“A reforma não é uma cirurgia estética. Tememos as manchas, não as rugas”

Francisco - Reuters

Andrea Tornielli – 22/12/2016

Tradução: Orlando Almeida

Foto:© Fournis par France Médias Monde REUTERS/Gregorio Borgia/Pool

Saudações de Natal à Cúria (Clique e veja a íntegra da Mensagem de Francisco à Cúria – ndr): o Papa apresenta os 12 critérios-guia das reformas. Há “resistências malévolas” e “‘gatopardismo’ * espiritual”. É “indispensável” acabar com o ‘promoveatur ut amoveatur’, definido como ‘um câncer’. Mais espaço para leigos e mulheres

“A reforma da Cúria não é um ‘lifting’, uma operação de cirurgia plástica “para tirar as rugas”, porque “não são as rugas que se devem temer na Igreja mas as manchas!”.  E as reformas também encontram “resistências malévolas, que germinam em mentes distorcidas”: uma  “resistência” que “se esconde atrás de palavras justificadoras ? e, em muitos casos, acusadoras, refugiando-se nas tradições, nas aparências, nas formalidades”. Foi isso o que disse o papa Francisco no discurso à Cúria romana por ocasião da troca de saudações natalinas.

  • Em 2014, tinha falado das ‘doenças da Cúria’,
  • no ano passado das virtudes necessárias aos membros da Cúria.
  • Agora após o diagnóstico chegam as prescrições médicas, ou seja, os critérios que nortearam a reforma da Cúria, começada há mais de três anos e com o canteiro de obras ainda  aberto.

 

Deus escolheu nascer pequeno

No início do seu discurso, Bergoglio lembra o sentido do Natal, nas palavras de São Macário, monge do século IV: “O Deus infinito, inacessível e não criado, pela sua bondade imensa e inefável, tomou um corpo e eu diria que se diminuiu infinitamente da sua glória”. O Natal, então, “é a festa da humildade amorosa de Deus, do Deus que inverte a ordem do lógico óbvio, a ordem do devido, do dialético e do matemático. Nesta inversão está toda a riqueza da lógica divina que rompe os limites da nossa lógica humana”.

Citando Romano Guardini e Paulo VI, o Papa disse que “na realidade, Deus escolheu nascer pequeno, porque quis ser amado. Eis como a lógica do Natal é a inversão da lógica mundana, da lógica do poder, da lógica do mando, da lógica farisaica e da lógica causalista ou determinista “

 

O sentido da reforma

A reforma, explica o Papa, significa tornar a Cúria ‘con-forme’ ao anúncio do Evangelho e aos “sinais do nosso tempo”, e ao mesmo tempo mais ‘con-forme’ ao seu fim, que é o de colaborar «com o ministério próprio” do Pontífice e portanto apoiá-lo “no exercício do seu poder singular, ordinário, pleno, supremo, imediato e universal”. Um trecho do discurso acompanhado por abundantes notas e citações de rodapé, nas quais se lembra o que foi afirmado pelo  Concílio, isto é, que “a Cúria é um organismo de ajuda ao Papa” e que o serviço dos organismos curiais ” é sempre feito” em nome e sob a autoridade do Papa.

Em seguida, é citado Paulo VI, que enfatizava a relação “essencial” da Cúria com o ‘ exercício da atividade apostólica do Papa”, que é a sua razão de ser. Conceitos reiterados por João Paulo II, que escreveu que a Cúria “vive e opera na medida em que está em relação com o ministério petrino e nele se baseia”.  Ênfases evidentemente não aleatórias.

Francisco - Cúria dec 16Francisco fala à Cúria Romana – 22/12/2016 – L´Osservatore Romano/AP

 

A reforma não é um ‘lifting’

Francisco reitera em seguida que a reforma é um processo de crescimento e sobretudo de conversão. Não tem “um fim estético,” não é um ‘lifting’ ou uma maquilagem “para embelezar o idoso corpo curial”, e nem mesmo uma cirurgia plástica para remover rugas, porque “não são as rugas que se devem temer na Igreja, mas as manchas”.

O Papa explica que “a reforma será eficaz só e unicamente se for realizada por homens ‘renovados’ e não simplesmente homens ‘novos’. É necessário portanto “levar os membros da Cúria a renovar-se espiritualmente, humanamente e profissionalmente”. Não basta mudar as pessoas, é necessária “a conversão das pessoas”, “não basta uma ‘formação permanente, é necessária também e sobretudo uma conversão e uma purificação permanente”. Porque sem uma “mudança de mentalidade  o esforço funcional seria em vão”.

 

Dificuldades normais e resistências malévolas

Nesse caminho, explica Francisco, “é normal, e até saudável, encontrar dificuldades» e resistências.

Umas que são “abertas, que nascem muitas vezes da boa vontade e do diálogo sincero”, outras “escondidas, que nascem” nos coraçõesamedrontados ou empedernidos que se alimentam das palavras vazias do ‘gatopardismo’ * espiritual; de quem com palavras se declara pronto para a mudança mas quer tudo continue como antes”.

Mas existem também as “resistências malévolas, que germinam em mentes distorcidas e ocorrem quando o diabo inspira más intenções (muitas vezes disfarçadas como cordeiros), embora o Papa tenha lido “anjos”. “Este último tipo de resistência – continua – esconde-se atrás de palavras justificadoras e, em muitos casos, acusadoras, refugiando-se nas tradições, nas aparências, nas formalidades”.

Mas o Papa também salienta que “a ausência de reação é sinal de morte!” e que portanto todas as resistências são necessárias “e merecem ser ouvidas, acolhidas e encorajadas a se expressar”.

A reforma é um processo que “deve ser vivido

  • com fidelidade ao essencial,
  • com contínuo discernimento,
  • com coragem evangélica”
  • com escuta, ação, silêncio,
  • com “decisões firmes”,
  • com muita oração e humildade,
  • “com passos concretos para diante – e quando necessário – também com passos para trás”(uma referência, esta, às correções durante o processo de algumas decisões tomadas),
  • com “autoridade responsável,
  • com obediência incondicional”,
  • mas principalmente abandonando-se “à condução segura do Espírito Santo” .

 

Os critérios

Francisco, em seguida, elenca os doze critérios da reforma.

  • Individualidade, isto é, “conversão pessoal”, sem a qual “serão inúteis todas as mudanças nas estruturas”.
  • Pastoralidade, de modo que “ninguém se sinta negligenciado ou maltratado”. Uma “espiritualidade de serviço e de comunhão” é o antídoto “contra todos os venenos da ambição vã e da rivalidade ilusória”.
  • Missionariedade, isto é, “Cristocentrismo”, porque “sem vida nova e autêntico espírito evangélico”, qualquer nova estrutura “se corrompe em pouco tempo”.
  • Racionalidade, para “evidenciar que cada Dicastério tem competências próprias” que “devem ser respeitadas mas também distribuídas” com “eficácia e eficiência”.
  • Funcionalidade: As incorporações servem para dar aos novos dicastérios “uma maior relevância (mesmo externa)” e para ter “uma maior funcionalidade”, com revisão contínua “dos papéis, das competências e das responsabilidades do pessoal”.
  • Modernidade, isto é, “aggiornamento”, a “capacidade de ler e escutar os ‘sinais dos tempos’”.
  • Sobriedade, para racionalizar e simplificar, “para um testemunho correto e autêntico”.
  • Subsidiariedade, com a reorganização ou a transferência de algumas competências “para alcançar a autonomia”.

 

Leigos e mulheres

Francisco indica a importância do “respeito pelos princípios da subsidiariedade e da racionalização na relação com a Secretaria de Estado” para que ela “seja a ajuda direta e imediata do Papa. Isto também para uma melhor coordenação dos diferentes setores dos Dicastérios e dos Órgãos da Cúria”.

  • Sinodalidade, que deve tornar-se mais habitual no trabalho da Cúria, seja com reuniões dos chefes dos Dicastérios, na presença do Papa, seja dentro dos vários Dicastérios, “dando especial relevância ao Congresso e maior frequência ao menos à sessão ordinária”.
  • Catolicidade, ou seja, “admissão de pessoal proveniente do mundo todo, de diáconos permanentes e de fiéis leigos”, cuja escolha “deve ser feita cuidadosamente com base na sua vida espiritual e moral exemplar e na sua competência profissional”. É oportuno “prever o acesso de um maior número de fiéis leigos”. De “grande importância” também “a valorização do papel da mulher e dos leigos na vida da Igreja e a sua integração nos papéis-chave dos dicastérios”.
  • Profissionalismo, isto é, “a formação permanente do pessoal”. Por outro lado, explica Francisco, “é indispensável o arquivamento definitivo da prática do promoveatur ut amoveatur“, isto é, da promoção de quem se quer tirar de um cargo, [prática] definida, com um acréscimo de improviso, como “um câncer”. Por último,
  • gradualidade, isto é, discernimento, que requer “verificação, correções, testes, experimentação, aprovações ad experimentum. Por conseguinte, nestes casos, não se trata de indecisão mas da flexibilidade necessária para poder alcançar uma verdadeira reforma”.

 A lista dos passos concluídos

 Segue-se depois o elenco cuidadoso do que foi realizado até agora:

  • o Conselho dos Cardeais (C9);
  • as comissões referentes sobre o IOR e sobre a organização da estrutura económico- administrativa;
  • a nova jurisdição dos órgãos judiciários do Vaticano em matéria penal;
  • o Comitê de Segurança Financeira; a consolidação da AIF [Autoridade de Informação Financeira];
  • a instituição da Secretaria e do Conselho para a Economia e do Revisor Geral;
  • a criação da Comissão para a Proteção dos Menores;
  • a transferência da seção ordinária da APSA [Administração do Patrimônio da Sé Apostólica] para a Secretaria da Economia;
  • os estatutos dos novos organismos econômicos;
  • a criação da Secretaria de Comunicações e o seu estatuto;
  • a reforma do processo canônico para as causas de nulidade do matrimônio;
  • a legislação para prevenir negligências dos bispos nos casos de abuso sexual de menores pelo clero;
  • a criação dos novos Dicastérios – para os leigos, a família e a vida, e para o serviço do desenvolvimento humano integral;
  • o Estatuto da Academia para a vida.

 As palavras do monge

 O Papa concluiu voltando ao tema do Natal, com as palavras de um monge contemporâneo recentemente falecido, Matta el Meskin, que dirigindo-se ao Menino de Belém disse: “Dá-nos a graça de não nos acharmos grandes nas nossas experiências. Dá-nos, em vez disso, a graça de nos  tornarmos pequenos como tu a fim de que possamos ficar perto de ti e receber de ti humildade e mansidão em abundância … O mundo está cansado e esgotado porque compete para ver quem é o maior”.

 

O presente

Após o discurso, o Papa falou de improviso sobre o presente que este ano quer dar aos cardeais. “Quando há dois anos falei das doenças da Cúria, um de vocês veio dizer-me:” Tenho que ir à farmácia ou à confissão?”. “Ambas as coisas!” – disse eu. Depois o Cardeal Brandmüller olhou-me nos olhos e disse-me: Acquaviva! Eu não entendi de imediato, mas depois lembrei-me de um livro do Padre Acquaviva (Superior dos jesuítas no século XVI, ndr) que tinha escrito um livro que nós estudantes líamos em latim e que os padres espirituais nos davam a ler. Era dedicado às  doenças da alma, “Medidas para tratar as doenças da alma”Há alguns meses este livro foi publicado com uma edição muito boa e uma belíssima tradução, com uma introdução de padre Raffo, que faleceu recentemente”.

É interessante notar que Francisco quis citar o cardeal Brandmüller, um dos quatro cardeais signatários dos ‘dubia’ sobre ‘Amoris Laetitia’.

 *  “Gatopardismo”, em ciências sociais, significa “mudar tudo para que nada mude”,  paradoxo apresentado pelo escritor  italiano Giuseppe Tomasi di Lampedusa (1896-1957), no seu livro: Il Gattopardo. Fonte: web

 

Andrea Tornielli 1

Andrea Tornielli

http://www.lastampa.it/2016/12/22/vaticaninsider/ita/vaticano/la-riforma-non-un-lifting-temiamo-le-macchie-non-le-rughe-TXm2uJBfGGS3UA2XksnJSO/pagina.html

1 comment to “A reforma não é uma cirurgia estética. Tememos as manchas, não as rugas”

  • Irene Cacais

    Se o entusiasmo dos restantes cardeais e bispos é tão “grande” como mostra a cara do meu compatriota, Bispo Georg Gänswein, então temos que rezar muito pelo nosso Papa Francisco.

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