confiança “neste rebento de esperança, neste sim”, porque efetivamente Jesus pode salvar-nos.

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Na sua homilia na missa da noite de Natal, na Basílica Vaticana, o Papa comentou as palavras do Apóstolo na carta a Tito, “Manifestou-se a graça de Deus, portadora de salvação para todos os homens” (Tt 2,11). E o seu comentário insiste no dom gratuito de Deus que a noite de Natal constitui. É a noite de glória, a noite de luz, a noite de alegria – “porque, desde agora e para sempre, Deus, o Eterno, o Infinito, é Deus connosco: não está longe, não temos de O procurar nas órbitas celestes nem em qualquer ideia mística”.

É a luz, profetizada por Isaías, que havia de iluminar quem caminha em terra tenebrosa (cf Is 9,1) que se manifestou e “envolveu os pastores” (cf Lc 2,9), porque toda a glória, alegria e luz confluem no sinal dado pelo anjo: “Encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura” (Lc 2,12). É “o sinal de sempre para encontrar Jesus”, o sinal da “simplicidade frágil dum pequenino recém-nascido”, da “mansidão que demonstra no estar deitado, a ternura afetuosa das fraldas que O envolvem”.

O Papa salienta que o Evangelho “nos fala paradoxalmente do imperador, do governador, dos grandes” e que “Deus não Se apresentou lá”, “mas na pobreza dum curral” – o que “nos deixa surpreendidos”. E, “para O encontrar, é preciso ir aonde Ele está”, inclinando-se, abaixando-se, fazendo-se pequenino.

 

O Menino interpela-nos desde a manjedoura, mas também desde “as crianças que, hoje, não são reclinadas num berço nem acariciadas pelo carinho duma mãe e dum pai, mas jazem nas miseráveis manjedouras de dignidade”, ou seja “no abrigo subterrâneo para escapar aos bombardeamentos, na calçada duma grande cidade, no fundo dum barco sobrecarregado de migrantes”. Interpela-nos nas crianças impedidas de nascer, nas que “choram porque ninguém lhes sacia a fome”, nas que “na mão não têm brinquedos, mas armas”.

Assim, o mistério do Natal, sendo “luz e alegria, interpela e mexe connosco”, por ser ao mesmo tempo “mistério de esperança” e mistério de tristeza”. O sabor de tristeza resulta do amor “não acolhido”, da vida “descartada”, como sucedeu “a José e Maria, que encontraram as portas fechadas e puseram Jesus numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria (Lc 2, 7).

Jesus nasce rejeitado por alguns e na indiferença da maioria. A indiferença com que Jesus foi prendado pelos homens “pode reinar também hoje, quando o Natal se torna uma festa onde os protagonistas somos nós, em vez de ser Ele”, como acontece “quando as luzes do comércio põem na sombra a luz de Deus” ou “nos afanamos com as prendas”, ficando “insensíveis a quem está marginalizado”. É, pois, urgente libertar o Natal desta mundanidade o fez refém.

Mas o Papa vê aqui “um sabor de esperança”, pois, apesar das nossas trevas, “resplandece a luz de Deus”, que, “enamorado por nós”, nos atrai com a sua ternura dum nascimento “pobre e frágil no nosso meio, como um de nós”. O seu nascimento em Belém, “casa do pão”, sugere que Ele “nasce como pão para nós, vem à nossa vida, para nos dar a sua vida, vem ao nosso mundo, para nos trazer o seu amor”. Há – ensina Francisco – “uma linha direta que liga a manjedoura e a cruz, onde Jesus será pão repartido: é a linha direta do amor que se dá e nos salva, que dá luz à nossa vida, paz aos nossos corações”.

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Assim, é imperativo para nós deixarmo-nos “interpelar e convocar nesta noite por Jesus” – temos de ir sem detença ao seu encontro, “a partir daquilo em que nos sentimos marginalizados, a partir dos nossos limites, a partir dos nossos pecados”, deixando-nos “tocar pela ternura que salva”, por “Deus que Se faz próximo”.

Entrando “no verdadeiro Natal com os pastores”, levaremos “a Jesus o que somos, as nossas marginalizações, as nossas feridas não curadas, os nossos pecados”; e n’Ele, “saborearemos o verdadeiro espírito do Natal: a beleza de ser amado por Deus”.

Parando, com Maria e José, diante da manjedoura e de Jesus “que nasce como pão” para a nossa vida, contemplaremos “o seu amor humilde e infinito” e dir-Lhe-emos “pura e simplesmente obrigado: Obrigado, porque fizestes tudo isto por mim”…

***

E Francisco, na sua mensagem Urbi et Orbi, falou do sentido do Natal para a Igreja:

“Hoje, a Igreja revive a maravilha sentida pela Virgem Maria, São José e os pastores de Belém ao contemplarem o Menino que nasceu e jaz numa manjedoura: Jesus, o Salvador. Neste dia cheio de luz, ressoa o anúncio profético: Um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado; tem a soberania sobre os seus ombros e o seu nome é: Conselheiro-Admirável, Deus herói, Pai-Eterno, Príncipe da Paz.” (Is 9,5).

Trata-se de um poder que não é do mundo. É, antes,

“O poder que criou o céu e a terra, que dá vida a toda a criatura: aos minerais, às plantas, aos animais; é a força que atrai o homem e a mulher e faz deles uma só carne, uma só existência; é o poder que regenera a vida, que perdoa as culpas, reconcilia os inimigos, transforma o mal em bem. É o poder de Deus. Este poder do amor levou Jesus Cristo a despojar-Se da sua glória e fazer-Se homem; e levá-Lo-á a dar a vida na cruz e ressurgir dentre os mortos. É o poder do serviço, que estabelece no mundo o reino de Deus, reino de justiça e paz.”.

Sendo este o poder do amor encarnado, o poder redentor, é justo que os anjos o anunciem cantando: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado” (Lc 2,14).

É um anúncio que hoje “percorre a terra inteira e quer chegar a todos os povos, especialmente aos povos que vivem atribulados pela guerra e duros conflitos e sentem mais intensamente o desejo da paz”.

E, sob a égide deste anúncio, o Papa propõe a todos o compromisso da Paz:

Paz aos homens e mulheres na martirizada Síria, onde demasiado sangue foi vertido e onde é preciso calar as armas e entrar na via negocial eficaz;

Paz às mulheres e homens da Terra Santa, eleita e predileta de Deus, onde “Israelitas e palestinos” devem ter “a coragem e a determinação de escrever uma página nova da história”, fazendo que “o ódio e a vingança cedam o lugar à vontade de construir, juntos, um futuro de mútua compreensão e harmonia”;

Paz ao Iraque, à Líbia e ao Iémen, onde “as populações padecem a guerra e brutais ações terroristas”, sendo ali urgente o reencontro da unidade e da concórdia;

Paz aos homens e mulheres em várias regiões da África, em particular na Nigéria, onde “o terrorismo fundamentalista usa mesmo as crianças para perpetrar horror e morte”, no Sudão do Sul e na República Democrática do Congo, onde urge que sejam “sanadas as divisões e todas as pessoas de boa vontade se esforcem por embocar num caminho de desenvolvimento e partilha, preferindo a cultura do diálogo à lógica do conflito”;

Paz às mulheres e homens que sofrem ainda as consequências do conflito no leste da Ucrânia, onde urge a “vontade comum de levar alívio à população e implementar os compromissos assumidos”;

Paz e concórdia ao povo colombiano, que “anela realizar um novo e corajoso caminho de diálogo e reconciliação”, e à Venezuela, para que dê “os passos necessários para pôr fim às tensões atuais” e edifique “um futuro de esperança para toda a população”;

Paz a todos os que “suportam sofrimentos devido a perigos constantes e injustiças persistentes”, podendo “o Myanmar consolidar os esforços por favorecer a convivência pacífica e, com a ajuda da comunidade internacional, prestar a necessária proteção e assistência humanitária a quantos, delas, têm grave e urgente necessidade, e “a Península Coreana” ver as suas tensões “superadas num renovado espírito de colaboração”;

Paz a quem foi ferido ou perdeu uma pessoa querida por “brutais atos de terrorismo, que semearam pavor e morte no coração de muitos países e cidades”;

Paz – não em palavras, mas real e concreta – aos nossos irmãos e irmãs abandonados e excluídos, aos que “padecem a fome e a quantos são vítimas de violência”;

Paz aos deslocados, aos migrantes e aos refugiados, “a todos os que hoje são objeto do tráfico de pessoas”;

Paz aos povos que sofrem por causa das ambições económicos “de poucos e da avidez insaciável do deus-dinheiro que leva à escravidão”;

Paz a quem suporta dificuldadessociais e económicas e a quem padece as consequências dos terramotos ou doutras catástrofes naturais”;

– Paz às crianças, neste dia especial em que “Deus Se faz criança, sobretudo às privadas das alegrias da infância por causa da fome, das guerras e do egoísmo dos adultos”;

Paz na terra a todas as pessoas de boa vontade, “que trabalham diariamente, com discrição e paciência, em família e na sociedade para construir um mundo mais humano e mais justo”, sustentadas na convicção de que só há possibilidade de futuro próspero para todos “com a paz”.

***

Parece que ninguém foi esquecido pelo Pontífice. Será que, por absurdo, Deus tem de renunciar à dilatação daquele Reino Novo e assumir as categorias mentais e comportamentais dos homens? Ou será, antes, que temos de dizer que os homens resistem estoicamente à mensagem do Natal? Se calhar, é mesmo necessário e oportuno seguir o conselho do Bispo de Roma:

“Um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado: é o Príncipe da Paz. Acolhamo-Lo!”.

Ou por outras palavras:

“Neste dia de alegria, todos somos chamados a contemplar o Menino Jesus, que devolve a esperança a todo o ser humano sobre a face da terra. Com a sua graça, demos voz e demos corpo a esta esperança, testemunhando a solidariedade e a paz.”

 

 

Abílio Louro de Carvalho

Abílio Louro de Carvalho

Fonte: http://ideiaspoligraficas.blogspot.com.br/2016/12/a-inauguracao-do-reino-novo-o-modo-de.html

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