Os “últimos padres” da Irlanda são uma tribo perdida: velhos, sozinhos e desencorajados

É necessário analisar os elementos que contribuem para agravar de forma injusta e perigosamente, a vida dos sacerdotes idosos e os múltiplos fatores que aumentam neles uma crescente sensação de desconforto, e às vezes de desespero.

Prete irlandese

Brendan Hoban – 10/12/2016

Brendan Hoban, um padre irlandês de 68 anos, é co-fundador da Associação de Padres Católicos (ACP). Recentemente, ele escreveu uma carta aberta sobre a situação do clero mais antigo na Irlanda, que foi publicada pelo site do jornal Irish Times, em 21 de novembro (aqui o texto em inglês). Ver a seguir a carta numa tradução nossa do Inglês.

 Uma “tribo perdida”

Quando fui ordenado, há 43 anos, eu tinha 25 anos e o meu pároco tinha 70. Eu imaginava então que na sua idade eu teria uma situação semelhante à dele. Mas é claro que o mundo clerical seguro, protetor e confiante em que vivíamos implodiu completamente.

Naquela época um pároco podia esperar que teria um coadjutor que faria a maior parte do trabalho, se ele não pudesse ou não quisesse fazê-lo sozinho. Hoje, os coadjutores são uma espécie em vias de extinção.

Naquela época um pároco podia esperar conforto e companhia nos anos do seu declínio. Hoje, em sua maioria, os sacerdotes vivem sozinhos.

Naquela época um pároco tinha como certo que seria respeitado e apoiado pelos seus paroquianos. Hoje, somos muitas vezes lastimados, ultrajados, insultados, tratados com desprezo, ignorados e mal tolerados.

Naquela época havia um ror de vocações; quase todas as pessoas iam à missa (e aqueles que não iam eram de qualquer forma acolhidos pelos Redentoristas por meio da missão paroquial). Quase todos participavam da coleta, até porque, se não o fizessem, seriam, como se costumava dizer, “repreendidos do altar”.

 

 Velho monge irlandês, lendo no Parque do Convento. Foto: IrishTimes

 

Não estou elogiando o passado como um tempo sem ambiguidades. Longe de mim.

Mas os tempos hoje são outros:

  • poucas vocações,
  • congregações que desaparecem diante dos nossos olhos,
  • ofertas anuais em queda,
  • moral a um nível cada vez mais baixo.

Exagero? Sim, um pouco, para dar ênfase. Mas só um pouco. A maré está descendo e só quem não está em sincronia com a realidade pode imaginar que ela esteja subindo de novo. É preciso parar de fazer esse jogo.

O problema não é que a Igreja da Irlanda não sobreviva ou não saiba adaptar-se às novas e mutáveis circunstâncias – não tenho nenhuma dúvida de que o fará. A minha pergunta é sobre uma urgência particular: como podem os últimos sacerdotes na Irlanda viver os anos conclusivos da sua vida encontrando

  • um pouco de conforto,
  • de estima
  • e de afeto?

É necessário analisar os elementos que contribuem para agravar de forma injusta e perigosamente, a vida dos sacerdotes idosos e os múltiplos fatores que aumentam neles uma crescente sensação de desconforto, e às vezes de desespero.


Fr Brendan Hoban was speaking at a meeting of the Association of Catholic Priests in Athlone

Pe. Brendan Hoban, autor da carta aberta ao Irish Times: Foto da internet

Trabalho

O que nos espera, ao envelhecer, é ter de trabalhar mais e mais duramente. A idade da aposentadoria para os sacerdotes é de 75 anos; mas muitos ainda estão em serviço com seus 80 anos, muitas vezes a contragosto, sob a pressão do senso do dever ou, às vezes, do senso de culpa.

O efeito da nossa carga de trabalho aumentada – e em constante crescimento – é que nos tornamos de fato “máquinas-dispensa-sacramentos”, com o trabalho  pastoral se tornando cada vez menos satisfatório, com pouco ou nenhum envolvimento verdadeiro com os nossos paroquianos. A diocese de Dublin e de Killala, ou seja, uma das maiores da Irlanda, e uma outra dentre as menores do país, têm uma coisa em comum: ambas têm apenas um padre diocesano com menos de 40 anos.

Complexidade

O maior trabalho é uma coisa. A complexidade é outra. Enfrentamos em nível pastoral questões que ultrapassam a nossa formação, experiência e competência. Tomemos, por exemplo, ter que fazer ministério com casais homossexuais da nossa paróquia.

Isolamento

Nós padres idosos vivemos vidas cada vez mais isoladas; uma condição exacerbada pela idade. Vivemos sozinhos. Um medo crescente e uma ansiedade crescente, que nascem do isolamento, podem marcar os últimos anos de nossas vidas e criar uma vulnerabilidade e um nervosismo que nunca tínhamos experimentado antes.

Solidão

A nossa condição de celibato comporta um certo isolamento e uma certa solidão. A solidão no sacerdócio depende de uma série de fatores: personalidade, estratégias de vida, hobbies, auto-estima, mobilidade,  identidade e – obviamente – saúde; e a solidão aumenta constantemente se cada um destes fatores fica submetido a um stress crescente.

Saúde

Sacerdotes que vivem sozinhos, e ficam cada vez mais isolados, são propensos à depressão. O aumento do número de suicídios entre os padres e o crescente conjunto de provas anedóticas de depressão e de desespero são uma realidade que ignoramos por nossa conta e risco.

Insucesso e responsabilidades

Houve um tempo em que nós padres imaginávamos ter todas as respostas e  ser senhores de tudo o que tutelávamos. Hoje essa carga de expectativas irreais sobre nós mesmos, como se fôssemos messias, deu lugar a uma sensação de fracasso pessoal, uma vez que a Igreja entrou em colapso sob o nosso controle.

Estima

Enquanto a velhice traz consigo a sua miríade de inconvenientes e deficiências, e enquanto começamos a contemplar, com calma e frieza, o que resta da nossa vida, algumas verdades começam a ficar mais claras. Uma delas é que, à medida que envelhecemos, cresce um sentimento quase de desespero ao percebermos quão pouco cuidado, estima ou afeição existe na nossa vida.

  • Destinatários de uma avalanche de críticas e de reprovação por parte da mídia,
  • alvos constantes de ressentimento,
  • muitas vezes insultados e desprezados,

os últimos padres da Irlanda são uma “tribo perdida”, em apuros perante

  • o isolamento,
  • a doença
  • e as muitas limitações da idade avançada.

Tidos como garantidos, forçados a trabalhar na idade da sua aposentadoria, com poucos padres para tomarem o seu lugar, muitas vezes desconfiados dos seus bispos, muitos deles já perderam a esperança de receber aquele reconhecimento, consideração, apoio e, sobretudo, aquele respeito que acreditam ser-lhes devido.

 

Fr. Brendan Hoban

é Membro Fundador da Associoação dos Padres Católicos da Irlanda

Fontes: http://www.irishtimes.com/opinion/fr-brendan-hoban-ireland-s-last-priests-are-a-lost-tribe-1.2873887

http://www.settimananews.it/ministeri-carismi/irlanda-gli-ultimi-preti-anziani-soli-scoraggiati/

2 comments to Os “últimos padres” da Irlanda são uma tribo perdida: velhos, sozinhos e desencorajados

  • Claudia Marques

    I am brazilian,i have a friend padre Tommy orande and need News for he please help me
    Telephone:7193509880

  • João Tavares

    Claudia, em que Estado do Brasil ele mora? Tem alguma referencia sobre ele?

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